Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#1632 - À memória de António Nobre e de Cesário Verde

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.02.12

 

À MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE E DE CESÁRIO VERDE

 

Eu comi uma inglesa.

Foi em Sintra. Era feriado.

Com esparregado e essa tinta

mint-sauce. Em português,

molho de hortelã-pimenta

com vinagre. Uma beleza!

Alguma batata frita.

Mas eu quis fetos arbóreos,

musgo das fontes, avenca

e pétalas de camélia,

branca-rósea,

para enfeitar a travessa

e trincar, de quando em quando,

uma pétala na fímbria

das orelhas da inglesa,

dizendo: «O tempo está

tão lindo! Não achas, Daisy?»

 

«I like Shelley« - dizia ela,

cheirando a colégio d'Oxford.

                       «Swift Summer into the Autumn flowed...

 

tem tradição. Vem dde Chaucer.»

 

«Eu também gosto» - eu disse,

paraninfo de Euricides -

«porém prefiro John Keats.

I stood tip-toe

Upon a little hill

tem mais naturalidade.

É como se estivesse aqui.

Quanto ao Byron, tu bem sabes

como ele soube viver Sintra:

A glorious Eden inhabited

by savage Lusitanians.

À sova não me refiro.

Tudo isso é história antiga».

«It's true! É verdade!»

(disseste-o, desmemoriada,

mas reticente...

e dobraste-me a parada)

«Mas não esqueça o que ele sofreu

quando dizer lhe vieram:

Shelley morreu.

- Atravessou o Helesponto

a nado!...

I weep for Adonais...»

 

 

«Não, não é.» - contestei eu.

«Isso é do Shelley, dedicado

a Keats.

I weep for Adonais

because he is dead.

 

Eu choro Adonais

porque morreu.

 

Não está mal... a tradução,

mas tem razão!

Eu sou português e não

falo com a boca cheia.

Esta mania lusíada

de cuspir no chão é feia.

Nós não vivemos na selva.»

 

E ela, tola-lograda:

- «Dont be silly. Há o fado!

I like fado. Não gostas!

Tu tens a melena cheia

de brilhantina. You look

almost like a fadista!»

 

Passei  a mão pela testa

e desgrenhei a madeixa,

dizendo: - «Queres morangos,

figos, amoras ou beijos?...»

 

................................................

 

«Obrigado, obrigado, Daisy.

Não sei se estás a troçar

ou a brincar...

pulling my leg para ti.

Mas, enfim, vamos passear

até ali.»

 

(No fundo, o que eu desejava

era mordê-la na boca,

meter-lhe a mão entre os seios,

voar a cavalo nela.)

 

Foi uma tarde acabada

na relva, sob pinheiros,

chamaecyparis, ulmeiros,

sequóias, abetos, faias

e a cor azul das hortênsias.

 

Foi sobre a relva orvalhada

pelo frescor de um riacho,

quando o sol obliquava

e em volta era tudo selva,

que eu comi uma pantera

escura, feroz, inglesa,

com o cheiro de violetas

debaixo do meu nariz.

 

(Fulva, para quem quiser

modas pré-rafaelitas,

a pantera! Tanto faz!

Ou morena. Convenção

como convém a uma inglesa

convencional, de ocasião.)

 

E quando nos despedimos

- era noite, havia estrelas -

disseste com essa fleuma

que tão mal me fica a mim:

- «I'll see you latter. Do come.

Vem amanhã tomar chá.

Eu gostar muito de ti.»

 

Loira, era loira a inglesa

que eu comi...

Verde, devia dizer.

Branca-rósea, uma camélia,

que eu comi, ou que colhi.

Já nem sei...

A savage Lusitanian,

dei-lhe só o que ela quis.

Ou queria...

Com peitinhos de perdiz

e alguma poesia:

 

The air was cooling

And so very still.

 

Poema de Ruy Cinatti (1915-1986) Memória Descritiva, 1971

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:39


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas