Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#2939 - Do sul da Europa para o Sudeste da América

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.18

São 2 horas de uma madrugada recente. Sinto-me perdido na geografia do planeta,  até que vos encontrei mais a sul, num pequeno ponto situado entre a terra e a água.

Apoiados na varanda do 21.º,  vós estais debruçados sobre o mar e o canal que escorre quase a vossos pés, e seguis distraídos o ronronar dos motores das pequenas  embarcações, e observam a poética sinfonia das cores do pôr-do-sol a procurar o descanso na jangada que o espera na última curva do mar. E os vossos corações acolherão mansamente  o ouro, o incenso e a mirra que ofertarão a quem dele necessitar.

Do sítio mais meridional da Europa para todos vós, quer estejam em Aventura, Orlando ou Boca Raton, um extraordinário

e singelo dia de Natal.

Saudades!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:24


#2938 - O PRÍNCIPE DOS PRÍNCIPES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.12.18

"Eis-me aqui, perante Vós...

Curvo-me respeitosamente e saúdo-vos."

Perante mim, está um homem simples e despojado dos símbolos que identificam o poder e o seu exercício, que o pratica generosamente e com parcimónia, respeitando e protegendo os mais débeis em idade, saúde e condição social e cuja lâmina da espada escondida na bainha apenas é empunhada em caso de legítima necessidade.

 

Neste tempo - o tempo da imbecilidade e da ignorância legitimadas como se fossem virtudes - a mentira passou a ser a verdade, e o ódio contra tudo o que é diferente causa dor, sofrimento e muitas vezas a morte.  A política passou a ser o palco privilegiado do exbicionismo, do folclore e das cabeças despovoadas. Porque o mais importante é não ter ideias e apenas repetir o que o povo quer ouvir:

 

- o sol na eira e chuva no nabal

 

é isso que o povo deseja e disso  apenas fazem eco.

 

Mais uma vez, curvo-me perante a inteligência e a sensatez  das vossas decisões sem olhardes a privilégios e baseadas numa sólida formação intelectual e literária, cujas inquietações vós acalmais na companhia dos clássicos gregos e latinos - os vossos preferidos -  passando pela grande literatura russa do século XIX e princípios do século XX, os grandes romancistas americanos - das duas Américas -  e ingleses, e, claro, a literatura portuguesa, o ensaio, a poesia, os grandes pensadores. A filosofia vós a usais quando as perguntas que fazeis a vós próprios, ou a vós por outros feitas, têm uma resposta que não  conheceis.

 

Curvo-me respeitosamente, porque sois justo e recto e aceitais os erros que cometeis. E nunca renegastes o vosso humilde nascimento e pobre origem, e o local onde nasceste a ele regressais quando podeis para visitar vossos pais.

E, perante eles vos curvais, respeitosamente, porque a eles a vida deveis. E, de novo, subireis as encostas da serra na companhia do vosso pai e do velho cão conduzindo o gado por caminhos e veredas que tão bem conheceis. E ainda sabeis os nomes que désteis, quando  criança, aos vários penedos que bordejam o caminho.

 

Celebro a vossa honestidade intelectual.

 

Saúdo-vos

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:36


#2703 - Uma carta para a Francisca

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.11.17

 

Olá Francisca.

 

Dezembro é o último mês do ano. E no céu azul,  pequenas nuvens de algodão doce luzentes parecem árvores de natal.

 

As nuvens são habitadas por sonhos que espreitam e vigiam o teu sono através da janela do teu quarto,  e têm a forma de borboletas e pirilampos. E as vozes que tu ouves nos teus sonhos são de anjos que guardam e protegem a tua boca, os teus olhos, o teu coração, enfim, todo o teu corpo e te contam as histórias fantásticas do Lucas, da Mia e da Nina.

 

Todos nós temos uma nuvem que nos acompanha para todo o lado. É dentro dela que guardamos os nossos desejos, as nossas angústias, os nossos medos, as nossas lágrimas. E quando chove,  é a nuvem a limpar o nosso espírito, a nossa mente, a nossa alma, o nosso coração para ficarmos mais leves, mais serenos, mais inteligentes e com um enorme sorriso nos olhos.

