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#3008 - GAIVOTA ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

GAIVOTA

 
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
 
poema de alexandre o'neill

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publicado às 09:18


#2999 - A PLUMA CAPRICHOSA ||| Poema de Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.19

Alexandre O'Neill - (1924-1986)

 

A PLUMA CAPRICHOSA

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no grande medo instintivo da minha mãe

no medo zangado e prático de meu pai

estou em ti no teu religioso medo

nas tuas lágrimas queixas  e suspiros

de mulher ajoelhada

 

Estou na horrível palavra «querido»

quando tu a dizes encostada a mim

enlaçando-me com os teus braços de renúncia e cobardia

com os teus olhos de súplica silenciosa

com os teus olhos de humildade canina

enlaçando-me

                       a mim

teu amante teu senhor e teu filho

 

Estou no murmúrio de desgosto da minha família

da minha família imóvel diante de mim

da minha família poderosa

da minha família de olhar duro

da minha família de olhar terno

da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos

pronta a saltar-me em cima e reduzir-me

a mais um da família

 

Estou onde não devia estar

 

Estou ainda estou no verbo fugitivo

no verso enigmático palaciano e «puro»

no tapete de sonho que vai partir prò infinito

na palavra que desmaia de inanição e medo

do medo de dizer o que devia dizer e que não diz

tão doente ou mais do que eu

 

Estou onde não devia estar

 

Nos olhos do construtor que vê a fortuna a crescer

na consciência do médico que esquece o doente no seio da morte

no advogado que defende os interesses mais cruéis

no professor que se diverte a torturar as crianças

no general que manda fuzilar os inocentes

no polícia que procura por todos os meios a verdade

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no compêndio de história onde a mentira se organiza

para proclamar uma «verdade»

 

Sou uma das intrigas de corte

uma das mais sinistras ou galantes intrigas de corte

sou a batalha dos Vinte-de-Língua-de-Fora

destroçando os Vinte-Mil-de-Coração-aos-Pés

sou a célebre resposta do Cavaleiro Trovão

ao insolente emissário dum rei inimigo

sou o mar de pão transformado em mar de rosas

só por causa do génio dum marido

 

Também apareço nas colunas do jornal

do jornal de maior tiragem e circulação universal

Sou o rapaz educado simpático filho de boas famílias

que deseja conhecer senhora de alguns meios

p'ra fins matrimoniais

ou o cãozinho que a mesma senhora entre os homens muito maus perdeu

numa hora de grande movimento

o cãozinho que queria fazer chichi e que disse Madame por favor espere aí

o cãozinho que nunca mais apareceu

 

Também posso ser visto no jornal

apanhando dinheiro aos que procuram um emprego

ou chamando  com urgência uma alma capitalista generosa

p'ra financiar a ideia que trago na cabeça

No jornal já fui estúpido e perigoso como o senador

que ameaça reduzir o homem

a um pobre farrapo vacilante

Já fui a mulher tão simpática dum conhecido político

promovendo chás de caridade tricôs de caridade

enquanto o marido prepara mais pobres mais miséria mais chás de caridade

com aquele sorriso que todos lhe conhecem

 

No jornal cantei na festa do embaixador

     e todos gostaram muito

Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa

     e todos acharam bem

Roubei cinco mil contos ao país

    e todos foram no final das contas muito compreensivos

 

No jornal fui uma espécie de poeta oficial

no jornal fui uma ponte de propaganda sobre um rio de turismo

no jornal fui a República de São Salvavidas discursando na O.N.U.

fui Mimi Travessuras declarando-se encantada por cantar em Lisboa

fui o capitão Westerling a fina-flor dos aventureiros

fui J.J. Gomes homenageaso pelo seu pessoal

fui Teresa a conhecida importadora de carícias

disfarçada sob um monte de chapéus

 

Estou onde não devia estar

Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre a fronteira da nostalgia

e a solução um penacho de fumo

o meu coração fumegando na linha do horizonte

 

A todo este azul chamo cobarde

e a cobardia está em mim como em sua casa

está nos meus versos mesmo nos mais corajosos

nas imagens que fabrico à espera que a vida chegue e me liberte

nos grandes lemas sonoros que ponho no meu caminho

 

Estou onde não devia estar

 

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa

passa pelos olhos dum gato

como o avião passa no céu do camponês

como a cidade passa pelo convalescente

que sai pela primeira vez

 

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei

nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram

na sua ternura quase insuportável

o destino passa

 

No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão

e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver

o destino cumpre-se e passa

Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam

como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam

na espuma que esmago contra a areia muito fria

na mulher que me acompanha e comigose perde na noite

nos soluços de luz verde que um fasrol nos envia

o destino detém-se e passa

Na inesperada hora de felicidade

vivida um pouco a medo

como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim

um pouco a medo

como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia

o destino demora-se e passa

 

Estou onde não devia estar

 

Mas basta

                 basta

                          basta

 

Que o discurso termine

É tempo é madrugada

No dorso dos objectos que me cercam

na mão que me sustenta e eu sustento

no fio desesperado destes versos

é madrugada

 

As primeiras

                     vagas de luz

                                           tomam de assalto

os redutos da noite

 

                 Na sua guarita

                                          o militar

                 é um monte de sono

                 uma pálpebra que bate desesperada

                um cigarro impossível de acender

                uma espingarda tão absurda como o frio

                o sono

                          a hora

                                   a vida

 

É madrugada

é definitivamente madrugada

 

Contra o azul do céu

o azul operáriolevanta-se nas ruas

a cidade estremece já é dia

já é dia claro

 

De novo o «sim» e o «não»

o café em todas as gargantas

e o primeiro cigarro que começa a trabalhar.

