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#2221 - DEITADO COM O DEDO NA BOCA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.03.17

 ALICE SANT'ANA

 

DEITADO COM O DEDO NA BOCA

 

deitado com o dedo na boca

o sorriso invertido

curvado como uma montanha

a pele da perna uma cédula

gasta e seca

todos os dias rigorosamente iguais

banheiro, visitas, ampolas de sangue

às vezes tem mordomias como

um pedaço de pão ou uma fruta

doces nem pensar

da janela passa uma nuvem de carros

um táxi amarelo convida

a ir a qualquer lugar

sem previsão de alta o táxi é mais

uma miragem um filme

na televisão aquele programa da tv5

sobres casas em paris sem saneamento

pessoas que moram hoje, você acredita?, em quartos

sem janelas, apartamentos no sexto andar

sem elevador, como será que fazem para subir

com a água? não tomam banho, naturalmente

depois se cansa da conversa

a nuvem se torna mais espessa

na hora do rush o táxi não tem serventia

se não puder tomar o caminho que leva

ao ponto mais alto

de onde se vê a curvatura da terra

 

Poema da poeta brasileira Alice Sant'Ana

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publicado às 12:52


#2212 - Comprou Brincos de Âmbar

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.03.17

ALICE SANT'ANNA 

 

COMPROU BRINCOS DE ÂMBAR

 

comprou brincos de âmbar

porque alguém disse

que se juntasse a cor da pele

com a dos olhos e dos cabelos

a soma seria âmbar

no telefone ela sorri muito

mexe a cabeça para que os brincos

pendurados batam no fio

assim ela lembra que está de brincos

assim ela lembra que tanta gente passa uma vida

inteira sem saber qual é a soma

de todas as cores

e eu já encontrei a minha, ela diz

cheia de dentes (os dentes

imagino do outro lado da linha)

conta que tem dormido pouco

acorda sonolenta

não lembra nunca do que sonhou

ou fala isso porque no fundo os sonhos

são inconfessáveis

até para o analista teria vergonha

de repente uma longa pausa

e se os sonhos fossem

subitamente proibidos?

ela pergunta dramática

diz que não vai ter pressa

o mapa astral diz para não ter pressa

não vou acumular dívidas

minha vida será confortável

um amor e filhos será possível

enrosca o âmbar com o indicador

aperta a pedra até não quebrar

um amor que ainda vai acontecer

a astróloga a aconselhou a viajar

vai comprar um anel em cada canto do mundo

precisa usar os anéis todos juntos

uma mão toda de prata quase uma luva

depois perder os anéis um por um

especialmente aquele com a pedra âmbar

dizer que tomou todo cuidado possível

para não perder os anéis

mas todo cuidado não previne do frio

que afina os ossos no inverno

e faz com que os anéis deslizem e se lancem

não previne dos assaltantes

nem dos lapsos em quartos de hotel

nem das pessoas que pedem

para ficar com um lembrete uma recordação

todo cuidado não elimina sequer a vontade

de esquecer o anel de propósito

 

POEMA DE ALICE SANT'ANA, POETA BRASILEIRA

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publicado às 17:59


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