 

Dezembro é o décimo segundo mês do ano. E o último. E no dia 25 celebra-se no mundo cristão o nascimento de Jesus Cristo. É Natal, que significa nascimento. E é o  tempo da generosidade, da solidariedade, das dávidas, da partilha, da comunhão, da reunião e do encontro. É o tempo das luzes festivas, que são as borboletas e os pirilampos que a tua nuvem, companheira de viagem, carrega durante o percurso que já começaste a fazer neste planeta que se chama Terra. E  enquanto durar a tua viagem que sejas  solidária, generosa, honesta com os outros mas principalmente contigo.

 

Um bom Natal. Que sejas muito feliz.

O Avô

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:30


#2479 - Para a Francisca

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.06.17

 

Olá Francisca!

Aquele monte esconde um covil de leões. Não tenhas medo; eles guardam o sacrário dos teus sonhos, defendem a tua liberdade. A seguir ao monte, muito mais além, fora do alcance das tuas pequeninas mãos, poderás ver,  quando o teu tempo chegar,  o imenso mar que tem a cor dos teus desejos e pensamentos.

Espero ter vida para te acompanhar...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:13


#2013 - Carta de Paul Celan a Hans Bender (1960)

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.16

Paul Celan

 Hans Bender

 

 

Meu caro Hans Bender,

 

Agradeço-lhe a sua carta de 15 de Maio e o amável convite para colaborar na sua antologia Mein Gedicht ist mein Messer (O meu poema é a minha faca). (1)

 

Lembro-me de há tempos lhe ter dito que assim que o poema verdadeiramente está, o poeta volta a libertar-se da sua cumplicidade original. Hoje formularia esta opinião de maneira completamente diferente, ou então tentaria diferenciá-la; mas no fundo continuo a ter esta - velha - opinião. É claro que existe também o que hoje, tão fácil e despreocupadamente, se designa de ofício. Mas - permita-me esta redução do pensamento e da experiência - o ofício é, como a correcção em geral, condição de toda a poesia. Este ofício não se faz, com certeza, sobre um chão dourado. (2) - quem sabe até se ele assenta sobre algum chão. Tem os seus abismos e profundezas, e alguns - ah, mas eu não faço parte deles - Têm até um nome para isso.

 

Ofício - é coisa das mãos. E estas mãos, por outro lado, só pertencem a um indivíduo, isto é, a um único ser mortal que com a sua voz e o seu silêncio busca um caminho.

 

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema. E não nos venham com o "poieín" e coisas assim. Isso significava, juntamente com as suas proximidades e distâncias, sem dúvida qualquer coisa totalmente diferente do que no seu contexto actual.

 

Existem, com certeza, exercícios - no sentido espiritual, caro Hans Bender! E para além disso há também, a cada esquina lírica, toda a espécie de experiências com o chamado material verbal. Poemas são também oferendas - oferendas àqueles que são atentos. (3) Oferendas que transportam um destino.

 

"Como se fazem poemas?"

 

Há anos atrás pude, por algum tempo, ver e, mais tarde, a partir de uma certa distância, observar atentamente como o "fazer" se vai transformando, através da factura, em contra-facção. (4) Sim, isto também existe, como deve saber... Não acontece por acaso.

 

Vivemos sob  céus sombrios e...  existem poucos seres humanos. Talvez por isso existam também tão poucos poemas. As esperanças que ainda me restam não são grandes; tento conservar aquilo que me restou.

 

Com os melhores votos, para si e para o seu trabalho,

 

                                                                                                                   Paul Celan

                                                                                                                   Paris, 18 de Maio de 1960

 

(1) A antologia em questão, que inclui a carta de Paul Celan, é uma edição aumentada, em relação à primeira, de 1955, e foi publicada pela Editora List, de Munique, em 1961. A páginas 166 pode ler-se a seguinte nota do organizador: "Paul Celan autorizou a publicação desta sua carta pelo organizador da Antologia, com o desejo expresso de que "ela fosse tomada por aquilo que é: como uma carta dirigida a si, com a data do dia de hoje (18 de Maio de 1960)".

