Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


 GRAPHIDIS SCIENTIA 5

Linhas de algodão cosidas em papiro

35cm x 35cm   -   2010

AUTORA: ALEXANDRA DE PINHO

 

 

Sente-se.

Está sentado?

Encoste-se tranquilamente na cadeira.

Deve sentir-se bem instalado e descontraído.

Pode fumar.

É importante que me escute com muita atenção.

Ouve-me bem?

Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

 

Você é um idiota.

Está realmente a escutar-me?

Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?

Então

Repito: você é um idiota.

Um idiota.

I como Isabel, D como Dinis, outro I como Irene, O como Orlando, T como Teodoro, A como Ana.

Idiota.

 

Por favor não me interrompa.

Não deve interromper-me.

Você é um idiota.

Não diga nada. Não venha com evasivas.

Você é um idiota.

Ponto final.

 

Aliás não sou o único  a dizê-lo.

A senhora sua mãe já  o diz há muito tempo.

Você é um idiota.

Pergunte pois aos seus parentes

Se você não é um I.

Claro, a você não lho dirão

Porque você se tornaria vingativo como  todos os idiotas.

Mas

Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.

 

É típico que você o negue.

Isso mesmo: é típico que o I negue o que é.

Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um I.

É francamente fatigante.

 

Como vê, preciso de dizer mais uma vez

Que você é um I.

E no entanto não é desinteressante para você saber o que você é

E no entanto é uma desvantagem para você não saber o  que toda a gente sabe.

Ah, sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias do seu parceiro.

 

Mas também ele é um idiota.

Faça favor, não se console a dizer

Que há outros I.

Você é um I.

 

De resto isso não é grave.

É assim que você poderá chegar aos 80 anos.

Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.

E então na política!

Não há dinheiro que o pague.

Na qualidade de I você não precisa de se preocupar com mais nada.

 

E você é I.

(Formidável, não  acha?)

 

Você ainda não está ao corrente?

Quem há-de então dizer-lho?

O próprio Brecht acha que você é um I.

Por favor, Brecht, você que é um perito na matéria, dê a sua opinião.

 

Este homem é um I.

Nada mais

 

Não basta tocar o disco uma só vez.

 

Poema de Bertolt Brecht, in Colecção Forma da Editorial Presença, selecção e estudo de Arnaldo Saraiva.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:06


#2089 - AOS QUE VIRÃO A NASCER

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.07.16

 

AOS QUE VIRÃO A NASCER

 

I

 

É verdade, vivo em tempo de trevas!

É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa

Revela insensibilidade. Os que riem

Riem porque ainda não receberam

A terrível notícia.

 

Que tempos são estes, em que

Uma conversa sobre árvores é quase um crime

Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?

Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,

Não estará já disponível para os amigos

Em apuros?

 

É verdade ainda ganho o meu sustento.

Mas acreditem: é puro acaso. Nada

Do que eu faço me dá o direito de comer bem.

Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)

 

Dizem-me: Come e bebe!  Agradece por teres o que tens!

Mas como posso eu comer e beber quando

Roubo ao faminto o que como e

O meu copo de água falta a quem morre de sede?

E apesar disso eu como e bebo.

 

Também eu gostava de ter sabedoria.

Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:

Retirar-se das querelas do mundo e passar

Este breve tempo sem medo.

E também viver sem violência

Pagar o mal com o bem

Não realizar os desejos, mas esquecê-los.

Ser sábio é isto.

E eu nada disso sei fazer!

É verdade, vivo em tempo de trevas!

 

II

 

Cheguei às cidades nos tempos da desordem

Quando aí grassava a fome

Vim viver com os homens nos tempos da revolta 

E com eles me revoltei.

E assim passou o  tempo

Que na terra me foi dado.

 

Comi o meu pão entre as batalhas

Deitei-me a dormir entre os assassinos

Dei-me ao amor sem cuidados

E olhei a natureza sem paciência.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.

A língua traiu-me ao carniceiro.

Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo

Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

As forças eram poucas. A meta

Estava muito longe

Claramente visível, mas nem por isso

Ao meu alcance.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

III

 

Vós, que surgireis do  dilúvio

Em que nós nos afundámos

Quando falardes das nossas fraquezas

Lembrai-vos

Também do tempo de trevas

A que escapastes.

 

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos

As guerras de classes, desesperados

Ao ver só injustiça e não revolta.

 

E afinal sabemos:

Também o ódio contra a baixeza

Desfigura as feições.

Também a cólera contra a injustiça

Torna a voz rouca. Ah, nós

Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade

Não soubemos afinal ser amáveis.

 

Mas vós, quando chegar a hora

De o homem ajudar o homem

Lembrai-vos de nós

Com indulgência.

 

Poema de Bertolt Brecht

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:12


#1887

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.10.13
"Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, a criança abandonada e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

 

Bertolt Brecht (1898-1956)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:44


#1877 - Elogio da dialéctica

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.09.13

 

ELOGIO DA DIALÉCTICA

 

A injustiça avança hoje a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.

Nenhuma voz além da dos que mandam.

E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca nunca mais o alcançaremos.

 

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados.

Quem  pois ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? Também de nós.

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

 

Poema de Bertolt Brecht in "Poemas", Editorial Presença, Colecção Forma

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:23


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas