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Ana Luísa Amaral, poetisa, venceu o Prémio Literário Francisco de Sá de Miranda 2021, pela obra "Ágora" editada pela Assírio & Alvim. Este prémio é promovido pelo Município de Amares.

 

Duas semanas antes, Ana Luísa Amaral tinha sido  galardoada com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana atribuído pela Universidade de Salamanca e o Património Nacional de Espanha.

BIOGRAFIA

Ana Luísa Amaral ensinou na Faculdade de Letras do Porto e tem um doutoramento sobre Emily Dickinson. É autora de mais de duas dezenas de livros de poesia e livros infantis, e traduziu diversos autores para a nossa língua, como John Updike ou Emily Dickinson. A sua obra encontra-se traduzida e publicada em vários países, tendo obtido diversos prémios, de que destacamos o Prémio Literário Correntes d'Escritas, o Premio Letterario Poesia Giuseppe Acerbi ou o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Em outubro de 2020, foi galardoada com o prémio literário espanhol Leteo. Em novembro do mesmo ano foi-lhe atribuído o Prémio Literário Vergílio Ferreira pela totalidade da sua obra. Em maio de 2021, foi galardoada com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, atribuído pelo Património Nacional Espanhol e pela Universidade de Salamanca, pelo seu contributo para o património cultural do espaço ibero-americano. Escuro (2014), E Todavia (2018), What’s in a Name (2018) e Ágora (2020) são os seus títulos publicados pela Assírio & Alvim.
 
FONTE DA BIOGRAFIA: Editora Assírio & Alvim

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publicado às 19:53


#3134 - POEMA DE ANA LUÍSA AMARAL

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.09.20

Quando a cegueira

relâmpago de fogo que me incendiou,

me fez olhar a luz

 

não vi sequer as patas do cavalo,

nem o seu dorso inverso e ameaçante

que eu nunca pressentira,

eu à sua mercê

- e à mercê d'Ele

 

Abri os braços em fervor recente

de crente convertido

e nada disse

agi

 

Só mais tarde falei

 

Não sei se pressenti

dos gestos das palavras que no futuro

disse

 

e como o seu futuro

incendiou cidades e poluiu nascentes,

pisou até à morte

gente que não a minhha

 

Ainda que, por dentro,

naquele breve instante da cegueira,

eu sentisse

reconvertida e breve: a confusão

do amor -

 

DE ÁGORA, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, 2019

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publicado às 07:04


#823 -Ana Luísa Amaral

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09



EPOPEIAS DE LUZ

I


Queria um poema de epopeia

e luz,

escrito às duas da tarde

e num café

o espelho à minha esquerda,

o café amarelo  (que é  cor de que não gosto,

mas que brilha

na tarde adolescente)


Se eu não tivesse olhar

mas só ouvido atento a pequenos ruídos,

como uma voz e coisas indistintas:

o café a sair para lá do balcão,

uma cadeira de ferro

pintado

a arrastar-se de súbito...


Incongruências de quem tem olhar:

que no poema de epopeia

e luz

eu fale do que é táctil, mas se vê

(Ah! linha que seduz,

mas que contenho!)


Atirar a palavra pelo chão

com o abandono todo

da adolescência em tarde,

tantas horas de sol à minha frente

Deixá-la navegar como se fosse gente

quinhentista:

ao longo do desejo

e para lá


À minha esquerda,  o espelho

que a reflicta

a multiplique em sons e em sentidos,

lhe evite idade adulta

e a guarde finalmente:

adolescente e nua

como a tarde


Até que dela nasça,

navegando,

poema de epopeia sem o ser,

mas corpo todo em luz e boa-esperança:

como um Adamastor,

uma criança

uma sereia abandonada

e livre


II


Mas o Adamastor era uma rocha

e as sereias não há (que as provas: mais)

Minha pobre palavra que traí:


Antes tê-la deixado

contida nessa linha a seduzir,

antes tê-la guardada no centro

do olhar,

não lhe permitir ver espelhos de sol,

não lhe falar de adolescência

e luz, navegações e sonhos

quinhentistas


Que depois a conquista,

o coração pesado de ambições,

tortura de poderes


Minha pobre palavra

que se julgou, por minha culpa,

grande,

e que às duas da tarde e num café

se confundiu no espelho,

tomou por ouro o amarelo em cor,

e se perdeu de amores

por réplicas de olhar


III


E porque não agora,

às quatro da manhã?

Assim eu do naufrágio a salvaria:

não tarde adolescente

mas madrugada rebentando águas,

o fim do sortilégio


Queria então hoje

(as vinte e quatro horas

quase lé

e o remorso ausente do pensar):

um poema que fosse de epopeia

e luz

mas desta vez na cama

e devagar


Deixá-la resvalar

pelos lençóis e,

como o tempo é indeciso e nu,

ela sem perigo de se comover


Ela sem perigo

de se seduzir

no que seduz em réplica

de tudo


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publicado às 16:03


Ana Luísa Amaral

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.04.09



DIFERENÇAS (OU OS PEQUENOS BRILHOS)


Quando eu morrer, a diferença já não:

o próximo fulgir da estrela: igual,

na panela fervente o vegetal

à mesma temperatura. Quando eu morrer,

a minha rua será a mesma rua,

a luz do candeeiro: luz igual.

Os meus livros terão as mesmas cores,

as mesmas letras, os mesmos sinais,

tal como na cozinha os pontos cardeais

serão os mesmos onde quer que eu for:

aqui, botão do gás, ali os pratos

a flores discretas, recém-arrumados,

e do lado direito (simbólico o seu estado),

máquina de lavar. Quando eu partir,

as coisas ficarão como devem ficar.

Perder-se-á, é certo, da cozinha

o seu nível onírico e de inspiração:

nunca mais o fogo a dizer versos,

nunca mais o fogão: sem ser, sendo, fogão.

Para além disso, as rendas serão rendas,

as gavetas, gavetas. E, como é óbvio,

as janelas, janelas de entrar luz.

E o incêndio que vi nesta parede

(Tróia onde mil Cassandra a convidar)

ceder-se-á ao sítio onde o sonhei e pus.

Ou seja: no papel. Que ficará.

Que, como livro: anel interestelar,

como cebola à espera de um luar

que outros olhos não vêem. Mas seduz.

Quando eu partir, a diferença já não.

Só um fulgir de som? Só zunido de abelha

sobre flor? Minúsculo cavalo na parede

em ínfimo esplendor?

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publicado às 12:28


Ana Luísa Amaral

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.09

 

A Terra dos Eleitos

 

Era então essa

a terra do segredo,

o espaço de ventura

prometido?


De abundância

e

de doces lugares,

em que o excesso de ser

contrariava

a existência parca

da viagem?


Era essa então a terra

da promessa,

o espaço de fortuna

dos eleitos?


Devia ser:

e líquidas fronteiras

ali foram traçadas


Feitas de leite e mel

para os eleitos


e de fel e de sangue

para os

outros

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publicado às 12:12


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