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#2598 - Voltaire (François Marie Arouet)

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

os viventes018.jpg

 

 

Voltaire (François Marie Arouet)

 

Estou caminhando para o fim,

como todos. Uns mais precisos

que outros. Menos desconfiados,

mais abúlicos. O rei Frederico,

o Grande, e eu nesta hora

somos iguais, salvo na estatura.

E os relógios despertam com certa

pressa de tomar a carruagem

e a estrada, tomar os indícios

da vida pela mão e embalar

o tempo  que nos falta.

 

Vivi na corte, como se tivesse

que ser espirituoso, bufão,

irônico, dócil, cortesão

sem deixar de ser lúcido,

um veterano ator de rugas

que não são cortesãs. Estúpidas.

 

Servi à corte - sapiente, filósofo,

enciclopédico de sonhos

escritor de alegórico engenho,

um humorista do abismo.

E como segurar esta laminar

inteligência, salvo cortando,

cortando, até que fique

a essência, o núcleo divisor

entre a cultura e o homem.

 

E a burrice infesta

esta nobreza,

que ao mérito inveja

e mais ao gênio.

 

Com fervor me toco.

Vou-me despedindo

dos despejos, criados,

femenis vaidades.

Decoroso:.

 

Ouso falar aos pósteros:

meu uso de linguagem -

sóbrio, justo é francês,

cartesiano e de menos,

até o osso. De onde

não ultrapassa a faca.

 

Escondo o desgosto

de ver-me enfraquecer,

por ter já sido lépido,

ágil, elétrico. Tudo 

é de menos

para os que em futuro

apostam.

 

Olho a manhã por último.

É doce, não sabe em que

caminho se adivinha o fim,

ou o atalho. E nem carece

de saber. Não traio

este destino em mim.

 

Verney  e o pomposo

Castelo não me eximem

de rir. Mostro-me mais

humano, não tão calculista

ou frio, como pensam

conterrâneos. E esses

nem conseguem expor

a ausência de olhos.

Sou um voluptuoso

do infortúnio e eles,

nada. E o talento

de existir não para.

Menino de tanto ver,

bebo o fiim

como um vinho

de fina, casta

e solteira garrafa.

Provo. É estrangeiro,

o corpo. Minha ferocidade 

não se apaga.

Mesmo morto.

 

POEMA DE CARLOS NEJAR, POETA BRASILEIRO, RETIRADO DO LIVRO "OS VIVENTES", PÁGINAS 312, 313, 314, 315, EDITADO POR LEYA BRASIL, DEZEMBRO DE 2010

 

____________________________________________________________________

 

BIOGRAFIA

 

Quinto ocupante da cadeira nº 4, eleito em 24 de novembro de 1988, na sucessão de Vianna Moog, foi recebido em 9 de maio de 1989 pelo Acadêmico Eduardo Portella.

Carlos Nejar, poeta, ficcionista, crítico, nasceu em Porto Alegre (RS), em 11 de janeiro de 1939.

Fez sua formação primária, secundária e o curso clássico no Colégio do Rosário em Porto Alegre.

Iniciou na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul o curso de Letras Clássicas, não o concluindo. Formou-se, pela mesma Universidade, em Ciências Jurídicas e Sociais (Direito) em 1962.

Fez exame de Suficiência na Universidade Federal de Santa Maria (RS), tendo sido aprovado para lecionar Português e Literatura no 2.o ciclo do magistério estadual.

Fez concurso para o Ministério Público do RS. Assumiu a função em 1963, atuando em diversas comarcas do Rio Grande do Sul: Pinheiro Machado, Bagé, Taquari, Uruguaiana, Itaqui, São Jerônimo, Erexim, Caxias do Sul e Porto Alegre, pelo critério do merecimento.

De 1965 a 1973, foi também professor de Português e Literatura nos seguintes estabelecimentos estaduais de ensino: Escola Normal Álvaro Haubert e Colégio Estadual São Patrício, em Taquari; Colégio Estadual Castro Alves, em São Jerônimo; Escola Normal José Bonifácio, em Erexim; Colégio Estadual Cristóvão de Mendonza, em Caxias do Sul.

 

 

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publicado às 21:52


#2155 - A Genealogia das Palavras

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.17

CARLOS NEJAR

 

A GENEALOGIA DA PALAVRA

 

 

Minha morte começa a amadurecer e depois

vou comê-la como uma pera, largando o caroço

fora e depois vai vir uma semente com o mesmo

nome que vai crescer e amadurecer. Mas já não

é minha morte - é surpresa da terra apenas - 

descendência de uma morte futura. Depois as

gerações perdem de vista a própria morte que

aparece como fio de água no meio das pedras,

visível a um e outro profeta. Mas nada abalará a 

espécie: a vida também foi vista como um fio de

água no meio das pedras. Só que não se podia

distinguir os fios e as águas que conversavam

entre si, sem preconceito. E até moravam juntos,

vez e outra. Depois minha morte vai amadurecer

de novo, mas não será da mesma natureza. E

aprenderei a falar com o mundo. E o mundo vai

amadurecer como uma pera e depois vai vir uma

semente com o mesmo nome. Porém, já serei 

eterno.

 

POEMA DO POETA BRASILEIRO CARLOS NEJAR, RETIRADO DO LIVRO «OS VIVENTES» - EDIÇAO DA TEXTO EDITORES LTDA - BRASIL PARA A LEYA BRASIL, 2011

  

 

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publicado às 22:55


#1995 - René Descartes e o método constelado da matéria

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.16

Carlos Nejar

 

Não quero que me encontrem

ou molestem. Isolo-me no quarto

de um país, onde  posso

entretecer o génio.

Não usei como tantos,

bota rude na perna

cortando o lodaçal,

nem apanhei batatas

no dorso do quintal.

Não quero que me encontrem.

Talvez por desperdício

no sonho, ou por vício

de esquecer-me nos livros.

E a filosofia me convence

de exatidão. Com a erva

úmida a física fermenta

e incha a metafísica

aos ombros, nos torrões.

Não quero que me encontrem.

Evito o endereço nos postais.

E por pensar com o vento,

vou conciso. E um método

é preciso dos objetos

simples aos complexos.

E com a mecânica converso,

e da mente e a celeste.

Se a fantasia engana,

o mundo é a mesma corda

segurada no balde,

ou a gota pelo escuro

da paineira ou das moitas.

Renovar é volver

ao ponto de partida.

Olhar por dentro quando

é num relance a vista.

E o que aprendi a nada

me serviu. E quanto

me custou para adiante

servir-me. As novas ciências

eram noivas que possuí

sem casar com nenhuma.

Matemática, ordem

do universo, espuma

com voo em remos certos.

Mas uma filha tive.

Não, não era a ciência,

se aplaquei o desejo.

E de pensá-la ou percebê-la

existo. Quando nascer

é ato de vertigem.

Pulsando o coração,

como se um grito.

Ou barulho de riacho.

E eu, René Descartes, nada faço

sem antes refutar o preconceito,

a partir dos outros e de mim,

quando a razão que esposo

não demarca seu fim.

Nas coisas: beatitude

sem vestes, canavial

das horas. Nada se urde

no terror. Tais os anais

que longas ondas seguem

e um batel singra. Normas,

regras, tatos na constelar

matéria. E a verdade, martelo

na tensa natureza. Com a água,

movimento do impossível.

E os sentidos sem reparo

nos traem e há que abstrair

até a infância. Como este véu

que a vasta noite arranca.

Não quero que me encontrem,

mais que civilizado, francês,

viajor inveterado, por mim

avança a ideia infinita. Deus.

E a ciência que não

me deixou viver.

 

Poema de Carlos Nejar in "Os Viventes", edição Texto Editores, Ltda,2010, Brasil

´

 

 

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publicado às 16:37


#1492 - ANEL DO VENTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.11.11

1.

 

Aqui tudo é julgamento.

Todos os atos vividos

tamborilam neste eito

e sou de mim saltimbanco.

E do que vem. Os viventes

se apresemtem. São tão reais

quanto sois. Não me desmentem.

 

2.

 

Sabei que esta forma humana

nem se compra nem vende.

Tampouco a força que jaz

sob a alma, renitente.

 

Ou a renitência

de ver, se desvendo

nas águas do poema

ou no seu olhar latente.

 

É vosso o que nele vedes.

 

3.

 

Viventes, o que sabeis

- que mundo o poema!-?

Em sua terra

nada se queima.

