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#2696 - DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

ARMANDO SILVA CARVALHO

Nascimento28 de março de 1938, Olho Marinho
Falecimento1 de junho de 2017, Caldas da Rainha
 
 
DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA
 
Gosto de sentir a natureza e fingir
que não lhe pertenço.
O vento é esta mão gigante e nunca vista
que sacode o carro perante um mar
em brancas gargalhadas.
Não é o mundo que tenho na cabeça.
Penso nas gotas de água que embaciam o vidro,
e vejo o véu da chuva que ainda não chegou
com as nuvens atrasadas.
 
As palavras recusam-se a ser irmãs das ondas.
O meu silêncio não quer ser filho do clamor da tempestade
que faz dançar as aves na escuridão das nuvens
como sondas.
 
Mas como é belo
que tudo viva na luta de viver,
a fúria da maré o espelho do  meu rosto debruçado para dentro
como um poema de Pedro Homem de Melo.
 
O mundo natural dá-me a acidez da voz
que se solta
nos cabos teleféricos
e transporta o ruído dos loucos suicidas
a luxúria do tempo
ou esse luxo que se chama esperança.
 
No céu desamarrado a gaivota baila,
no chão perto do mar outro baile circunda
o meu coração desordenado.
 
E nunca saberei como se dança.
 
POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO

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publicado às 19:11


#2419 - Morte do poeta Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.17

 ARMANDO SILVA CARVALHO (28 de março de 1938 - 1 de Junho de 2017)

 

Armando Silva Carvalho nasceu em Olho Marinho, Óbidos, em 1938. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exerceu advocacia por pouco tempo, optando pelo jornalismo, pelo ensino, pela publicidade e pela tradução.
A sua obra tem vindo a ser reconhecida pela crítica e distinguida com diversos prémios, como o Grande Prémio de Poesia APE, o Prémio PEN Clube, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio DST Literatura e o Prémio Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas, para citar apenas alguns.

Morreu aos 79 anos de idade.

 É quando suspeitamos da nossa identidade

que a escrita fecha a vida

em túmulos minúsculos no templo

duma refeição de pé,

num ofício reles, inacabado.

Muitas vezes não passa dum romance ébrio

que a nós próprios narramos

nas noites inquietas e nas crises de angústia

mais precipitadas.

E  nesses espaços ínfimos

que são opulentos vasos de cicuta

fingimos que dançamos, ousamos que bebemos

e julgamos que ouvimos a voz feliz

de deus, sujeita a transfusões,

às cargas e descargas

das ternas libações duma mesa de outono.

Assim a natureza nos provoca

sabendo que a distância

entre a mão que escreve e o olhar que lê

é infinita.

Por isso nos seduz o cão da morte.

Como se fosse a vida que conformada insiste

e ataca ao entardecer

depois de um filme russo que era só  névoa

só sobre vivência.

 

____________________________________________

 

Ninguém é filho do poema universal.

Nem pai

do seu rebanho de versos.

O que eu busco é um lar.

Um lar mais natural nas palavras

da terra

com os lábios invisíveis sobre o livro

dos mortos.

 

Dois poemas de Armando Silva Carvalho retirados do livro "Obra Poética (1965-1995)", páginas 631 e 634 - Edições Afrontamento, Julho de 1998 e com prefácio de José Manuel de Vasconcelos.

 

 

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publicado às 17:12


#2169 - Correntes d' Escritas - Póvoa de Varzim

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.02.17

 

 

 ARMANDO SILVA CARVALHO

 

Armando Silva Carvalho, com o livro "A Sombra do Mar", foi o vencedor do prémio literário "Corrente d' Escritas" que decorre na Póvoa do Varzim até ao dia 25 de Fevereiro.

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publicado às 18:24


# 1953 - As coisas (Poema de Armando Silva Carvalho)

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.02.16

AS COISAS

 

I

 

As coisas fornecem-nos o modo

o lábio frigidíssimo da vida

 

perfume de torneira no silêncio

o céu lastima-se do uso

do modo como se persegue

as coisas.

 

II

 

É deste modo quase obsceno

de quebrar as frases

deste modo antigo de sair dos ossos

que sinto a cortesia do poema

 

desperto os membros

com pena de levantar o corpo

com tímidas conversas

afasto-me do sono

com pena de acordar a alma

e pelas novas linhas do poema

deslizo agarrado às coisas

 

III

 

Este deserto principia

nos dedos e nas palmas

não fica como dizem

pelo rosto das entranhas.

 

Ele só principia em mãos

que escrevem, depois

socorre-se das coisas.

 

E corre nas palavras

poderosas maduras

as ânforas antigas

as mães do nosso sonho.

 

Diante dos objectos

o só cristal dum grilo

o som rouco do mar

eu,só, nu nas paredes.

 

Por isso é meu dever

e eu bendigo

o berço luminoso

dos meus versos.

 

Esta ruidosa planície

que anoitece, branca 

por fora, humana

no percurso,

 

e simples como um povo.

 

Dissipo assim este deserto

o to, aéreo da memória

o jogo dos antigos

as estações translúcidas.

 

Deitado no meu corpo

disfarço o mais que posso

o artifício que encanta

como as crises as bruxas

as amantes.

 

Dissipo deserto e bem mastigo

as coisas com seu peso e os meus braços

podem ser também as árvores que falam.

 

IV

 

Parados neste tempo

momentos de poeta

desanuviam coisas

revestem os limites.

 

Comentam depois pausas

inquirem das notícias

desdobram na paisagem

o curso interior

 

dos eixos e dos dínamos

dissecam como lâminas

o ventre dos sistemas

não dão já fantasia.

 

Carecem de sossego

embarcam com seu modo

pelos túneis do trabalho

momentos de poeta.

E os homens atravessam

à escala ddeste ofício

ofício de poeta

desanuviando coisas.

 

V

 

Por certo as coisas geram

funestas alquimias

depois voam pelos olhos

verdades que se inscrevem

na curva de uma  boca

no aceno dos cabelos

se as coisas já se usam

quando as donzelas coram

 

eu velo assim enxuto

o lado inferior

mas rápido das coisas

não temo este poema

em vias de sumir-se

procuro e recalcitro

pra já soam na noite

os órgãos das paredes

para que eu veja este meu corpo

que alastra este memória

depois sei como penso

pesado nos minutos

 

demais sou camponês

que invade este teatro

e o meu irá por certo

ao berço dos que sofrem

por cima dos troféus

os pais pedem-nos vida

se quis andar nos adros

agora quero a mais

devida ausência

de mistério

 

e ir chamar o mar

sem gritos saudosistas

e ir chamar fadistas

mas quero a conivência

já destes meus amigos

já destes anciãos

sentados no sossego

aos quais peço o adorno

com fresca ansiedade

que chamam de certeza.

 

VI

 

Chamar aqui as coisas. Dividir

e comentar de rosto a pino

estas colheitas.

 

Potentes animais repartem

entre si

o pasto da preguiça.

 

Mas sempre ao pé das coisas

um ruído aponta

e é longe o Sol

os lábios da criança

a procurar na mesa.

 

É enrolar o braço

nesta roda que uiva

espremer o soro patético

do sono.

 

Marcar no chão

sementes de ternura

e cortejar apenas

um coração que viva.

 

Descer dos astros e procurar nas ervas

o sabor honesto para se dar à morte.

E como a rua é forte

ouve-se já o canto

nos intervalos da chuva:

nos ombros as mulheres

passeiam a desgraça

um cântaro mecânico

enche os seus olhos de água.

 

Há plantas podres

mas é a terra cheia

de saúde

e são assim os dias.

 

VII

 

Subo os olhos

pela prosa carcomida

e mal passei a mão

pela raiz de tudo.

 

Ao longo das estradas

alguém depositou

a baba centenária

sentando-se a dobrar

a ponta das semanas

entre os anéis do tempo.

 

Mas deve-se afirmar

que neste mar há ilhas

- talvez sejam ilhotas -

pessoas insulares

e muito desperdício.

 

Há seres prejudicados

pelo aspecto teocrático

de todas as manhãs.

 

Ideias infantis

malucas poderosas

tenazes flores peludas

um girassol nos anos

 

...................................

"perfume de torneira no silêncio

o céu lastima-se do uso

dos versos demagógicos cabrestos

do modo como persegui as coisas."

 

Poema de Armando Silva Carvalho, in Obra Poética (1965-1995), Edições Afrontamento, Julho de 1998

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publicado às 18:44


#1775 - Armas Brancas

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.12

 

 

Até que  o pranto acabe e o cintilar

dos pássaroa sossegue

o ruído do chão será a tua música

as ventanias rústicas

o mar do teu naufrágio.

Austos, arbustos, a flora adocicada

dos Vergeis - ó temporal memória campesina -

seguem-te o andar , deambulando.

É no oco que incide o bolor lento

das mínimas corolas - os anos em permuta.

Se queres ouvir o sol terás de erguer os braços

e atacar o tempo nas ameias do canto.

Ambos seguindo, idade, identidade

- a terra grita, o chão frente

e entretanto:

 

Poema de Armando Silva Carvalho - OBRA POÉTICA (1965-1995) - Edições Afrontamento, julho de 1998

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publicado às 18:20


#856 - Prémio Poesia APE/CTT para Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.07.09


Armando Silva Carvalho que foi o vencedor, por unanimidade, da edição de 2008 do Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT com a colectânea "O Amante Japonês".


Ler mais

aqui


 

Post retirado do blog "porosidade etérea"

 

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publicado às 15:34


Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.09

 

A guerra está aí. Que paz respiras?

Honra os destroços. Cobre-te com eles.

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publicado às 12:24


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