Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



# 1953 - As coisas (Poema de Armando Silva Carvalho)

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.02.16

AS COISAS

 

I

 

As coisas fornecem-nos o modo

o lábio frigidíssimo da vida

 

perfume de torneira no silêncio

o céu lastima-se do uso

do modo como se persegue

as coisas.

 

II

 

É deste modo quase obsceno

de quebrar as frases

deste modo antigo de sair dos ossos

que sinto a cortesia do poema

 

desperto os membros

com pena de levantar o corpo

com tímidas conversas

afasto-me do sono

com pena de acordar a alma

e pelas novas linhas do poema

deslizo agarrado às coisas

 

III

 

Este deserto principia

nos dedos e nas palmas

não fica como dizem

pelo rosto das entranhas.

 

Ele só principia em mãos

que escrevem, depois

socorre-se das coisas.

 

E corre nas palavras

poderosas maduras

as ânforas antigas

as mães do nosso sonho.

 

Diante dos objectos

o só cristal dum grilo

o som rouco do mar

eu,só, nu nas paredes.

 

Por isso é meu dever

e eu bendigo

o berço luminoso

dos meus versos.

 

Esta ruidosa planície

que anoitece, branca 

por fora, humana

no percurso,

 

e simples como um povo.

 

Dissipo assim este deserto

o to, aéreo da memória

o jogo dos antigos

as estações translúcidas.

 

Deitado no meu corpo

disfarço o mais que posso

o artifício que encanta

como as crises as bruxas

as amantes.

 

Dissipo deserto e bem mastigo

as coisas com seu peso e os meus braços

podem ser também as árvores que falam.

 

IV

 

Parados neste tempo

momentos de poeta

desanuviam coisas

revestem os limites.

 

Comentam depois pausas

inquirem das notícias

desdobram na paisagem

o curso interior

 

dos eixos e dos dínamos

dissecam como lâminas

o ventre dos sistemas

não dão já fantasia.

 

Carecem de sossego

embarcam com seu modo

pelos túneis do trabalho

momentos de poeta.

E os homens atravessam

à escala ddeste ofício

ofício de poeta

desanuviando coisas.

 

V

 

Por certo as coisas geram

funestas alquimias

depois voam pelos olhos

verdades que se inscrevem

na curva de uma  boca

no aceno dos cabelos

se as coisas já se usam

quando as donzelas coram

 

eu velo assim enxuto

o lado inferior

mas rápido das coisas

não temo este poema

em vias de sumir-se

procuro e recalcitro

pra já soam na noite

os órgãos das paredes

para que eu veja este meu corpo

que alastra este memória

depois sei como penso

pesado nos minutos

 

demais sou camponês

que invade este teatro

e o meu irá por certo

ao berço dos que sofrem

por cima dos troféus

os pais pedem-nos vida

se quis andar nos adros

agora quero a mais

devida ausência

de mistério

 

e ir chamar o mar

sem gritos saudosistas

e ir chamar fadistas

mas quero a conivência

já destes meus amigos

já destes anciãos

sentados no sossego

aos quais peço o adorno

com fresca ansiedade

que chamam de certeza.

 

VI

 

Chamar aqui as coisas. Dividir

e comentar de rosto a pino

estas colheitas.

 

Potentes animais repartem

entre si

o pasto da preguiça.

 

Mas sempre ao pé das coisas

um ruído aponta

e é longe o Sol

os lábios da criança

a procurar na mesa.

 

É enrolar o braço

nesta roda que uiva

espremer o soro patético

do sono.

 

Marcar no chão

sementes de ternura

e cortejar apenas

um coração que viva.

 

Descer dos astros e procurar nas ervas

o sabor honesto para se dar à morte.

E como a rua é forte

ouve-se já o canto

nos intervalos da chuva:

nos ombros as mulheres

passeiam a desgraça

um cântaro mecânico

enche os seus olhos de água.

 

Há plantas podres

mas é a terra cheia

de saúde

e são assim os dias.

 

VII

 

Subo os olhos

pela prosa carcomida

e mal passei a mão

pela raiz de tudo.

 

Ao longo das estradas

alguém depositou

a baba centenária

sentando-se a dobrar

a ponta das semanas

entre os anéis do tempo.

 

Mas deve-se afirmar

que neste mar há ilhas

- talvez sejam ilhotas -

pessoas insulares

e muito desperdício.

 

Há seres prejudicados

pelo aspecto teocrático

de todas as manhãs.

 

Ideias infantis

malucas poderosas

tenazes flores peludas

um girassol nos anos

 

...................................

"perfume de torneira no silêncio

o céu lastima-se do uso

dos versos demagógicos cabrestos

do modo como persegui as coisas."

 

Poema de Armando Silva Carvalho, in Obra Poética (1965-1995), Edições Afrontamento, Julho de 1998

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:44


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas