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4R-Quarta República

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.12.08

Frase do ano

 

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"

As desigualdades sociais têm vindo a diminuir desde 2005

".

 

A afirmação é do nosso Primeiro-Ministro...

 

... que deve ter estudos muito profundos para fundamentar esta afirmação!

 

Confesso que esta tirada de Sócrates teve piada...

 

... de muito mau gosto.

 

Cidadãos desesperados

 

Eu não percebo nada de economia nem sei como é que se gerem expectativas, que é uma forma mais elaborada de dizer que é preciso suscitar e manter a confiança das pessoas na actividade económica.
Mas o que sei, como cidadão que procura gerir os seus haveres com alguma sensatez, é que não se percebe mesmo nada dos sinais que recebemos.
Tudo isto começou com uma bolha lá longe, qualquer coisa que tinha que ver com o imobiliário na América, a valorização sucessiva das casinhas a permitir créditos cada vez maiores, até que um belo dia alguém gritou o rei vai nu, isto é tudo inventado, e pronto, o desmoronar com estrondo que se seguiu.
Em simultâneo, o preço do petróleo chegou a picos históricos em poucos meses, e o preço dos bens alimentares deu o alarme logo atribuído à escassez dos produtos, seja por causa das energias limpas, seja lá pelo que fosse.
Diziam os entendidos que era o fim da era da energia barata e dos alimentos ao preço da chuva. Frio, fome e escuridão, ao menos na próxima década, era mais que certo.
Passou-se então para a crise financeira, os bancos vendiam ou compravam valores que não valiam nada, de ficção em ficção passou-se de milhões de lucros e de exemplos de sucesso a bolsas vazias e a gestores perseguidos.
Depois seguiu-se o terramoto que ainda abana violentamente todo o sistema bancário, não havia crédito, não por falta de dinheiro mas por falta de quem o quisesse emprestar por não se saber se quem pedia tinha ou não condições para pagar.
Grande balbúrdia, cenários de catástrofe, a América a nacionalizar, a Europa a socorrer, de casos especiais passou-se a quase todos, já ninguém se lembra que o petróleo afinal está a preços históricos mas na linha de baixo, e que afinal há excesso de produção de matérias primas, que coisa estranha, o trigo e o milho a crescerem assim de um dia para o outro e ninguém sabia.
O que vale é que todos se mobilizaram para acorrer à desgraça. O pobre cidadão já habituou o ouvido ao anúncio de números astronómicos que nem consegue bem contabilizar na escala conhecida, milhares de milhões são biliões? Centenas de milhões soam mais ou menos que mil milhões? E as linhas de crédito são dinheiro ou só promessas?
Os governos lançam das alturas rios de dinheiro a ferver, como defensores de castelos a combater os invasores, mas de onde vem tanto dinheiro, para onde se escoa que não se sente?, os bancos não descolam do seu mutismo, as empresas agradecem todos os dias na televisão os apoios fantásticos que as irão sustentar em pé, mas tudo isso alterna com outros números astronómicos, milhares e milhares de despedimentos, centenas de empresas a fechar, milhões de desempregados no mundo, só na América, talvez na Europa, enfim a globalização também juntou os números, é impossível fixar a que zona se referem tantos euros a rodar e tantos pobres a crescer.
Então e o pobre cidadão?, aquele de quem esperam que vá ao banco pedir emprestado, que compra ou venda a sua casinha, que crie compromissos, enfim, que se mova, caramba, senão isto para!
Esse pobre cidadão ouve falar um dia em menos crescimento, no outro em estagnação, logo a seguir em recessão e a última novidade é a deflação, tudo acompanhado de todas as trombetas da desgraça.
E, o que é pior, tudo desmente o que foi garantido, jurado juradinho bem na véspera, quando estoiraram os foguetes das soluções concertadas, das políticas comuns, das decisões históricas que iam salvar o mundo do dia do Juízo Final.
Os juros que eram tão meticulosa e cientificamente calculados agora parecem um cão louco a morder a própria cauda. E estão tão baixos que nem vale a pena por o dinheiro no banco, não rende nada. Mas também não se pode comprar nada, porque os preços vão descer. Nem se pode consumir, porque o futuro é incerto, o melhor é mudar de hábitos, a começar já este Natal, não compre, não olhe, compre, leve, é barato, não preciso, ajude o comércio, dê aos pobres, poupe, gaste, aplique, desconfie, contrate, despeça, arrisque, prudência…
O que eu não percebo é que expectativa é que afinal querem gerir.
 
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publicado às 13:22


4R-Quarta República

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.10.08

Notícias com tradução simultânea

 

Nunca fui grande consumidora de televisão mas gostava de ver os programas informativos e os debates, confiando que seria uma maneira relativamente fácil de conhecer os factos e de ouvir pessoas especializadas em cada área a trocar ideias sobre os mesmos, habilitando-me a formar a minha própria leitura dos factos.
Mas esses formatos cedo se transformaram numa espécie de programas de entretenimento, em que o prazer de dissecar notícias, perorar sobre elas e tergiversar sobre as suas implicações se tornou numa espécie de desporto. Abre-se a televisão para ver as notícias e o que é que se vê? Jornalistas a lerem notícias e logo a seguir opiniões, análises, comentários de…outros jornalistas! O que parece é que os factos que apresentam são só meros pretextos para explodirem na sua apreciação, para se sentarem sucessivamente na cadeira de entrevistador ou de entrevistado, tudo num círculo quase fechado, com a cumplicidade do tratamento por tu, que cria a maior das confusões e que impede que se distinga com clareza quem deve informar e quem deve esclarecer as dúvidas que a informação suscita. Que torna praticamente impossível destrinçar o que são factos e o que são leituras derivadas.
Não quero com isto dizer que não possa haver pessoas que, além de jornalistas, têm também capacidade para analisar e comentar certos temas específicos, mas nesse caso é nessa qualidade que devem intervir, e não na de jornalista. A questão é que a credibilidade e a competência estão hoje completamente confundidas com o número de vezes que se aparece no ecrán ou aos microfones, ou seja, parte-se do princípio de que uma cara bem conhecida da televisão capta tantas ou mais audiências atentas e crédulas como qualquer guru especializado na matéria. E que é mais eficaz apresentá-lo como jornalista do que como economista, ou jurista, que porventura também seja.
Na rádio é mais ou menos o mesmo, sintoniza-se um posto e lá estão as tertúlias entre jornalistas, seja o tema questões internacionais, económicas, judiciais, desportivas, sociais, relatórios mundiais, guerra ou paz. Ou então chama-se um nome sonante para falar sobre a matéria e a seguir o que ele disse é logo desfeito, ampliado ou retalhado, já se isolou o que interessa e se omitiu o que não convém ou não se entendeu, tudo de repente, num frenesim ouve-comenta-conclui, uma verdadeira trituradora que muitas vezes deixa irreconhecíveis as notícias e as declarações que lhes serviram de pretexto.
Está instalado um exercício de “tradução simultânea” que não deixa espaço para que o espectador forme a sua própria ideia ou tenha sequer a ousadia de vir a arriscar uma opinião, porque quando chega ao fim do espaço “informativo” já nem se lembra o que esteve na origem de tantas apreciações, intenções, cálculos, receios e vaticínios. Os jornalistas apropriaram-se do espaço de comunicação e a notícia já não é o que aconteceu mas o que se pensa que devia ter acontecido. As notícias são apenas um ingrediente do produto que é servido pronto a ser consumido.
 
Texto escrito pela Suzana Toscano no blog 4R-Quarta República

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publicado às 18:44


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por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.08

Éramos felizes e não sabíamos

 

De repente o mundo mergulhou numa absoluta incerteza. As ameaças que antes nos atormentavam parecem agora meros episódios de rotina perante a enormidade da confusão que se instalou e, antes de se instalar o pânico, ainda estamos perante o estupor da perplexidade, como se um dique considerado absolutamente firme e inexpugnável tivesse subitamente começado a desabar por todos os lados, como se a sua estrutura de aço estivesse afinal corroída, assente numa matéria viscosa que escapa por entre os dedos que lhe querem restituir a firmeza perdida.

À medida a que assistimos a mais e mais notícias sobre o que nos pode acontecer, apercebemo-nos, com igual estupefacção, de como afinal éramos felizes. Ao que agora nos dizem, vivemos até agora tempos de prosperidade em que dispúnhamos da matérias primas baratas, de petróleo ao preço da chuva, de liquidez financeira, de acesso fácil ao crédito, de casas ao alcance de (quase) todos, de automóveis em permanente renovação, de viagens ao virar da esquina, enfim, podíamos confiar no futuro que só nos desafiava a ter mais e mais. A banca era o exemplo do sucesso das reestruturações, as políticas de recursos humanos eliminavam os menos produtivos em cada momento, quase não havia oportunidade para falhar, tudo girava perto da eficácia absoluta. A tecnologia garantia transparência, rapidez, informação a tudo e a todos.

As crises do passado que ainda era há uns meses, afinal eram só uma questão de velocidade, a maior ou menos capacidade de andar mais depressa, de progredir ainda mais, de ter o que ainda não tínhamos.

Ao que hoje sabemos, vivíamos tempos gloriosos de prosperidade e não nos deixaram descansar nisso, o mundo viveu numa velocidade vertiginosa e parece que se despistou.
Aturdidos pelo impulso da ganância e pelo deslumbramento do progresso meteórico e da riqueza fácil, nem reparámos no muito que já possuíamos.

Se recuperarmos os jornais da última década, a palavra crise repete-se a todo o tempo, as ameaças do terrorismo, da pirataria informática, do desemprego, da competitividade impiedosa, eram sistemáticas, não havia quase espaço para a esperança e para a confiança no futuro. De repente, sentimo-nos a perder tudo o que nem sequer chegámos a valorizar, o mundo avançou e a sua alma ficou para trás.
Éramos felizes e não sabíamos.

posted by Suzana Toscano

 

Post retirado do blog 4R-Quarta República

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publicado às 16:32


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