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL IN POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIN, MARÇO DE 2017         

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publicado às 19:56


#2957 - UM ADEUS PORTUGUÊS ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]

 

UM ADEUS PORTUGUÊS

 

Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz de ombros puros e a sombra 
de uma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta cama comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta dor portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Não tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

                               * 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti. 

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL in «NO REINO DA DINAMARCA» - 1958

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publicado às 16:41


#2281 - Os Cegos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

 Alexandre O'Neill

 

OS CEGOS

 

                                                                                                      Ah, Madame! que la morale des aveugles

                                                                                                                  est différente de la nôtre!

 

                                                                                                                              DIDEROT - Lettre sur les aveugles  

 

 

Durante os meses de inverno, podemos ver os cegos, sobre os telhados, acariciando os dedos - à procura duma mãe que não seja virgem.

 

O prazer torna-os redondos como ovos e o vapor de água vem flutuar sobre os seus bigodes sempre em sangue.

 

Às vezes soluçam e deixam escapar da boca pequenas coisas - o  que não basta para interromper o jogo.

 

Quando chega a primavera, os cegos caem dos telhados e começam a andar  pelas ruas à procura da moeda de perfil de luz.

 

Prosa escrita por Alexandre O'Neill in POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS - ASSÍRIO & ALVIM 2017

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publicado às 16:24


#2279 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

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 POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS de Alexandre O'Neill - Edição e posfácio de Maria Antónia Oliveira.

Livro publicado em Março de 2017 por Assírio & Alvim

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publicado às 15:26


#936 - Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.09



Uma Lição de Poesia Uma Lição de Moral


                         A memória de Paul Éluard

 


Estudaste a bondade aprendeste a alegria
Iluminaste a noite com a estrela
E o desejo com a necessidade

 

Comunicativo bom inteligente
Soubeste sofrer sem destruir a vida
Sem chamar pela morte

Soubeste vencer o íntimo lazer
As absurdas manias que a solidão instala
No coração virado na cabeça perdida

Soubeste mostrar o rnais secreto amor
Numa alegria feroz perfeita pública
Capaz de provocar o ódio e a ternura

Em todas as frentes que por ti passavam
Contra-atacaste repelindo o mal
Com pesadas perdas para o inimigo

E na miséria que subia aos rostos
Puseste a nu a resistência a esperança
E um futuro sorriso

Enquanto velhas feridas se fechavam
Tua poesia abriu-se e hoje é comum
E transparente como os olhos das crianças

Hoje é o pão o sangue e o direito à esperança
À esperança que é «um boi a lavrar um campo»
E que é «um facho a lavrar o olhar»

Andaste triste mas não foste a tristeza
Sofreste muito mas não foste a dor
Amaste imenso e eras o amor

Cantaste a beleza proferiste a verdade
Encontraste não uma mas a razão de ser
Compreendeste a palavra felicidade

E numa extrema juventude e sob o peso
Precioso da simplicidade
Tudo disseste

Disseste o que devias dizer.


In No Reino da Dinamarca

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publicado às 08:40


Há palavras que nos beijam

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.05.09

 

 

 Alexandra de Pinho

 

Alexandre o'Neill

 

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

 

In No Reino da Dinamarca

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publicado às 11:35


Alexandre O'Neil

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.01.09

PARA WALT WHITMAN NOS TEMPOS DO MACCARTHYSMO

 

 

Já não te podem suportar, Walt Whitman.
Como os doentes que na doença se comprazem e não
                    [toleram que lhes demonstrem a saúde.
Como quem à luz incomparável do real se sente albino
e proclama a noite em pleno dia,
assim eles te rejeitam, ó patriarca, te tornam episódico,
porque   não   querem   que   tenhas   ainda   muito   mais
                                                              [ consequências,
porque não podem, inconfundível como és, aproveitar-te
para aumentar a confusão.

As grandes pontes fraternais que lançaste, vão-nas
                                                                      [demolindo.

O amor sem limites que te trouxe até nós,
o teu orgulho de uma humildade insuportável,
de uma humanidade formidável,
perante as grandes e pequenas coisas deste mundo,
tudo isso vão eles negando e rejeitando,
e o seu ideal será dizer, um dia,
que nunca exististe, que não foste
mais do que, como nos filmes, mera coincidência.

Ó Walt, no país que foi o teu já não há ruas
como os versos por onde caminhaste até nós,
até este «nós», ruas largas, mas de fraternidade,
ruas percorridas por uma simpatia, uma saúde, uma
                                                                  [alegria
que só esperavam mais rostos p'ra se demonstrar...

Que eu viaje, respire, viva
— escrevo hoje como escrevi um dia —
no teu verso democrático, ó Walt Whitman!
Como as sequóias  que cresceram através dos séculos
até nos nossos dias se elevarem
cm majestosas catedrais,
assim também não foi em vão que tantas vozes cresceram
até na tua, muito alto, verdejarem.

*

Não sei porquê, Walt, a teu respeito
me lembro duma garrafa
que no país que ainda é teu há anos enterraram.

Tinha filmes, livros, notícias completas
deste tempo que é e não é nosso.
garrafa lançada ao mar do tempo
p'ra que os futuros homens, descobrindo-a,
soubessem o que fomos...

 

Poema de Alexandre O'Neil, In Poemas com endereço

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publicado às 17:43


O Enforcado

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.10.08

No gesto suspensivo de um sobreiro,

o enforcado

 

Badalo que ninguém ouve,

espantalho que ninguém vê,

suas botas recusam o chão que o rejeitou.

 

Dele sobra o cajado.

 

Poema de Alexandre O' Neill, Poesias Completas, Assírio & Alvim, Edição 605, 2000

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publicado às 18:59


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