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#2807 - Fernando Pessoa - carta a Ronald de Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.18

Fernando Pessoa - carta a Ronald de Carvalho


"Para as mãos de Fernando Pessoa, fraternalmente Ronaldo de Carvalho. Rio MCMXIV"
A única carta conhecida de Fernando Pessoa a um poeta brasileiro.


Um exemplar do livro "Luz Gloriosa", foi oferecido a Fernando Pessoa pelo autor e enviado através de Luís de Montalvor, no seu regresso a Lisboa após dois anos como secretário da Embaixada de Portugal no Rio de Janeiro. O livro tem uma dedicatória escrita pelo punho de Ronald de Carvalho:

Em 29 de Fevereiro de 1915, Fernando Pessoa escreveu ao autor, agradecendo o livro que este lhe oferecera e fazendo uma crítica de "Luz Gloriosa", leia abaixo a carta na íntegra. A crítica de Fernando Pessoa parece ter influenciado Ronald de Carvalho, que iria aderir ao modernismo, destacando-se a sua intervenção na Semana de Arte Moderna de 1922, cinco anos mais novo do que Fernando Pessoa, Ronald de Carvalho viria a morrer, por coincidência, no mesmo ano do escritor português.


CARTA DE FERNANDO PESSOA AO POETA RONALD DE CARVALHO

 

Lisboa, 24 de Fevereiro de 1914?


Meu caro Poeta
.

Escrevo-lhe a desoras da Delicadeza. Há meses que o Luís de Montalvor me fez chegar aos olhos o seu Livro. Embora o lesse sem tardança, tenho demorado o agradecimento para além dos limites que se usam. A licença poética não admite tanto. Eu tenho abusado do direito concedido aos camaradas de responder longe de propósito. Começo a minha carta por lhe pedir as desculpas a que este adiamento obriga.


Não sei que lhe diga do seu livro, que seja bem um ajuste entre a minha sensibilidade e a minha inteligência. Ele é deveras a obra de um Poeta, mas não ainda de um Poeta que se encontrasse, se é que um Poeta não é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra. Há imperfeições e inacabamentos nos seus versos. Vêem-se ainda entre as flores as marcas das suas passadas. Não se deveriam ver. Do poeta deve ser o ter passado sem outro vestígio que a presença das rosas. Para quê os ramos quebrados, ainda, e partido o caule das violetas?


Eu não lhe devia dizer isto, talvez, sem prefaciar que sou o mais severo dos críticos que tem havido. Exijo a todos mais do que eles podem dar. Para que lhes havia eu de exigir o que cabe na competência das suas forças? O poeta é o que sempre excede o que pode fazer.
O seu livro é dos mais belos que recentemente tenho lido. Digo-lhe isto para que, não me conhecendo, me não julgue posto sobre a severidade sem atenção às belezas do seu livro. Há em si o com que os grandes poetas se fazem. De vez em quando a mão do escultor faz falar as curvas nuas da sua Matéria. E então é o seu poema sobre o “Cais”, e o seu “Outono”, e este e aquele verso, caído dos deuses como o que é azul no céu nos intervalos da tormenta. Exija de si o que sabe que não poderá fazer. Não é outro o caminho da Beleza.
Eu detalho.


Tenho vivido tantas filosofias e tantas poéticas que me sinto já velho, e isto faz com que me dê o direito de o aconselhar, como Keats a Shelley, que esteja de vez em quando com as asas fechadas. Há um grande prazer estético às vezes em deixar passar sem exprimir uma emoção cuja passagem nos exige palavras. Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e fixar só aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. Nenhum poeta tem o direito de fazer versos porque sinta a necessidade de os fazer. Há só a fazer aqueles versos cuja inspiração é perfumada de imortalidade.


Escrevo e paro. Pergunto a mim-próprio se poderá julgar tudo isto, porque não é transbordante de elogios, uma crítica adversa. Não o conheço e não sei. Mas repare que só a quem muito aprecio eu escrevo destas coisas. Decerto me faça justiça de crer que a quem não tem nenhum valor eu digo imediatamente que tem muito. Só vale a pena notar os erros dos que são na verdade Poetas, daqueles em quem os erros são erros. Para que notar os erros daqueles que não têm em si senão o jeito de errar?


