Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#2787 - América

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.18

Carlos Drummond de Andrade

 

AMÉRICA

 

Sou apenas um homem.

Um homem pequenino à beira de um rio.

Vejo as águas que passam e não as compreendo.

Sei apenas que é noite porque me chamam de casa.

Vi que amanheceu porque os galos cantaram.

Como poderia compreender-te, América?

É muito difícil.

 

Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.

O rosto denuncia certa experiência.

A mão escreveu tanto, e não sabe contar!

A boca também não sabe.

Os olhos sabem - e calam-se.

Ai, América, só  suspirando.

Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.

 

Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não acompanham.

Inútil chamá-los: o vento, as doenças, o simples trempo

dispersaram esses velhos amigos em pequenos cemitérios  do interior,

por trás de cordilheiras ou dentro do mar.

Eles me ajudariam, América, neste momento

de tímida conversa de amor.

 

Ah, por que tocar em cordilheiras e oceanos!

Sou tão pequeno (sou apenas um homem)

e verdadeiramente só conheço  minha terra natal,

dois ou três bois, o caminho da roça,

alguns versos que li há tempos, alguns rostos que contemplei.

Nada conto do ar e da água, do mineral e da folha,

ignoro profundamente a natureza humana

e acho que não devia falar nessas coisas.

 

Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração.

Nessa rua passsam meus pais, meus tios, a preta que me criou.

Passa também uma escola - o mapa -, o mundo de todas as cores.

Sei que há países roxos, ilhas brancas, promomtórios azuis.

A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se

em amarelo, em vermelho, em  preto, no fundo cinza da infância.

América, muitas vezes viajei nas tuas tintas.

Sempre me perdia, não era fácil voltar.

O navio estava na sala.

Como rodava!

 

As cores foram murchando, ficou apenas  o tom escuro, no mundo escuro.

Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra.

Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios.

Seus passos urgentes ressoam na pedra,

ressoam em mim.

Pisado por todos, como sorriir, pedir que sejam felizes?

Sou apenas uma rua

na cidadezinha de Minas,

humilde caminho da América.

 

Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.

Muitas palavras já nem precisam ser ditas.

Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio,

certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,

violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu.

 

            Canta uma canção

            de viola ou banjo,

            dentes cerrados,

            alma entreaberta,

            descanta a memória

            do tempo mais fundo

            quando não havia

            nem casa nem rês

            e tudo era rio,

            era cobra e onça, 

            não havia lanterna

            e nem diamante,

            não havia nada.

            Só o primeiro cão,

            em frente do homem,

            cheirando o futuro.

            Os dois se reparam,

            se julgam, se pesam,

            e o carinho mudo

            corta a solidão.

            Canta uma canção

            no ermo continente,

            baixo, não te exaltes.

            Olha ao pé do fogo

            homens  agachados

           esperando comida.

           Como a barba cresce,

           como as mãos são duras,

           negras de cansaço.

           Canta a estela maia,

           reza ao deus do milho,

           mergulha no sonho

           anterior às artes,

           quando a forma hesita

           em consubstanciar-se.

           Canta so elementos

           em busca de forma.

           Entretanto a vida

           elege semblante.

           Olha: uma cidade.

           Quem a viu nascer?

           O sono dos homens

           após tanto esforço

           tem frio de morte.

           Não vás acordá-los,

           se é que estão dormindo.

 

Tantas cidades no mapa... Nenhuma, porém, tem mil anos.

E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas.

Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos fogos terá?

Nunca se sabe, as cidades crescem,

mergulham no campo, tornam a aparecer.

O ouro as formas e dissolve; restam navetas de ouro.

Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados

(que vão esmagar a última revolução);

o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro dos valentes;

a pequena fábrica de chapéus; a professora que tinha sardas...

Estes pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão.

A criança espantada

não sabe juntá-los.

 

Contaram-me que também há desertos.

E plantas tristes, animais confusos, ainda não completamente determinados.

Certos homens vão de país em país procurando um metal raro ou distribuindo palavras.

Certas mulheres são tão desesperadamente formosas que é impossível não comer-lhe os retratos e não proclamá-las

                                                                                                                                                                            [demônios.