 

Viventes, o que sabeis

da morte e o resto

se nem sabemos de nós

no anel do vento?

 

Se nem sabemos de nós

ou donde o ingresso

na condição de estar só

com a alma ao menos

 

na alma de quem vos ama

dentro do poema.

Viventes, o que sabeis

da morte? O excesso

 

vinga com sua lei.

Tempo vivente

com estes que somos nós

e os que descendem.

 

Viventes, o que sabeis

deste poema?

Aqui está vivo quem

vivendo teima.

 

E cria a sua própria vez.

 

4.

 

Vos ponho nomes

- nomes não tendes -,

sois meus parentes

intransponíveis.

 

Ou apenas tendes

aqueles nomes

que vos pressentem:

sinete ou risca.

 

Aqueles nomes

de manjedoura

ou julgamento.

Nomes avulsos

 

e indossolúveis

a quem procura

desnomeá-los.

São criaturas

 

os nomes, naves.

E se designam

ao navegarem.

 

5.

 

Nós, os viventes

e conviventes

de um mundo antigo.

 

A rima é cântaro

perto da fonte.

 

Cântaro à noite

cântaro, cântaro

o ritmo um jorro

que se levanta.

 

6.

 

Vos ponho nomes

ou nome pondes

em quem vos põe.

 

Como se o lanço

dalguma escada

fosse alcançado

antes dos pés

ou a digital

de um ser viesse

antes do mal.

 

Ou nome tendes

antes de mim.

 

7.

 

Povo submisso

junto ao meu peito,

contigo fico.

O mais esqueço.

Contigo fico

quando for pátria

o nosso corpo,

esta fuligem.

Povo submisso

junto ao meu peito,

contigo fico.

O mais esqueço.

Contigo fico

quando for pátria

o nosso corpo,

esta fuligem

de sofrimento.

 

O mais nos foge.

 

8.

 

Vientes, jazemos

dsavindos.

 

Em força obstinada

mundo sempre domingo.

 

O galo não cantou.

Acordou um juízo.

 

A aurora sabe dosar

as coisas.

 

Que outros frequentam

a criação?

 

Tempos de um só,

sopesados e vivos.

 

Pode a moléstia mortal

ser entretida?

 

Apodrece a aurora.

 

Não nos conformamos

com o que não é luz.

 

Nossa pobre glória

sujeita ao vento,

à intempérie

da solidão.

 

9.

 

Não há pátria

a quem ama.

 

Porque não posso

separar o amor

do amante

que se faz a pátria dele.

 

E ser da solidão

é se perder.

 

10.

 

Ainda voltarei  a estes campos,

a este chão, ao zumbido

das abelhas pelo tempo

querendo voejar e nelas preso.

 

Ainda voltarei aos meus viventes

para vê-los andar comigo

às faldas da montanha.

 

Ainda voltarei: os mortos sabem

soluções piedosas

e as mormuram de ouvido.

 

Poema de Carlos Nejar, do livro Os Viventes, edição Leya Brasil 2011

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publicado às 19:56


#1464 - Decreto-Lei

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.11.11

DECRETO-LEI

 

Desterrem o poeta.

Seu lugar não é aqui.

Nem onde, viventes,

pensais que seja.

Nem a imortalidade

dá-lhe pão ou água,

ou ar onde respira

a usura de existir.

Nômade, rebelde,

intruso, destemido,

talvez nemhum lugar

traga-lhe pouso.

E nem espera tanto,

estando velho, enfermo,

o desterro que concedeis

há muito se apura em viver

convosco a solidão

indestrutível. Desterrem

o insurrecto e que a vós,

viventes, poupem.

E o que firma o Decreto

tem o vosso semblante

e ao vos poupar, há

de poupar-se antes.

A república é um gato

que não entende o outro,

salvo o dono. E o poeta

é afrontoso, visionário,

obstinado em conjurar

as sombras que se agarram

ao dia. Subverte a razão

do Estado, por não ter

razão alguma. Contamina

a benevolência dos civis.

É animal desocupado,

o poeta. A alguns, inofensivo

como uma barata que olha

outra barata e acaba vendo

a glória, mais excelsa.

Ou néscia. Sua palavra

explode e mata, quando

a lágrima faz chover orvalho

sobre as ruas da infância.