Com tudo isto, que parece hesitante no elogio, repito-lhe que o seu livro é dos mais belos que ultimamente tenho lido. A sua imaginação, doentia e delicada, é uma princesa que olha das janelas o luxo longínquo dos tanques. Vejo que sente os repuxos. Eles são com efeito as melhores horas da água, e decerto que os mais belos são aqueles, em jardins ainda do século dezoito (e que nós nunca poderemos ver) .
A sua sensibilidade dói-me. Por certo que outrora nos encontramos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo o nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirado os brinquedos, porque nós teimávamos que os soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andamos longas horas pela quinta. Como nos tinham tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade — que paga de seda para os nossos sacrifícios! — os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) essa era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e o seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as partidas que lhes fazem, porque são mostras de afeição. Foram belas essas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter essas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel da seda da nossa recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este — o terem-nos embrulhado os brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exatamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonho, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos... Éramos duma artificialidade mais divina...


Escrevo e divago, e tudo isto parece-me que foi uma realidade. Tenho a sensibilidade tão à flor da imaginação que quase choro com isto, e sou outra vez a criança feliz que nunca fui, e as alamedas e os brinquedos, e apenas, no fim de tudo, a supérflua realidade da Vida...
Perdoe-me que lhe escreva assim... A Vida, afinal, vale a pena que se lhe diga isto. Deus escuta-me talvez, mas de si ouve, como todos que escutam. A tragédia foi esta, mas não houve dramaturgo que a escrevesse...

Abraça-o

 

Fernando Pessoa

 

Fonte: PESSOA, Fernando. In “Correspondência (1905-1922)”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p.150. / in "Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa". Lisboa: Ática, 1966.  p. 135. /e TRIBUNA da Imprensa, Rio de Janeiro, 12-13 de Fevereiro de 1955, com o título “Carta inédita de Fernando Pessoa a Ronald de Carvalho”. [mantida a grafia original]

 

 

Autor - Templo Cultural Delfos

Elfi Kürten Fenske - Ano VII, 2017.

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publicado às 09:59


#2703 - Uma carta para a Francisca

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.11.17

 

Olá Francisca.

 

Dezembro é o último mês do ano. E no céu azul,  pequenas nuvens de algodão doce luzentes parecem árvores de natal.

 

As nuvens são habitadas por sonhos que espreitam e vigiam o teu sono através da janela do teu quarto,  e têm a forma de borboletas e pirilampos. E as vozes que tu ouves nos teus sonhos são de anjos que guardam e protegem a tua boca, os teus olhos, o teu coração, enfim, todo o teu corpo e te contam as histórias fantásticas do Lucas, da Mia e da Nina.

 

Todos nós temos uma nuvem que nos acompanha para todo o lado. É dentro dela que guardamos os nossos desejos, as nossas angústias, os nossos medos, as nossas lágrimas. E quando chove,  é a nuvem a limpar o nosso espírito, a nossa mente, a nossa alma, o nosso coração para ficarmos mais leves, mais serenos, mais inteligentes e com um enorme sorriso nos olhos.

 

Dezembro é o décimo segundo mês do ano. E o último. E no dia 25 celebra-se no mundo cristão o nascimento de Jesus Cristo. É Natal, que significa nascimento. E é o  tempo da generosidade, da solidariedade, das dávidas, da partilha, da comunhão, da reunião e do encontro. É o tempo das luzes festivas, que são as borboletas e os pirilampos que a tua nuvem, companheira de viagem, carrega durante o percurso que já começaste a fazer neste planeta que se chama Terra. E  enquanto durar a tua viagem que sejas  solidária, generosa, honesta com os outros mas principalmente contigo.

 

Um bom Natal. Que sejas muito feliz.

O Avô

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publicado às 19:30


#1620 - Correspondências > Fernando Pessoa a Ofélia

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.02.12


 

Meu Be«be»zinho lindo:

Não imaginas a graça que te achei hoje à janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
Tenho estado muito triste, e além d’isso muito cansado – triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d’essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado…
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria à minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
Enfim…


 

Amanhã passo à mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
Sempre e muito teu

 

 

In: PESSOA, Fernando. Cartas de Amor. Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.3ª ed. Lisboa: Ática, 1994.

 


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publicado às 11:53


#1619 - Correspondências > Camilo Castelo Branco

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.02.12

 

Ill.mo e Ex.mo Sr.

Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante 40 anos de trabalho.

Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.

Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.

Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex.a. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.

Poderá V. Ex.a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.

Mas poderá V. Ex.a dizer-me o que devo esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?

Digne-se V. Ex.a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conhece.

Camilo Castelo Branco

(Última carta de Camilo Castelo Branco ao Dr. Edmundo de Magalhães Machado, seu médico oftalmologista)

 

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publicado às 23:04


#1440 - De Jorge de Sena para Sophia de Mello

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.07.11

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Jorge de Sena

 

Filhos e versos, como os dás ao mundo?

Como na praia te conversam sombras de corais?

Como de angústia anoitecer profundo?

Como quem se reparte?

Como quem pode matar-te?

Ou como quem a ti não volta mais?

 

 

1950

 

Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta, 1969

 

Retirado do livro "Sophia de Mallo Breyner . Jorge de Sena - Correspondência 1959-1978", edição Guerra & Paz, Fevereiro de 2010

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publicado às 18:46


#1177 - Pablo Neruda: Cartas de amor inéditas a Matilde Urrutia

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.02.10



De todos los amores de Pablo Neruda (1904-1973), el de Matilde Urrutia (1912-1985) fue quizá el más intenso y prolongado. Una pasión encendida al principio, cotidiana y perruna al final, de la que dan cuenta las Cartas de amor inéditas que lanza esta semana Seix Barral, en edición de Darío Oses y de las que El Cultural adelanta las más significativas y desesperadas.

 

Ler resto aqui - Jornal "El País"

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publicado às 21:45


Cartas

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09


 

Correspondência trocada entre Jorge de Sena e José Blanc de Portugal


De José para Jorge


Benf. Maio 942


Caro e bom amigo


Eu é que fiquei feliz pela sua grande carta! Calcule que de há muito é o único contacto social que tenho com o mundo excepto os colegas de trabalho ou a gente das ruas e comboios de todos os dias!


Quanto às minhas coisas eu um dia farei tudo o que aconselha (embora muito sèriamente ache certíssimo o que V. diz "Uma coisa é preocupação pessoal, outra preocupação de lugar". Etc Etc... E quanto ao "escreva sempre" aqui estou de novo.


Não me espanta o que diz do Ruy. Depois da vez que nos viu juntos não o tornei a ver. Revi as provas (de artigos dos outros) da Revista e fui nessa mesma tarde levá-las a casa dele. Até hoje não mais novas nem mandados de qualquer ordem! É uma pessoa que parecendo cheia de delicadeza de sentimentos tem às vezes bem duras atitudes para os outros. Mas tudo se passará em bem...


Eu nada sei de Manuela Porto e do recital. Não tratarei disso é a única coisa que lhe posso dizer, mas também lhe digo que gostava imenso que se realizasse e gostaria imenso de lá ouvir qualquer coisa minha. Já vê que não sou falsamente modesto e que tenho ostensivamente anor-próprio mas não sou eu que tenho a intimidade ou à-vontade do Ruy ou do Kim para tratarem com ela.


Gostei tanto do seu trocadilho acerca do Atlântico e "costas de Portugal" (ou versalhada?!) que pensando em senas e azes do jogo da Vida (claro de V - "V for Victory"!) lhe improviso êste acróstico:

 

                         ACRÓSTICO


J   ogue a glória a quem quiser as sortes

O  limpo Apolo dê aos seus eleitos

R  enasçam fénix de infindas mortes

G  orjeiem cantos os coros celestes:

E  ste esmagará seus pares terrestres!


C  anções, poemas mil às musas dando

A  ele não podeis deusas ensinar!);

N  asce dele a poesia toda inteira

D  esse qual Júpiter nova Ateneia!

I   rrompe em fogos contra a asneira

D  omando-a fero em forte peia,

O  único que falar pode de cadeira!


D  esta terrena e breve vida passageira

E  téreo ele só, não seguindo de ninguém a esteira,


S  e não perde do mundo na voragem

E  neste globo, infrene tavolagem,

N  ativo herói das elíseas pazes

sena bate em cheio os azes!!!


(Do "Novo Parnaso Lusitano-Brasílico Dedicado aos Amadores das Musas dos Dois Países Irmãos por Uma Sociedade de Homens de Letras").


Não é talvez o meu melhor poema mas tenha paciência... Já que não lê o Sempre Fixe...


Lembra-me  o [José] Osório [de Oliveira], o Osório que eu persisto em crer meu amigo.


Com todos os seus defeitos à vista não é perigoso para ninguém e quanto aos "tantos que o detestam" alguns há que se serviram dele para o que ele (lhes) podia servir...


