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#2665 - Um poema de Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

 Alberto Raposo Pidwell Tavares (Al Berto)

11 Jan 1948 | 13 Jun 1997
 
 
 
panos estendidos sobre os animais mortos
névoa
escondendo a paisagem onde caminha o corpo
que esqueceste ontem no limiar da manhã
 
senta-te na cama - toca nos animais
solta-os e vais ver que a paisagem gravou
sombras nos olhos - fecha-os
para que tudo arda com a itensidade de um astro
 
dá as mãos e  o coração
às feras do crepúsculo - quando o termómetro
marcar 39 e meio e nas pálpebras se abrirem
charcos de treva... mas
 
por agora
fica sossegado - bebe o leite quente
aconchega as mantas - dorme
com o fio da gadanha enrolado ao pescoço
 
POEMA DE AL BERTO
 

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publicado às 18:54


Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.05.09

[A LEITURA DOS DIAS FAZ-SE A PARTIR DE VITRAIS DE ÁGUA]


a leitura dos dias faz-se a partir de vitrais de água
e sombra de palavras
paisagens cidades descobertas algures sobre os dedos
estrangulados na incerteza mineral da noite
onde o cansaço me devora impedindo-me de prosseguir

e ao aproximar-me do centro vertiginoso da página
o movimento da mão torna-se lento e a caligrafia meticulosa
a sede devassa a escassez dos corpos
o monólogo embate
despenha-se pelas brancas margens da desolação

o enigma de escrever para me manter vivo
a memória desaguando a pouco e pouco no esquecimento perfeito
para que nada sobreviva fora deste corpo viandante

vou assinalar os percursos da ausência e as visões
doutros lugares de sossegados amarantos...alimentar a escrita
com o sangue de cidades e de facas engorduradas
onde os corpos adquirem a violência noctívaga da fala
desfazendo-se depois na carícia viscosa dos néons

mas existe sempre um qualquer lume eterno
um coração feliz à esquina dos sonhos
surge o deserto que toda a noite procurei
está em cima desta mesa de trabalho no meio de palavras
donde nascem indecifráveis sinais...irrompe
o movimento doutro corpo colado ao aparo da caneta
desprende-se da folha de papel agride-me e foge
deixando-me as mãos tolhidas num fio de tinta


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publicado às 18:11


Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.09


E se a morte te esquecesse?

Ficarias aí deitado, o olhar fixo noutros olhares. Silencioso,

ou a contar histórias de barcos, de oceanos e de mares,

de peixes e de turbulentos rios - até que a luz

poeirenta do mundo se extinguisse,

para sempre.


Poema de Al Berto in "Luminoso Afogado"

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publicado às 12:05


Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.01.09


SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE


  tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
      tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas quero construir um templo em forma de ilha
      ou de mãos disponíveis para o amor
     
na verdade, estou derrubado
      sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei onde
      procuro as aves recolhidas na tontura da noite
      embriagado entrelaço os dedos
      possuo os insectos duros como unhas dilacerando
      os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar
      dizem, que ao possuir tudo isto
      poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito interrogar-se acerca da melancolia das mãos
      esta memória lâmina incansável
    
 um cigarro
      outro cigarro vai certamente acalmar-me
      que sei eu sobre tempestades do sangues? e de água?
      no fundo, só amo o lado escondido das ilhas
      amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
      estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
      hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

 

Poema de Al Berto in O MEDO

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publicado às 17:54


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