___________________________________________

 

(2) A frase só se compreende à luz de um antigo provérbio segundo o qual um bom ofício, uma vez aprendido, é sempre rentável. Nos Provérbios de Sebastian Franck (Franckfurt, 1560) ele é citado na versão atribuída ao humanista Johannes Agricola: "Um ofício tem um chão de ouro".

 

____________________________________________

 

(3) Cf. nota 21 a "O Meridiano".

 

____________________________________________

 

(4) O original explora um jogo de palavras que se procurou manter: a machen (o acto) / die Mache (o processo e o resultado) / Machenschaft (o fazer intriga, trama, manobra) corresponde "fazer" / "factura" / "contra-facção".

 

"Carta a Hans Bender" foi retirada do livro de Paul Celan "Arte Poética - O Meridiano e outros textos", editado em 1996 por Edições Cotovia

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:39


#1828 - Leitura de outros blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.02.13

Carta aberta a Pedro Passos Coelho

 
M. Conceição Batista

S.SOCIAL VERSUS PENSIONISTAS, REFORMADOS E APOSENTADOS (CARTA ABERTA A PEDRO PASSOS COELHO)


FALEMOS SÉRIO!!!!

Pedro é o trato que usarei para me dirigir a ti, naquilo que há para falarmos sério. Porque sou veterana, apesar de ter consciência de que não somos amigos.

 

Não és meu amigo, como me trataste, hipocritamente e de forma quase insultuosa, na tua mensagem de Natal. Eu não sou tua amiga, porque não tenho como amigos quem me insulta, quem procura humilhar-me, que mente e me tira o que a mim me pertence. Amigos respeitam-se. E eu não me sinto respeitada por ti, Pedro.

 

E não sou hipócrita ao dizer frontalmente o que sinto, na pele daquilo que é hoje o meu estatuto: pensionista, reformada APÓS 49 ANOS DE TRABALHO. Mais anos do que aqueles que tens de vida, Pedro.

 

Falemos sério, Pedro. Porquê essa obstinada perseguição àqueles que construíram riqueza nacional ao longo de muitos anos de trabalho, enquanto tu, Pedro, crescias junto de pais que, creio, trabalhavam para tudo te darem, e que hoje não valorizas como esforço enquanto cidadãos e enquanto pais?

 

Porquê essa perseguição obsessiva àqueles que construíram um país de verticalidade, de luta e resistência, enquanto caminhavas nas hostes dos boys de um partido disponível para compensar aqueles que gostam de “engrossar” a voz, mesmo que desrespeitando os que tudo fizeram pela conquista do espaço democrático, onde cresceste em liberdade? Uma liberdade conquistada, muito suada, e por isso ainda mais digna de ser respeitada?

 

Respeito, Pedro, é o que se exige por aqueles que hoje persegues, lesto e presto sem sentido, como que procurando um extermínio que não ousas confessar.


LER MAIS

 

Retirado do blog "AVENTAR"

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:03


#1177 - Pablo Neruda: Cartas de amor inéditas a Matilde Urrutia

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.02.10



De todos los amores de Pablo Neruda (1904-1973), el de Matilde Urrutia (1912-1985) fue quizá el más intenso y prolongado. Una pasión encendida al principio, cotidiana y perruna al final, de la que dan cuenta las Cartas de amor inéditas que lanza esta semana Seix Barral, en edición de Darío Oses y de las que El Cultural adelanta las más significativas y desesperadas.

 

Ler resto aqui - Jornal "El País"

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:45


Cartas

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09


 

Correspondência trocada entre Jorge de Sena e José Blanc de Portugal


De José para Jorge


Benf. Maio 942


Caro e bom amigo


Eu é que fiquei feliz pela sua grande carta! Calcule que de há muito é o único contacto social que tenho com o mundo excepto os colegas de trabalho ou a gente das ruas e comboios de todos os dias!