Mas afinal a má língua sou eu e os defeitos pegaram-se-me. Não é isso?


Eu anseio pelos seus trabalhos. Temas que me interessam, pessoa que me interessa, mas para mais elogios vá... ao Acróstico!


Um abraço do afastado amigo que não lhe dá novidades mas as pede


                                                                                                                                    José de Portugal



Última hora

De acordo com a participação recebida agora sei que em 6-4-1942 casaram e me oferecem a Sua Ilustre Casa a Senhora Dona Maria Adelina de Amaral Simões Neves Monteiro Grillo e o Senhor Joaqyuim Fernandes Thomaz Monteiro Grillo [Tomaz Kim].


Felicidades aos noivos! Viva a poesia realizada!


 

********************************************

 

De Jorge para José

 

Porto, 24/10/42

 

Meu caro amigo

 

          A sua carta veio ter comigo ao Porto e eu já sabia (e até contava escrever-lhe),  pelo João António Lamas, que V. tinha qualqer coisa para me dizer, independentemente do muito que temos para dizer e fazer neste momento ridìculamente crítico... - rìdiculamente porque só tem o direito de ser crítico aquilo que o é pela força directa das circunstâncias e não o tem o que é pela força das circunstâncias que as foram tirar dessas outras. Isto tudo é confuso mas, até por issso, digno do momento.

          Ora, primeiro, vamos ao nosso assunto. Vou escrever para a Portugália (não tenho comigo senão exemplares, poucos, já dedicados e não entregues ainda) para que ponham à sua disposição um exemplar. E, por favor, não o compre. Eu quando voltar a Lisboa, quero escrever nele uma dedicatória - sou eu que lho ofereço e com tanto mais alegria quanto V. ofereceo o seu para que alguém o lesse. Quando estiver disposto (eu soube muito tarde do seu desgosto, não falemos nissso como entende e bem) diga-me qualquer coisa acerca do livro ou, se  o preferir, guardemos isso para a minha volta a Lisboa. Até agora, pode dizer-se que ninguém me falou dele, uma vez que só cumpriram a promessa os que se apressaram em não compreender. Claro que não falo das pessoas que, por próximas, tinham a sua opinião já tàcitamente formada; como nem a minha vida nem a sua permitem que V. esteja, para mim, na mesma proximidade, é essa a razão por que lhe peço o que pedi.

          V. já deu ao Cinatti poemas para a Aventura 3? Sabe, por ele, do editorial que eu vou escrever para êsse número? Trata-se de desmascarar as confissões voluntárias em que se debate a nossa pretyensa intelectualidade que, por saber demasiado o que deseja, acaba por não fazer dignamente o trabalho que lhe é imposto pela dignidade que devia ter. Queria que V. visse o editorial. Creio que nós, eu e V., devemos defender a Aventura pelo que ela representa e pelo que, por nós e o Cinatti, pode vir a representar: posição definida contra o que não fôr uno, nítido e futuro.

          É nesse sentido que tenciono orientar a conferência que, de combinação com a Manuela Porto, tenciono fazer, em Dezembro, sobre as "Possibilidades da poesia portuguesa". Evidentemente que a poesia portuguesa pode bem vir a ser exactamente o contrário da pureza e da intensidade abstracta que eu pretendo, mas nem por isso tudo o que se fizer deixará de actuar na composição e decomposição das forças, uma vez que só o inantingìvelmente puro está livre das nossas contingências de acção. Não será isto? E agora voltei ao princípio da carta e fechei o verdadeiro círculo. Poesia científica e poesia social (com base nas revivescências ancestrais) tudo isso é terrível, se não souber onde as coisas principiam e acabam. A poesia é profundamente psicológica e epistemológica (no domínio em que coincidem estes dois aspectos), quer queiram quer não, e por isso humana, nacional e individual. Nem notas psicológicas, nem apetências sociais, nem esforços registados do conhecimento - mas consciencialização do homem total num sentido que não tem sido dado a esta expressão, um sentido mais lato, não só individual, não colectivo no instante: num sentido individual e colectivo aplicado à extensão do tempo, extensão mensurável (como me lembro agora que Proust aponta maravilhosamente para cada criatura) nas variações e na invariância do homem. Creio que um sinal da verdade disto é pensarmos agora (e creio que V. pensa isto pelo pouco que posso recordar e assimilar a isto) alguns o mesmo e inteiro, quando, de tal modo, toda a gente pensa partes. A nossa época é de integração no espaço e no tempo de todos os valores positivos e negativos: trata-se de definir um domínio e não definir nem o homem, nem a terra, nem a humanidade (como várias modas fazem), que são, digamos,  conjuntos falsos feitos à custa de elementos que pertencem ao domínio verdadeiro que às modas não convém ver, porque são modas e passam deixando apenas dedadas, contingências, difíceis de lavar e de cuja responsabilidade lavam as mãos. Terá V. paciência de pensar, por escrito, alguma coisa, numa carta, a este respeito?

          Receba um grande abraço do amigo e camarada

 

 

Jorge de Sena

Rua de Cedofeita, 478

Retirado da Revista Colóquio | Letras n.º 132/133 Abril-Setembro de 1994.

Edição e propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian.

Director David Mourão-Ferreira

 

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publicado às 14:48


João Pombo Barile escreve sobre Mário de Andrade

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.09

O escritor Mário de Andrade. Entre 1917 e 1945, ele manteve com o tio Pio uma correspondência sobretudo afetiva  e a mais longa de sua vida

Revista BRAVO! | Maio/2009

Mário, Íntimo e Pessoal

A vida do mentor do modernismo brasileiro sempre foi cercada de mistério. A correspondência com o fazendeiro Pio Lourenço Corrêa, uma espécie de pai postiço do escritor, abre caminho para a compreensão das angústias do homem e, em consequência, de sua obra

 

Em uma das incontáveis cartas que escreveu, Mário de Andrade relatou a Manuel Bandeira: "O caso típico da minha afetividade foi a morte de meu mano mais moço, que me levou quase pra morte também. (...) os médicos chegaram a não dar mais nada por mim. Não comia, não dormia. Foi o bom senso de um tio, espécie de neurastênico de profissão, que me salvou. Pegou em mim, me levou pra fazenda dele, me deixou lá sozinho. (...) Voltei poeta da fazenda". Referindo-se ao episódio da morte de seu irmão Renato, em decorrência de uma cabeçada em um jogo de futebol em 1913, quando este contava apenas 14 anos, o grande mentor do modernismo revelava a importância do fazendeiro Pio Lourenço Corrêa — o "tio" da carta — na sua formação. Uma formação que, além dos aspectos literários e teóricos, foi forjada também nas angústias e neuroses do autor de Macunaíma.

Boa parte dessa faceta pessoal de Mário de Andrade pode ser vislumbrada em Pio & Mário — Diálogo da Vida Inteira, que chega às livrarias neste mês. O volume, ilustrado por dezenas de fotos, reúne 105 cartas de Pio e 84 de Mário, escritas entre 1917 a 1945. É a mais longa troca de correspondência do escritor de que se tem notícia, começando quando ele era ainda um desconhecido e indo até cinco dias antes de sua morte. Discreto, Mário falava pouco da vida íntima. Embora não seja pródiga em desabafos, a correspondência com Pio é das mais pessoais entre todas as que Mário mantinha. Bem esmiuçada, pode abrir caminho para a compreensão das angústias do escritor, estudo que seria importantíssimo para a melhor compreensão de sua obra.

Mas quem era Pio? Nascido em 1875, tinha 18 anos a mais que Mário e, embora este o chamasse de "tio", Pio era, na realidade, casado com sua prima Zulmira de Moraes Rocha. O casal era proprietário da chácara Sapucaia, em Araraquara, no interior de São Paulo, onde o escritor se hospedava com frequência. Foi lá que, deitado em uma rede durante uma semana de 1927, Mário escreveria Macunaíma. "É a minha Pasárgada", gostava de dizer.

À diferença dos outros correspondentes de Mário, Pio não era artista, mas teve um papel fundamental na trajetória do escritor por conta dessa dimensão afetiva. Embora a correspondência seja pontuada por discussões intelectuais (Pio manifesta restrições, por exemplo, a Amar, Verbo Intransitivo e a Macunaíma), esse não era, evidentemente, o ponto principal da relação. Quem o diz com clareza é Mário. Numa carta datada de 11 de maio de 1931, ele escreve a respeito das divergências: "Às minhas loucuras, fantasias, curiosidades, a sua simplicidade sistematizada de ser deu maior paciência, mais precisão de fortificarem-se no estudo; à minha sensibilidade o senhor e sua vida trouxe novos lados, desconhecidos antes, por onde ela se experimentasse e enriquecesse; e finalmente à riqueza milionária das minhas fraquezas veio a sua belíssima e tão nobre atitude moral por freios".

Com essa "nobre atitude moral" a colocar freios, Pio foi uma espécie de pai postiço de Mário, cuja relação com o pai verdadeiro, o jornalista Carlos Augusto de Andrade, sempre foi conturbada. Um dos fundadores do primeiro vespertino da capital paulista, a Folha da Tarde, Carlos seria sempre retratado como figura autoritária na obra do filho escritor — como no poema A Escrivaninha (1922) e no conto O Peru de Natal (1938-1942).

Não eram poucas as angústias familiares de Mário. Espécie de caçula indesejado, "meio amulatado e feio", como dizia, conviveu na infância com a predileção da família por Renato, o irmão "bonito e loiro". Talvez por isso a morte precoce e trágica do menino tenha devastado tanto Mário, a ponto de, como já vimos relatado pelo próprio escritor, ter-se tornado um divisor de águas. Pio estava lá, mas os acontecimentos deixariam marcas em Mário, sobretudo um tremor nas mãos que o impediria de ser concertista.

Ao componente racial, motivo de um complexo que acompanharia o escritor ao longo da vida, somaram-se questões de classe. À diferença de Oswald de Andrade, por exemplo, o "homem sem profissão" que assumiria a vanguarda literária do início do século 20 financiado pela fortuna pessoal, Mário foi o protótipo do que o sociólogo Sergio Miceli chamou de o "primo pobre" do modernismo brasileiro. Nascido na capital paulista em 1893 e formado no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, Mário teria de trabalhar a vida inteira, levando uma vida modesta de professor.

Com seu "complexo de inferioridade orgulhosíssimo", como escreveu em certa ocasião, Mário também se tornaria um homem metódico e cioso de sua memória. Desde 1923, ele já catalogava todos os seus documentos, e hoje seus milhares de cartas e fichas de leitura estão devidamente guardados no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP). No artigo Fazer a História, de 1944, ele escreveu: "Tudo será posto a lume um dia, por alguém que se disponha a realmente fazer a História. E imediato, tanto correspondências como jornais e demais documentos não opinarão como nós, mas provarão a verdade".

"BONECA DE PICHE"

A despeito de tamanho cuidado de Mário, ainda existem vários pontos obscuros em sua biografia. O principal — e mais polêmico de todos — diz respeito à suposta homossexualidade do escritor. O tema foi levantado pela primeira vez pelo jornalista e escritor Moacir Werneck de Castro em 1989, no livro Mário de Andrade: Exílio no Rio, em que narra sua convivência com o poeta entre os anos 1938 e 1940, quando Mário lecionou na capital fluminense. "Na raiz do drama existencial de Mário de Andrade jaz a angústia da sexualidade reprimida e transformada em difusa pan-sexualidade", escreveu.

Em 1998, foi a vez da escritora Rachel de Queiroz, que, em Tantos Anos, sua autobiografia, afirmou que Mário teria sido mais feliz se tivesse assumido a homossexualidade. Entretanto, o que se falou sobre o assunto se esgota praticamente aí. Há até hoje um cordão de isolamento em torno do assunto entre seus herdeiros paulistas, e há quem diga — principalmente em universidades de outros estados — que existe uma parte da correspondência de Mário que segue sob censura na Universidade de São Paulo, onde está baseada.

Longe de pertencer ao reino da fofoca, o tema é fundamental para entender a obra de Mário e algumas de suas relações pessoais mais importantes — como, por exemplo, a amizade entre o escritor e a pintora Anita Malfatti. Pelas cartas que ambos trocaram, pode-se inferir que a artista alimentou um amor platônico por Mário, ao qual ele nunca correspondeu. O estudo do tema é também fundamental para entender uma questão central do modernismo, o rompimento entre Mário e Oswald. Em artigo sobre o assunto, o jornalista Humberto Werneck conta como o autor de Serafim Ponte Grande gostava de fazer piadas venenosas sobre a suposta homossexualidade de Mário. Oswald chegou a escrever, por exemplo, que de costas Mário se parecia muito com Oscar Wilde, numa alusão ao escritor inglês que enfrentou um doloroso processo judicial por causa da orientação sexual.

