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#2962 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.19

É muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para peceber a falta dela

 

Afonso Cruz in «Paralaxe», crónica publicada no Jornal JL, edição n.º 1261, de 30 de Janeiro a 12 de Fevereiro e 2019

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publicado às 18:45


#2786 - A Boneca de Kokoschka, de Afonso Cruz

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.18

a boneca de kokoschka011.jpg

 "Existem doenças infames, capazes de fazer do nosso corpo uma gaiola para a alma. Parkinson plus é uma das formas mais perversas de o Universo mostrar a sua crueldade medieval. Ou, como disse Lao Tsé, o Universo trata-nos como cães de palha."

 

Do livro de Afonso Cruz, "A Boneca de Kokoschka", edição da Companhia das Letras

 

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publicado às 18:30


#2387 - Nem todas as baleias voam

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.05.17

 Afonso Cruz

 

(...) Erik Gould deu o seu primeiro concerto a solo no bar de Manhattan onde, em mil novecentos e trinta e nove, Eleanora Fagan, conhecida por Billie Holiday (com uma gardénia no cabelo, vinte e três anos), cantara sobre pretos linchados e pendurados em árvores. Na altura, o racismo americano fazia que os pomares frutificassem cadáveres. ("Strange Fruit" era uma canção tão boa que Nina Simone, completamente fascinada, afirmou: "Nunca ouvi nada tão desagradável." E a seguir teve de ir à casa de banho, tinha os intestinos às voltas, a alma a pingar. Há canções que fazem bater palmas, não são más; mas depois há outras, as que silenciam a plateia ou que fazem uma revolução no corpo ou que dão um coice na boca do estômago.) 

Billie Holiday fazia às músicas o mesmo que Gould. Acariciava-as com a voz, deitava-as e fazia amor com elas. E talvez tenha sido nessa altura que Gould aprendeu a beijar o que tocava no piano, a usar os dedos como objectos sensuais e, ao pousá-los nas teclas, acariciar a melodia juntamente com o ébano e marfim. Foi também com Billie Holiday que Gould aprendeu a tocar "I committed crime Lord I needed", não só como quem faz sexo mas também como quem espeta uma faca, "Crime of being hungry and poor". Ou as duas coisas ao mesmo tempo: "I left the grocery store man bleedin'." 

Estamos demasiado familiarizados com esta ideia de dor e felicidade que, perversamente, se misturam e se engendram, mas também é verdade que tendemos a separar as duas como se tivessem existências autónomas. Este matrimónio aflitivo entre duas experiências superficialmente antagónicas, mas que formam um tecido comum, é uma espécie de ironia subjacente ao Universo. Junqueiro chamou à dor o "substrato último da Natureza, o fundo irredutível do Universo", acrescentando-lhe, claro, a possibilidade de ser transformada em algo mais luminoso: "Não há beleza esplendente que não fosse dor caliginosa. A flor é a dor da raiz, a luz, a dor das estrelas." Acrescentou: "Homens de gosto coleccionam quadros ou estátuas. O meu amigo colecciona dor. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surpreende, não a envazilha num frasco, guarda-a no coração. Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um reagente que dissolve tudo: lágrimas." Cabe-nos, ao aceitar as regras deste jogo, uma espécie de exercício de mineração, trabalhar afanosamente e sem tréguas na extracção de virtudes de dentro de matéria vil. Orígenes vislumbrou, na sua apocatástase, um final feliz para o Universo, resultante deste trabalho redentor, um final glorioso em que o próprio Diabo seria perdoado, fazendo culminar o preceito bíblico "amar o inimigo". Com música, em vez de explosões e danações. Um eterno baile. (...)

 

Excerto retirado do livro  de Afonso Cruz "Nem todas as baleias voam", pags. 16 e 17, edição Companhia das Letras, Novembro de 2016

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Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014.

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publicado às 19:38


#2126 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.17

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 "De todas as operações conhecidas da CIA, a agência de informação norte-americana, entre as ridículas e as tenebrosas, há uma que se destaca, pelo facto inusitado de a arma usada ter sido a música, mais concretamente o jazz. Trata-se de um programa criado em mil novecentos e sessenta e oito, depois do falhanço da Baía dos Porcos e da operação Northwoods. Esta última parece mais uma absurda teoria da conspiração do que um projecto factual: foi recusada por John F. Kennedy e tinha por objectivo organizar e levar a cabo, dentro das fronteiras americanas, diversos actos terroristas, entre sequestros, atentados bombistas, sabotagens, etc., atribuindo as culpas a Cuba e justificando assim uma possível invasão do país caribenho; estes documentos foram tornados públicos em mil novecentos e noventa e sete. A par disto, já no final dos anos sessenta, a CIA criou o programa Jazz Ambassadors, com o qual se prertendia, através da música, melhorar a percepção internacional dos Estados Unidos da América, à época especialmente negativa. Em plena Guerra Fria, organizaram-se diversos concertos do outro lado da Cortina de Ferro, com vários elementos do jazz, incluindo Satchmo (Louis Armstrong), Benny Goodman, Dizzy Gillespie e Duke Ellington, entre outros. Os músicos negros eram os eleitos para mostrar ao mundo que, afinal, os Americanos não eram racistas. Genuinamente, acreditavam poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, ao evangelizarem uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.

 

Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da Humanidade: pretender conquistar o mundo através da música, em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase. E não tem sequer de ser música de qualidade para o conseguir. Uma pintura de Van Gogh não nos põe a dançar, mas uma canção, por pior que seja, é bem capaz de o fazer. O programa americano pode ter falhado - o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num  baile em vez da explosão  de uma bomba de hidrogénio. "

 

INÍCIO DO NOVO LIVRO DE AFONSO CRUZ  «NEM TODAS AS BALEIAS VOAM» EDIÇÃO COMPANHIA DAS LETRAS PORTUGAL, NOVEMBRO DE 2016

 

 

 

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publicado às 18:12


#1746 - Prémio da União Europeia de Literatura 2012

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.12

 

Afonso Cruz está entre os doze escritores vencedores do Prémio da União Europeia de Literatura 2012 com o seu livro "A Boneca de Kokoschka" (Quetzal). O prémio, no valor de 5 mil euros, permite que os vencedores tenham prioridade de acesso a um programa da União Europeia, para que o seu livro seja traduzido em várias línguas.

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publicado às 18:43


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