Quanto às minhas coisas eu um dia farei tudo o que aconselha (embora muito sèriamente ache certíssimo o que V. diz "Uma coisa é preocupação pessoal, outra preocupação de lugar". Etc Etc... E quanto ao "escreva sempre" aqui estou de novo.


Não me espanta o que diz do Ruy. Depois da vez que nos viu juntos não o tornei a ver. Revi as provas (de artigos dos outros) da Revista e fui nessa mesma tarde levá-las a casa dele. Até hoje não mais novas nem mandados de qualquer ordem! É uma pessoa que parecendo cheia de delicadeza de sentimentos tem às vezes bem duras atitudes para os outros. Mas tudo se passará em bem...


Eu nada sei de Manuela Porto e do recital. Não tratarei disso é a única coisa que lhe posso dizer, mas também lhe digo que gostava imenso que se realizasse e gostaria imenso de lá ouvir qualquer coisa minha. Já vê que não sou falsamente modesto e que tenho ostensivamente anor-próprio mas não sou eu que tenho a intimidade ou à-vontade do Ruy ou do Kim para tratarem com ela.


Gostei tanto do seu trocadilho acerca do Atlântico e "costas de Portugal" (ou versalhada?!) que pensando em senas e azes do jogo da Vida (claro de V - "V for Victory"!) lhe improviso êste acróstico:

 

                         ACRÓSTICO


J   ogue a glória a quem quiser as sortes

O  limpo Apolo dê aos seus eleitos

R  enasçam fénix de infindas mortes

G  orjeiem cantos os coros celestes:

E  ste esmagará seus pares terrestres!


C  anções, poemas mil às musas dando

A  ele não podeis deusas ensinar!);

N  asce dele a poesia toda inteira

D  esse qual Júpiter nova Ateneia!

I   rrompe em fogos contra a asneira

D  omando-a fero em forte peia,

O  único que falar pode de cadeira!


D  esta terrena e breve vida passageira

E  téreo ele só, não seguindo de ninguém a esteira,


S  e não perde do mundo na voragem

E  neste globo, infrene tavolagem,

N  ativo herói das elíseas pazes

sena bate em cheio os azes!!!


(Do "Novo Parnaso Lusitano-Brasílico Dedicado aos Amadores das Musas dos Dois Países Irmãos por Uma Sociedade de Homens de Letras").


Não é talvez o meu melhor poema mas tenha paciência... Já que não lê o Sempre Fixe...


Lembra-me  o [José] Osório [de Oliveira], o Osório que eu persisto em crer meu amigo.


Com todos os seus defeitos à vista não é perigoso para ninguém e quanto aos "tantos que o detestam" alguns há que se serviram dele para o que ele (lhes) podia servir...


Mas afinal a má língua sou eu e os defeitos pegaram-se-me. Não é isso?


Eu anseio pelos seus trabalhos. Temas que me interessam, pessoa que me interessa, mas para mais elogios vá... ao Acróstico!


Um abraço do afastado amigo que não lhe dá novidades mas as pede


                                                                                                                                    José de Portugal



Última hora

De acordo com a participação recebida agora sei que em 6-4-1942 casaram e me oferecem a Sua Ilustre Casa a Senhora Dona Maria Adelina de Amaral Simões Neves Monteiro Grillo e o Senhor Joaqyuim Fernandes Thomaz Monteiro Grillo [Tomaz Kim].


Felicidades aos noivos! Viva a poesia realizada!


 

********************************************

 

De Jorge para José

 

Porto, 24/10/42

 

Meu caro amigo

 

          A sua carta veio ter comigo ao Porto e eu já sabia (e até contava escrever-lhe),  pelo João António Lamas, que V. tinha qualqer coisa para me dizer, independentemente do muito que temos para dizer e fazer neste momento ridìculamente crítico... - rìdiculamente porque só tem o direito de ser crítico aquilo que o é pela força directa das circunstâncias e não o tem o que é pela força das circunstâncias que as foram tirar dessas outras. Isto tudo é confuso mas, até por issso, digno do momento.

          Ora, primeiro, vamos ao nosso assunto. Vou escrever para a Portugália (não tenho comigo senão exemplares, poucos, já dedicados e não entregues ainda) para que ponham à sua disposição um exemplar. E, por favor, não o compre. Eu quando voltar a Lisboa, quero escrever nele uma dedicatória - sou eu que lho ofereço e com tanto mais alegria quanto V. ofereceo o seu para que alguém o lesse. Quando estiver disposto (eu soube muito tarde do seu desgosto, não falemos nissso como entende e bem) diga-me qualquer coisa acerca do livro ou, se  o preferir, guardemos isso para a minha volta a Lisboa. Até agora, pode dizer-se que ninguém me falou dele, uma vez que só cumpriram a promessa os que se apressaram em não compreender. Claro que não falo das pessoas que, por próximas, tinham a sua opinião já tàcitamente formada; como nem a minha vida nem a sua permitem que V. esteja, para mim, na mesma proximidade, é essa a razão por que lhe peço o que pedi.

          V. já deu ao Cinatti poemas para a Aventura 3? Sabe, por ele, do editorial que eu vou escrever para êsse número? Trata-se de desmascarar as confissões voluntárias em que se debate a nossa pretyensa intelectualidade que, por saber demasiado o que deseja, acaba por não fazer dignamente o trabalho que lhe é imposto pela dignidade que devia ter. Queria que V. visse o editorial. Creio que nós, eu e V., devemos defender a Aventura pelo que ela representa e pelo que, por nós e o Cinatti, pode vir a representar: posição definida contra o que não fôr uno, nítido e futuro.

          É nesse sentido que tenciono orientar a conferência que, de combinação com a Manuela Porto, tenciono fazer, em Dezembro, sobre as "Possibilidades da poesia portuguesa". Evidentemente que a poesia portuguesa pode bem vir a ser exactamente o contrário da pureza e da intensidade abstracta que eu pretendo, mas nem por isso tudo o que se fizer deixará de actuar na composição e decomposição das forças, uma vez que só o inantingìvelmente puro está livre das nossas contingências de acção. Não será isto? E agora voltei ao princípio da carta e fechei o verdadeiro círculo. Poesia científica e poesia social (com base nas revivescências ancestrais) tudo isso é terrível, se não souber onde as coisas principiam e acabam. A poesia é profundamente psicológica e epistemológica (no domínio em que coincidem estes dois aspectos), quer queiram quer não, e por isso humana, nacional e individual. Nem notas psicológicas, nem apetências sociais, nem esforços registados do conhecimento - mas consciencialização do homem total num sentido que não tem sido dado a esta expressão, um sentido mais lato, não só individual, não colectivo no instante: num sentido individual e colectivo aplicado à extensão do tempo, extensão mensurável (como me lembro agora que Proust aponta maravilhosamente para cada criatura) nas variações e na invariância do homem. Creio que um sinal da verdade disto é pensarmos agora (e creio que V. pensa isto pelo pouco que posso recordar e assimilar a isto) alguns o mesmo e inteiro, quando, de tal modo, toda a gente pensa partes. A nossa época é de integração no espaço e no tempo de todos os valores positivos e negativos: trata-se de definir um domínio e não definir nem o homem, nem a terra, nem a humanidade (como várias modas fazem), que são, digamos,  conjuntos falsos feitos à custa de elementos que pertencem ao domínio verdadeiro que às modas não convém ver, porque são modas e passam deixando apenas dedadas, contingências, difíceis de lavar e de cuja responsabilidade lavam as mãos. Terá V. paciência de pensar, por escrito, alguma coisa, numa carta, a este respeito?

          Receba um grande abraço do amigo e camarada

 

 

Jorge de Sena

Rua de Cedofeita, 478

Retirado da Revista Colóquio | Letras n.º 132/133 Abril-Setembro de 1994.

Edição e propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian.