Em tom de brincadeira, Oswald também gostava de assinar artigos com o codinome Cabo Machado, referência a um personagem de um poema de Mário: "Cabo Machado é cor de jambo,/ (...) Cabo Machado é moço bem bonito./ (...) Cabo Machado é doce que nem mel (...)". De acordo com Mário da Silva Brito, o historiador pioneiro do modernismo também citado no artigo de Humberto Werneck, o rompimento definitivo pode ter ocorrido por causa de um texto escrito por Oswald em 1929, com o título Boneca de Piche — alusão à suposta homossexualidade e à cor da pele do escritor.

Naquela mesma carta endereçada a Pio no dia 11 de maio de 1931, Mário escreve mais adiante: "Estava carecendo deste desabafo e me sinto feliz agora. Desabafo saído com toda a espontaneidade e que teve a enorme utilidade de me botar bem no meu lugar". Quem sabe a divulgação da correspondência com Pio Lourenço, revelando "desabafos" como aquele, não ajude a chegar a uma "verdade" mais completa sobre Mário, como ele queria. Tabus infundados têm atrapalhado as pesquisas sobre a biografia de Mário de Andrade. Que a correspondência com o "tio Pio" ajude a colocá-los por terra. A moderna teoria literária prega que só o entendimento do homem, em sua inteireza, pode ajudar a compreender e iluminar a obra do escritor.

João Pombo Barile é jornalista.

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publicado às 15:44


Carta a Hans Bender [1960]

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.08

Meu caro Hans Bender,

 

Agradeço-lhe a sua carta de 15 de Maio e o amável convite para colaborar  na sua antologia Mein Gedicht ist mein Messer (O meu poema é a minha faca).1

 

Lembro-me de há tempos lhe ter dito que assim que o poema verdadeiramente está , o poeta volta a libertar-se da sua cumplicidade original. Hoje formularia esta opinião de maneira completamente diferente, ou então tentaria diferenciá-la; mas no fundo continuo a ter esta - velha - opinião. É claro que existe também o que hoje, tão fácil e despreocupadamente, se designa de ofício. Mas - permita-me esta redução do pensamento e da experiência - o ofício é, como a correcção em geral, condição de toda a poesia. Este ofício não se faz, com certeza, sobre um chão dourado. -  quem sabe até se ele assenta sobre algum chão. Tem os seus abismos e profundezas, e alguns - ah, mas eu não faço parte deles - têm até um nome para isso.

 

Ofício - é coisa das  mãos. E estas mãos, por outro lado, só pertencem a um indivíduo, isto é, a um único ser mortal que com a sua voz e o seu silêncio busca um caminho.

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema. E não nos venham com o "poieín" e coisas assim. Isso significava, juntamente com as suas proximidades e distâncias, sem dúvida qualquer coisa totalmente diferente do que no seu contexto actual.

 

Existem, com certeza, exercícios - no sentido espiritual, caro Hans Bender! E para além disso há também, a cada esquina lírica, toda a espécie de experiências com o chamado material verbal. Poemas são também oferendas - oferendas àqueles que são atentos.3  Oferendas que transportam um destino.

 

"Como se fazem poemas?"

 

Há anos atrás pude, por algum tempo, ver e, mais tarde, a partir de uma certa experiência, observar atentamente  como o "fazer" se vai transformando, através da factura em contra-facção.Sim, isto também existe, como deve saber... Não acontece por acaso.

 

Vivemos sob céus sombrios e... existem poucos seres humanos. Talvez por isso existam também tão poucos poemas. As esperanças que ainda me restam não são grandes; tento conservar aquilo que me restou.

 

Com os melhores votos, para si e para o seu trabalho.

 

Paul Celan

Paris, 18 de Maio de 1960

_______________________________________________________________

1 A antologia em questão, que inclui a carta de Paul Celan, é uma edição aumentada, em relação à primeira, de 1955, e foi publicada pela Editora List, de Munique, em 1961. A páginas 166 pode ler-se a seguinte nota do organizador: "Paul Celan autorizou a publicação desta sua carta pelo organizador da Antologia, com o desejo expresso de que "ela fosse tomada por aquilo que é: como uma carta dirigida a si, com a data do dia de hoje (18 de Maio de 1960)".

 

2 A frase só se compreende à luz de um antigo provérbio segundo o qual um bom ofício, uma vez aprendido, é sempre rentável. Nos Provérbios de Sebastian Franck (Frankfurt, 1560) ele é citado na versão atribuída ao humanista Johannes Agricola: "Um ofício tem um chão de ouro".

 

3 Cf. nota 21 a "O Meridiano".

 

4 O original explora um jogo de palavras que se procurou manter: a machen (o acto) / die Mache (o processo e o resultado) / Machenscaft (o fazer intriga, trama, manobra) corresponde "fazer" / "factura" / "contra-facção".

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publicado às 00:42


Cartas a um amigo

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.05.08

2006/11/07

Carta a um amigo

Não te iludas, ainda,  meu caro. Tu sabias e bem sabes que as coisas não iam ser fáceis. E não são fáceis, eu bem sei. E tu melhor que ninguém;  pois sofres na carne, no coração e na alma, os desamores, as angústias, e  as decepções das vidas opacas que eles viveram ou, se calhar, não viveram. E transferem para ti as suas frustrações, os seus medos, as suas raivas que foram contidas, muitas vezes, em silêncios violentos. E violentam-te, violentando-se usando o boato, a mentira e murmúrios ignóbeis.

Mas, não te preocupes, pois largos dias têm cem anos, e atrás de uma montanha existe outra, e os cães ladram e a caravana passa, e o importante, verdadeiramente importante, é que descubras nos dias que vão passando a singeleza de um pequeno gesto, a cumplicidade de um olhar limpido e luminoso, o conforto de um sorrisso que abrace a tristeza e que transforme as irrequietas lágrimas em pedras preciosas.

Sê feliz, aliás sejam felizes, pois,  muitas vezes,  temos que trilhar ruas de silêncios magoados.

Um abraço fraterno.

 

Post Scriptum

Um poema de António Ramos Rosa

FRUSTRAÇÃO

Fútil viagem
de que restam
sílabas
que não latejam.

 

Posted by carlos pereira at 16:44:00 | Permanent Link | Comments (0) |

2006/05/29

CARTA A UM AMIGO

Meu caro amigo!

Não tenho a certeza que lerás esta carta, mas não importa; vou fingir que a recebestes, que rasgastes o envelope com mãos nervosas e que no fim da sua leitura tivestes pequeninos momentos de emoção que fingistes não perceber. Mas aviso-te que esta carta não é um fingimento pintado de palavras de circunstância ou que revele apenas e somente boa-educação.

Foi agradável a noite que nos proporcionastes que agradeço, e também pela descoberta de um tipo de arroz que eu desconhecia - arroz selvagem - que se revelou soberbo no acompanhamento de um pato delicioso namorando os frutos da oliveira. Genial.

Disse Brecht "...diz-se do rio que é violento, mas ninguém diz que são violentas as margens que o comprimem..." E tu, meu caro, és considerado o rio: violento, destruidor, sem escrúpulos, mentiroso... e os outros, apenas as margens inofensivas e verdes, plantadas de salgueiros de onde é seguro e confortável prescrutar a alma do rio.

E é com comiseração e piedade como se fosses um pateta tolo, que te toleram. Porque tivestes a ousadia e a coragem de romper com o passado, porque se calhar um dia acordastes e olhastes o espelho e não reconhecestes a figura cínica que espreitava do outro lado. E tomastes a decisão de alterares o rumo que o rio estava a seguir, e escolhestes como foz não o mar, mas a nascente, para começar tudo de novo. E as margens isso não toleram porque abalastes as suas convicções mais profundas, puseste-os em causa pois tu eras um deles e sentiram-se abalados. Profundamente abalados porque descobriram que o rio é subversivo e provocador e isso não toleram.

Arrogam-se no direito de serem deuses. Que ousadia. E acusam-te e julgam-te como julgassem que esse direito quase divino resulte do facto de, em alguns momentos, tu teres permitido que habitassem o teu coração e a tua alma. Que impertinência...

E fostes proscrito porque és portador do pecado original, de doenças estranhas, e eles sabem que isso pode ser contagioso pois têm medo de serem tocados com receio de serem os próximos.

Tudo na vida é efémero e jamais poderemos ter a veleidade  do adquirido. Somos frágeis porque todos somos humanos. É a nossa caracteristica, a nossa marca, por isso é que temos a capacidade de transformar em lágrimas as emoções.

Mais uma vez agradeço a noite magnífica que nos proporcionastes e desejo profundamente que apenas sejam felizes. Sem receios e complexos de culpa.

Sejam felizes e até qualquer dia.

 

Posted by carlos pereira at 16:31:36

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publicado às 16:35


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