 

Há vozes no rádio e no interior das árvores,

cabogramas, vitrolas e tiros.

Que barulho na noite,

que solidão!

 

Esta solidão da América... Ermo e cidade grande se espreitando.

Vozes do tempo colonial irrompem nas modernas canções,

e o barranqueiro do Rio São Francisco

- esse homem silencioso, na última luz da tarde,

junto à cabeça majestosa do cavalo de proa imobilizado

comtempla num pedaço de jornal a iara vulcânica da Broadway.

 

O sentimento da mata e da ilha

perdura em meus filhos que ainda não amanheceram de todo

e têm medo da noite, do espaço e da morte.

Solidão de milhões de corpos nas casas, nas minas, no ar.

Mas de cada peito nasce um vacilante, pálido amor,

procura desajeitada de mão, desejo de ajudar,

carta posta no correio, sono que custa a chegar

porque na cadeira elétrica um  homem (que não conhecemos) morreu.

 

Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento.

Portanto, solidão é palavra de amor.

Não é mais um crime, um vício, o desencanto das coisas.

Ela fixa no tempo a memória

ou o pressentimento ou a ânsia

de outros homens que a pé, a cavalo, de avião ou barco, percorrem teus caminhos, América.

 

Estes homens estão silenciosos mas sorriem de tanto sofrimento dominado.

Sou apenas o sorriso

na face de um homem calado.

 

POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE IN A ROSA DO POVO, EDIÇÃO COMPANHIA DAS LETRAS, FEVEREIRO DE 2017

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:33


#2767 - A Democracia Americana...

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.01.18

 Henry Louis Mencken (1880-1956)

 

Henry Louis Mencken, também conhecido como H. L. Mencken, foi um jornalista e crítico social norte-americano. Mencken é conhecido por escrever The American Language, um estudo de como a língua inglesa é falada nos Estados Unidos, descreveu a democracia americana como "a adoração de chacais por idiotas"

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:44


#2762 - Trump é uma fraude maciça...

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.18

 PHILIP ROTH

 

"... Trump é uma fraude maciça, a soma maligna das suas deficiências, destituído de tudo excepto a ideologia oca de megalomaníaco."

 

Afirmação feita por Philip Roth, um dos grandes escritores so século XX e da história da literatura, em entrevista dada a Charles Mcgrath para o "The New York Times" e publicada pela revista  "E-A revista do Expresso", edição 2361, de 27 de Janeiro de 2018.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:39


#2737 - Actual Editora edita "Fire and Fury" em Portugal

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.01.18

A Actual Editora, chancela do Grupo Almedina, adquiriu os direitos para a edição portuguesa do livro Fire and Fury, do autor Michael Wolff, sobre o presidente norte-americano, Donald Trump. O livro deverá chegar às livrarias portuguesas em Fevereiro. E no Brasil, o livro será editado pela Editora Objetiva.

A obra tem sido um dos títulos mais comentados nas últimas semanas, tendo gerado longas filas de espera no dia do lançamento nos EUA. Outras pessoas optaram pela compra online, o que em alguns casos levou a um engano. Um outro livro com um título similar foi comprado por muitos leitores. Trata-se do livro Fire and Fury: The Allied Bombing of Germany, 1942-1945 da autoria de Randall Hansen, professor da Universidade de Toronto.

No livro Fire and Fury: Inside the Trump White House, Michael Wolff analisa os esquemas internos da presidência de Trump, através de informação privilegiada a que teve acesso. Na obra, o autor explora o fenómeno Trump e a polémica, as controvérsias, os escândalos e o drama a ele associados.

 

Notícia retirada do Jornal "Público"

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:44


#2230 - O escritor que imaginou Trump em 1935

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.03.17

 Sinclair Lewis imaginou um candidato à presidência machista, xenófobo e populista que prometia uma nova grandeza para os EUA

 

In "El País Brasil"

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:25


#2163 - "Trump tem o vocabulário de uma criança de 6 anos"

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.02.17

Peter Kuznick, professor de História na Universidade Americana em Washington

 

Para Peter Kuznick, professor de História na Universidade Americana em Washington, "as coisas parecem bem encaminhadas" para um impeachment a Trump. Kuznick é especialista em temas nucleares e autor do livro "A História não Contada dos Estados Unidos", escrito com o realizador Oliver Stone e editado em Portugal pela Vogais.

Está assustado com a presidência de Donald Trump?

Aterrorizado. A ameaça mais imediata vem das políticas nucleares. Basta pensar que uma guerra muito limitada, por hipótese entre a Índia e o Paquistão, em que explodissem cem bombas equivalentes à de Hiroxima, seria suficiente para causar dois mil milhões de mortos, uma queda abrupta das temperaturas e doenças pelo menos durante uma década. Imagine-se o que poderia acontecer se fosse usada apenas uma fração das cerca de 15 mil armas muito mais potentes. Trump disse durante a campanha que responderia a um ataque terrorista com armas nucleares, já ameaçou rasgar o acordo com o Irão e os seus conselheiros em matéria de política externa são assustadores. Rodeou-se de um bando de islamofóbicos.

Já se fizeram muitas comparações entre Hitler e Trump. É exagero?

Apesar de muitas semelhanças, Trump ainda não é um Hitler, nem nós deixaremos que ele se torne num. Ele apela às piores tendências que existem na sociedade, tem posições muitos hostis em relação aos muçulmanos e não lhe corre no sangue um pingo de bondade ou de generosidade humana. Mas ainda não vimos aquele ódio cego que poderia levar a uma loucura genocida como no caso de Hitler. Um sinal preocupante, porém, é o desprezo que mostra pela verdade. Não é um nazi, mas não tenho dúvidas de que um homem como Trump seria um nazi na Alemanha dos anos 30.

Tem esperança de que o Partido Republicano funcione como travão à loucura de Trump durante os próximos quatro anos?

Não, porque quem o criou foi o Partido Republicano. Trump é um produto de anos e anos de posições republicanas que apelam ao pior da sociedade americana: ao ódio, preconceito, medo, racismo, à misoginia. Trump vai apenas um bocadinho mais longe do que é o republicano médio dos dias de hoje. Os extremistas do Tea Party acabaram com os republicanos moderados. A única esperança, ainda que ténue, é que os menos extremistas dos extremistas percebam que Trump não é bom para o partido e que ficariam melhor com Mike Pence.

O ano de 2017 marca o 25.º aniversário do fim da Guerra Fria. Como vê a relação EUA-Rússia? Podemos falar de um antes e um depois de Vladimir Putin?

Nos tempos de Boris Ieltsin a relação Washington-Moscovo foi uma maravilha para a classe dirigente norte-americana, mas revelou-se um desastre para a Rússia. Ieltsin aceitou tudo o que os EUA queriam. O resultado foi a economia russa a encolher. Até a esperança média de vida caiu dos 66 para os 57 anos. O escritor Alexander Soljenítsin, depois de ter estado exilado durante duas décadas, voltou à Rússia e descreveu a situação em 2000: "Os setores fundamentais do Estado foram destruídos ou saqueados. Vivemos entre ruínas. As falsas reformas deixaram ainda mais pessoas na pobreza." Este foi o momento em que a NATO começou a expandir-se para leste - apesar de Bush ter prometido a Gorbachev de que isso não aconteceria se a Rússia viabilizasse a reunificação alemã.

E com Vladimir Putin?

No início, Putin teve um comportamento amistoso para com os EUA. Mas aos poucos, à medida que a NATO continuou a expandir-se até às portas da Rússia, a relação com Bush filho azedou. Barack Obama prometeu recomeçar do zero, mas continuou a seguir as políticas que eram vistas por Putin como uma ameaça para a segurança nacional russa, incluindo o envio de armamento para o espaço, a expansão da NATO, o envio de tropas para o Báltico, a Ucrânia, as sanções... Apesar de ter havido uma colaboração positiva em casos como o acordo nuclear com o Irão, as relações deterioraram-se a um ponto em que começou a falar-se numa "nova Guerra Fria". Em 2016 a situação era de facto perigosa. EUA e Rússia estiveram mais perto da guerra do que em qualquer momento desde 1962.