Director David Mourão-Ferreira

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:48


Cartas a um amigo

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.05.08

2006/11/07

Carta a um amigo

Não te iludas, ainda,  meu caro. Tu sabias e bem sabes que as coisas não iam ser fáceis. E não são fáceis, eu bem sei. E tu melhor que ninguém;  pois sofres na carne, no coração e na alma, os desamores, as angústias, e  as decepções das vidas opacas que eles viveram ou, se calhar, não viveram. E transferem para ti as suas frustrações, os seus medos, as suas raivas que foram contidas, muitas vezes, em silêncios violentos. E violentam-te, violentando-se usando o boato, a mentira e murmúrios ignóbeis.

Mas, não te preocupes, pois largos dias têm cem anos, e atrás de uma montanha existe outra, e os cães ladram e a caravana passa, e o importante, verdadeiramente importante, é que descubras nos dias que vão passando a singeleza de um pequeno gesto, a cumplicidade de um olhar limpido e luminoso, o conforto de um sorrisso que abrace a tristeza e que transforme as irrequietas lágrimas em pedras preciosas.

Sê feliz, aliás sejam felizes, pois,  muitas vezes,  temos que trilhar ruas de silêncios magoados.

Um abraço fraterno.

 

Post Scriptum

Um poema de António Ramos Rosa

FRUSTRAÇÃO

Fútil viagem
de que restam
sílabas
que não latejam.

 

Posted by carlos pereira at 16:44:00 | Permanent Link | Comments (0) |

2006/05/29

CARTA A UM AMIGO

Meu caro amigo!

Não tenho a certeza que lerás esta carta, mas não importa; vou fingir que a recebestes, que rasgastes o envelope com mãos nervosas e que no fim da sua leitura tivestes pequeninos momentos de emoção que fingistes não perceber. Mas aviso-te que esta carta não é um fingimento pintado de palavras de circunstância ou que revele apenas e somente boa-educação.

Foi agradável a noite que nos proporcionastes que agradeço, e também pela descoberta de um tipo de arroz que eu desconhecia - arroz selvagem - que se revelou soberbo no acompanhamento de um pato delicioso namorando os frutos da oliveira. Genial.

Disse Brecht "...diz-se do rio que é violento, mas ninguém diz que são violentas as margens que o comprimem..." E tu, meu caro, és considerado o rio: violento, destruidor, sem escrúpulos, mentiroso... e os outros, apenas as margens inofensivas e verdes, plantadas de salgueiros de onde é seguro e confortável prescrutar a alma do rio.

E é com comiseração e piedade como se fosses um pateta tolo, que te toleram. Porque tivestes a ousadia e a coragem de romper com o passado, porque se calhar um dia acordastes e olhastes o espelho e não reconhecestes a figura cínica que espreitava do outro lado. E tomastes a decisão de alterares o rumo que o rio estava a seguir, e escolhestes como foz não o mar, mas a nascente, para começar tudo de novo. E as margens isso não toleram porque abalastes as suas convicções mais profundas, puseste-os em causa pois tu eras um deles e sentiram-se abalados. Profundamente abalados porque descobriram que o rio é subversivo e provocador e isso não toleram.

Arrogam-se no direito de serem deuses. Que ousadia. E acusam-te e julgam-te como julgassem que esse direito quase divino resulte do facto de, em alguns momentos, tu teres permitido que habitassem o teu coração e a tua alma. Que impertinência...

E fostes proscrito porque és portador do pecado original, de doenças estranhas, e eles sabem que isso pode ser contagioso pois têm medo de serem tocados com receio de serem os próximos.

Tudo na vida é efémero e jamais poderemos ter a veleidade  do adquirido. Somos frágeis porque todos somos humanos. É a nossa caracteristica, a nossa marca, por isso é que temos a capacidade de transformar em lágrimas as emoções.

Mais uma vez agradeço a noite magnífica que nos proporcionastes e desejo profundamente que apenas sejam felizes. Sem receios e complexos de culpa.

Sejam felizes e até qualquer dia.

 

Posted by carlos pereira at 16:31:36

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:35


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas