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#2373 - ANTI-ÉCLOGA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

 JOSÉ MIGUEL SILVA

 

ANTI-ÉCLOGA

 

A verdade é que também as urtigas

me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,

a silvestre quietude da tarde atravessada

pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras

de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser

tão daninho com a luz de um semáforo

vermelho, mas um pouco de sangue

na biqueira do sapato faz-me falta.

Faz-me falta praguejar, ter um lago

de cimento onde cuspir, obstáculos

de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.

Não me sinto nada bem com a doçura,

com a paz dos ermitérios, de onde Deus

se retirou há quinze anos. Esta resignação

das árvores, dos faunos, das silvanas,

da restante bicharada típica dos lugares

onde sofrer é natural como estar só,

a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos

que me apertem. As sandálias do pescador,

as botas do alpinista, não me levam

a lado nenhum. Detesto confessá-lo,

mas eu sou da cidade até à raiz do terror.

 

Não consigo viver sem o sasco de areia

onde exercito o excessivo golpe da exasperação.

Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,

torna-se pastosa, sonolenta, felizita

como um rio de meandros preguiçosos,

lamacentos, imprestáveis - de que me serve

fingir o sossego a que não chego, brincar

às Arcádias em que não acredito?

Está decidido, prefiro sofrer.

Amanhã de manhã regresso ao abismo.

 

Poema de José Miguel Silva (Ulisses jã não mora aqui, 2002)

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publicado às 21:42


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