Com Trump passámos da nova guerra fria ao amor quente?

No último ano fui várias vezes à Rússia. Foi preocupante perceber que os meus colegas russos preferiam Trump a Hillary Clinton. Não sou um fã de Clinton, mas tentei explicar-lhes que ela seria sempre preferível a um louco imprudente, intolerante, ignorante, narcisista e impulsivo. A única coisa que Trump fez até agora como presidente que me deixa um bocadinho de esperança foi o telefonema com Putin. É bom que tenha conseguido reduzir as tensões. Mas o facto de neste momento estar a ser amigável para com a Rússia não significa que seja assim amanhã. Um homem que perde as estribeiras se for provocado no Twitter não devia jamais ter acesso aos códigos nucleares.

É uma questão de tempo até que as coisas amarguem?

Trump é um homem cheio de ódio e preconceituoso. E rodeou-se de pessoas da mesma laia. Creio que as relações vão azedar muito depressa.

Trump estará a começar uma nova guerra fria com a China?

Infelizmente, parece que sim. Mas também nesta questão a sua política pode mudar amanhã.

Quão plausível é um impeachment a Trump?

As coisas parecem bem encaminhadas. Até no próprio partido há muita gente a perder a cabeça. Trump tem a maturidade emocional de uma criança de 4 anos, o vocabulário de uma de 6 e é incapaz de pensar um problema complexo. Tem tanta propensão para os escândalos que dá aos opositores corda mais do que suficiente para que o enforquem.

Os conflitos de interesses...

Estão por todo o lado. Recusa publicar as declarações de impostos e passou os negócios para as mãos dos idiotas dos filhos. Há vários processos a correr contra ele e convém não esquecer que uma dúzia de mulheres apareceu durante a campanha a acusá-lo de assédio. O país está mobilizado contra ele. Desde os movimentos contra a Guerra do Vietname nos anos 1960 que não assistíamos a este nível de mobilização política. Muitos republicanos preferiam ver Mike Pence [atual vice-presidente] no lugar de Trump. Não terá a mesma pompa e circunstância, mas é um herói dos fanáticos cristãos da ala mais à direita do partido.

 

Entrevista publicada no DIÁRIO DE NOTÍCIAS ON-LINE  por José Fialho Gouveia

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:20


#2162 - A conspiração contra a América

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.02.17

 BERNARD-HENRI LEVY

 

Não é bizarro, perguntei a Roth, que a maior democracia do mundo dependa de um sistema de separação de poderes tão improvável?

 

No dia da tomada de posse de Donald Trump conheci Philip Roth. Foi uma experiência estranha passar, com o nosso amigo comum Adam Gopnik, o fim de um dia louco na companhia do escritor que, há 13 anos, em A Conspiração contra a América (Dom Quixote, 2005), descrevia exactamente o pesadelo arrepiante em que os EUA entraram.

Encontrámo-nos no seu apartamento forrado a livros de Manhattan, para onde se mudou depois de ter anunciado que se reformava da escrita. Ttinha passado a manhã desse dia de 20 de Janeiro em frente à televisão. Tal como muitos americanos, mas talvez com um grau de estupefacção suplementar, viu as imagens chocantes do bebé crescido que, com grande estardalhaço, pequenos punhos erguidos, insultava as elites de Washington, o povo americano, o mundo inteiro.

Falámos da outra criança, a verdadeira, o pequeno Barron Trump, vestido como príncipe de comédia e deslocado como se fosse um pacote, ou um troféu, entre os pódios onde se celebrou o triunfo de César seu pai.

Roth tem, como se sabe, um carinho particular pelas heroínas literárias, por isso detivemo-nos no caso de Melania, a first lady, com o seu ar estranhamente ausente durante a cerimónia — lúcida? Informada? Pressentindo, melhor do que todos nós, as catástrofes que se estão a preparar? Ou será apenas a história da mais bonita rapariga do subúrbio que um adolescente ávido convidou para dançar e aperta de mais?