E não há mais infância

nemhuma a defender.

E só ela pode convencê-lo

a calar e não se cala,

não renuncia à pólvora

da língua. Não renuncia

a nada, nem à luz da agonia.

Desterrem o poeta. Já se ouve

o bramido da tábua do mar,

já se ouvem os bárbaros cercando

a democracia de ganidos.

Os bárbaros, os bárbaros

não poupam nem os mortos.

Só os viventes resistem;

a república não sabe expiar

as suas culpas, cenários

que prende no viveiro.

E até os cães perseguem

o poeta com seus dentes

de léguas. E a palavra

ao cão persegue e o cão

a outro. E não carece

o poeta de vossa caridade

desatenta. Carece da praça

de uma palavra apenas:

a praça de um soluço.

Desterrem o poeta.

E ficará vossa consciência

em paz, junto aos vindouros.

Desterrem o poeta.

Desterrem o futuro.

 

Poema de Carlos Nejar in "Os viventes"

 

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publicado às 20:44


#1461 - Ulisses

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.11.11

 

ULISSES

 

 

Vaguei dez anos

desde Troia.

 

Não sou herói,

mas homem

marcado pela pátria.

 

Fui povo.

E por amar o tempo

combatendo,

eu vim do Inferno.

 

Andante

de praias e mulheres,

nenhuma aurora

comigo velejava,

embora velejasse

mais tarde

com meus ossos.

Circe era um corpo

apenas e na alma

o limite saturava.

 

Nem Calipso, a ninfa,

conteve o meu exílio.

 

Amarrado ao mastro,

tapados os ouvidos,

apaziguei a morte

e seu coro celeste.

 

Ninguém eu sou.

No inferno vi Tirésias.

Consultei na sombra dele

a sombra da minha mãe

e a sombra deste barco

que me leva.

 

Ninguém eu sou

sem pátria

e a ela escrevo

a eternidade

em mim.

 

Na espuma escrevi

Penélope e meu filho.

Povo escrevi. Destino.

 

Regressei. Pedinte fui,

revi Argos - meu cão -

e aos pretendentes

com mão certeira

revelei a morte.

 

E uma cicatriz

me desvendou.

 

Ninguém

é Ulisses por acaso.

 

 

Poema retirado do livro "Os viventes" de Carlos Nejar.

 

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publicado às 19:07


#1458 - Livros e Leituras - Os Viventes

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.11.11

 

 

Os viventes é obra única, orginalmente lançada em 1979 e definida pelo crítico literário português Eugénio Lisboa como um livro que reune "algo de austeramente bíblico" e uma "poesia fraternal, que julga, mas conforta, e nos dá fórmulas simples de vida e entre-ajuda".

 

Nestes poemas, Carlos Nejar não expressa apenas sua profunda afeição pelos seres reais e imaginários, mas procura resgatar de cada um a sua anima, aquela essência tantas vezes esquecida ou menosprezada. Para o poeta, todas as criaturas - do torturado Jó ao exploradoe Roald Amundsen, de um inseto ao filósofo Friedrich Nietzsche - estão de alguma forma unidas, pois "não há pátria / a quem ama".

 

A esta edição foram acrescentados 300 novos poemas.

 

Edição brasileira editada pela Leya em 2011.

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publicado às 19:04


#1413 - Luis Vaz de Camões

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.11

Carlos Nejar

 

 

Luis Vaz de Camões

 

 

Não sou um tempo

ou uma cidade extinta.

Civilizei a língua

e foi resposta em cada verso.

E à fome, condenaram-me

os perversos e alguns

dos poderosos. Amei

a pátria injustamente cega,

como eu, num dos olhos. E não pôde

ver-me enquanto vivo.

Regressarei a ela

com os ossos de meu sonho

precavido? E o idioma

não passa de um poema

salvo da espuma

e igual a mim, bebido

pelo sol de um país

que me desterra. E agora

me ergue no Convento

dos Jerónimos o túmulo,

quando não morri.

Não morrerei, não

quero mais morrer.

 

Nem sou cativo ou mendigo

de uma pátria. Mas da língua

que me conhece e espera.

E a razão que não me dais,

eu crio. Jamais pensei

ser pai de tantos filhos.

 

(Os viventes)

 

 

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publicado às 22:57


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