Roth falou também das forças que, no seu romance ou mais exactamente no novo romance que o mundo está a escrever, e de que ele, conhecedor, extrai as linhas cómicas e trágicas, podem resistir a esta maré negra de vulgaridade e de violência. 1. O povo soberano que desceu em massa às ruas das grandes cidades do país, lembrando que em termos de votos totais foi ele, e não Trump, que ganhou as eleições. 2. Os republicanos que sabem que entre Trump, o antigo democrata que se tornou populista, e o grand old party, que ele usou como trampolim, se trava uma luta de morte. 3. A CIA, cuja sede Trump visitou no dia após a posse, sem dispensar uma palavra aos 117 agentes mortos em missão, cujos nomes estão gravados na parede mesmo por trás dele, quando se entregou a um exercício de auto-satisfação pueril e grotesco sobre o número de apoiantes que tinham chegado a Washington para celebrar [a tomada de posse]. 4. Os responsáveis do FBI que não lhe perdoarão ter duvidado da sua probidade no caso da pirataria informática por parte dos serviços secretos russos para influenciar os resultados da campanha a seu favor. 

Não é bizarro, perguntei a Roth, que a maior democracia do mundo dependa de um sistema de separação de poderes tão improvável? O que é bizarro, responde-me ele, com uma grande gargalhada, inclinando a cabeça para trás, é o estado de insurreição em suspenso, pelo qual é responsável este Presidente mal eleito e para o qual se pode prever um mandato ainda mais curto do que o do herói do seu romance. 

Claro que as situações não são comparáveis. O romance decorre em 1940.

Retrata Charles Lindbergh, o herói aviador com simpattias nazis, que ganha por pouco ao candidato favorito da época, F. D. Roosevelt. Lindbergh era um anti-semita assumido.

Mas ao mesmo tempo....

Esta retórica mussoliniana...

E depois há o slogan "América primeiro", surpreendendo que nos EUA não se tenha agitado o coração de gente com um pouco de cultura política, independentemente das simpatias políticas – porque era este o slogan oficial dos nazis americanos no tempo de Charles Lindbergh. Era a resposta aos que queriam que a América resistisse à Alemanha de Hitler. Foi em seu nome que foram denunciados os "judeus belicistas". E foi este slogan que Trump repetiu na escadaria do Capitólio e fez com que David Duke, antigo líder do Klu Klux Klan, soltasse um estrondoso: "Conseguimos!"

Donald Trump sabe tudo isso e, quando lho apontam, responde que está a olhar "para o futuro", não "para o passado".

Mas o mundo divide-se entre os niilistas sem memória e os que sabem que as línguas têm uma história. O jogo faz-se entre os que crêem que se pode, sem mal, repetir 15 vezes num discurso o slogan dos supremacistas brancos e os que sabem que a genealogia das palavras, quando negada, vinga-se.

Trump, um pseudo-aliado dos maiores demagogos do nosso tempo, está a ser rejeitado em todo o mundo. Mas consideremos esta estranha e sinistra particularidade: o mais impopular Presidente da América visitou recentemente Jerusalém e criou um afinidade com aqueles que o seu predecessor na ficção considerava sub-humanos.

E há o seu slogan "América primeiro". É surpreendente que estas palavras não tenham dado a volta ao estômago a todo o espectro político americano.

Possam os destinatários desta súbita solicitude protegerem-se deste seu novo amigo como fazem em relação aos seus inimigos.

Possam nunca esquecer que o destino de Israel é uma coisa demasiado séria para que um aventureiro impulsivo e inculto o use para demonstrar a sua autoridade ou o seu suposto talento para fazer negócios.

E que sejam poupados ao dilema, descrito no romance de Roth, de ter de escolher entre dois destinos igualmente funestos: o da vítima, Winchell, e do refém, Bengelsdorf.

A America não leu Philip Roth tanto quanto devia.

O mundo de Roth ou o de Trump: essa é a questão.

 

CRÓNICA DE  BERNARD-HENRI LEVY PUBLICADA NO JORNAL ON-LINE  "PÚBLICO" DE 14 DE FEVEREIRO DE 2017

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:29


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas