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Por outras palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.10.08
 
 
De repente, a vida
 

De repente, a vida


Preparava-me para, como todos os dias, chafurdar nas notícias dos jornais [o trabalho que dá mantermo-nos próximos da realidade tentando não nos afundarmos nela, passando por ela como aquela actriz de "rostinho estreito, friorento" de Cesário atravessando "covas, entulhos, lamaçais, depressa,/ com seus pezinhos rápidos, de cabra"!], preparava-me eu, dizia, para fazer pela vida quando dei com a morte, ou a sua sombra, num poema de Szymborska.

"Parece que nada mudou, /e no entanto mudou./ Que nada se mexeu,/ mas tudo mudou de lugar (…) /Ouvem-se passos nas escadas,/ mas não são 'esses'". E tudo, jornais, notícias, e aquilo que, à falta de melhor, chamamos vida, perdeu sentido. Talvez a vida seja outra coisa, menos barulhenta e mais solitária, mais fria, mais transparente, mais vasta. "Morrer não é coisa que se faça a um gato" nem a ninguém; "que pode fazer um gato/ num apartamento vazio?". Quando, amanhã, a realidade, ou lá o que é, voltar (porque, como os mortos, a realidade volta sempre), também eu irei ter com ela "com patas ofendidas", e sem alegria nem queixas. Pelo menos ao princípio.

 

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publicado às 17:06


Por outras palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.10.08

 

Fila à porta do Paraíso
 

Fila à porta do Paraíso

Em 1936, logo após a rebelião de Franco, a Igreja Católica espanhola correu a abençoar as matanças de republicanos: "Não há forma de pacificação senão a das armas; é preciso extirpar a podridão da legislação laica" (cardeal Goma y Toma, primaz de Espanha); "não há perdão para os destruidores de igrejas (…), que a sua semente seja esmagada" (arcebispo de Burgos); "benditos sejam os canhões se deles florescer o Evangelho" (Diaz Gomara, bispo de Cartagena).

Agora, que os canhões emudeceram e os bandos fascistas recolheram a penates, a hierarquia católica usa armas de beatificação maciça contra a "podridão da legislação laica" que tenta identificar milhares de vítimas do franquismo atiradas para valas comuns e dar-lhes sepultura condigna. No ano passado foram 498 novos "beatos", este ano 800 e estão na calha mais 2000. Todos "assassinados [pelos republicanos, entenda-se, pois os "curas rojos" e os católicos assassinados por Franco, durante e depois da Guerra Civil, não têm direito aos altares] pelo ódio à Fé". Ordeiramente, Franco, Mola, Sanjurjo e Queipo de Lhano esperam na fila pela sua vez.

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publicado às 12:21


Por outras palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.10.08

Três anos depois
 

Três anos depois

O título da notícia da Globo provocou um abalo sísmico (por pouco escrevia cívico) nas minhas convicções sobre Portugal: "MP vai investigar nepotismo na Câmara e no Executivo".

Havia um "F" a seguir a MP (Ministério Público), mas, com o alvoroço, nem me apercebi. Tinha na cabeça a contratação por Rui Rio, a 3 790 euros por mês mais IVA, da irmã do seu vice-presidente para um cargo para o qual não tem qualificações específicas, e as de filhos e sobrinhos para tudo o que é gabinete ministerial, e deixei-me levar pelo entusiasmo.

Afinal a Câmara era o Senado brasileiro, e o Executivo o de Lula. Naquela singularíssima Câmara, os "funcionários contratados (…) terão de assinar um termo de compromisso declarando não serem parentes de senadores ou servidores que ocupem cargo de chefia" e 86 parentes deste e daquele, contratados para isto e para aquilo, foram demitidos. Por cá, noutra Câmara, a do Porto, não só o Executivo contrata parentes a peso de ouro como a oposição, apesar de considerar isso imoral e ilegal, se limita a fazer um "julgamento político" e só três anos depois anuncia a "sentença".

 

Crónica publicada no "JN"

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publicado às 16:53


Por outras palavras de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.10.08
Fome e fartura

 

FOME E FARTURA


Portugal está em risco de ser ultrapassado pela Ucrânia no ranking da UEFA mas, ao menos, continuamos no topo, logo abaixo do México e da Turquia, do ranking dos países com maiores desigualdades sociais. Segundo a OCDE, se houve em Portugal uma melhoria da distribuição de rendimentos entre os anos 70 e 80 (o período "gonçalvista", origem, como se sabe, de todos os nossos males), a partir daí, durante 30 anos de governos de partidos com "socialista" e "social" no nome, nunca mais pararam de crescer as desigualdades, com os ricos sempre mais ricos e os pobres sempre mais pobres.

Hoje até famílias das classes médias pedem, em número cada vez maior, ajuda ao Banco Alimentar contra a Fome. Mas nem tudo são más notícias: se os portugueses (os que têm trabalho) ganham pouco mais de metade (55%) do que se ganha na zona euro, os nossos gestores recebem, em média, mais 32,1% que os americanos, mais 22,5% que os franceses, mais 53,5% que os finlandeses e mais 56,5% que os suecos. Portanto, como Cesariny diria (cito de cor), "se há gente com fome,/ assim como assim ainda há muita gente que come".

 

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publicado às 00:06


Por outras palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.10.08
Levante-se o réu
 

Levante-se o réu

Conta a BBC que o senador Ernie Chambers, do Nebraska (um dos estados do "corredor dos tornados", que vai do Norte do Texas ao Iowa), decepcionado com Deus, lhe pôs um processo-crime, acusando-o de provocar "morte, destruição e terror em larga escala sobre milhões e milhões de habitantes da Terra". Outros crentes deveriam, olhando o que se passa no mundo, fazer o mesmo, se não por terrorismo por denegação de justiça. Eu não sou crente, embora quando observo um gato a lavar-se ao sol, ouço Pollini tocando o 2º andamento do Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Brahms ou vejo Messi correr com a bola em direcção à baliza pelo meio de quatro ou cinco adversários, seja tentado a acreditar num Deus qualquer, só não sei qual.

Gente como eu responsabiliza os homens pelos efeitos das catástrofes naturais. No caso da recente tromba de água em Lisboa, não só o desleixo camarário mas também a especulação imobiliária que constrói em leitos de cheia e impermeabiliza solos. Como o devoto senador do Nebraska, o CDS, partido crente, deveria, não, como fez, exigir responsabilidades à Câmara, mas a Deus.

 

Crónica de Manuel António Pina publicada no JN

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publicado às 23:08


Por outras palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.10.08

 

 
 
O lugardo morto
 

O lugar do morto

Os Estados Unidos tornaram a matar o n.º 2 da al-Qaeda no Iraque. É a sétima ou oitava vez que o matam. Não sei quantas vidas terá o homem, mas, por este andar, já não lhe hão-de restar muitas (mas só Aquele Que Não Morre o sabe), sendo difícil julgar o que é mais admirável, se o seu apego às inúmeras vidas com que o Poderoso o favoreceu para o servir se a persistência americana em dar cabo delas uma a uma.

 

De qualquer modo, suscita perplexidade e escândalo tanto encarniçamento contra o desgraçado n.º 2. Deixando de parte o n.º 1 (que Alá o tenha bem guardado), o Exército norte-americano manifesta um desinteresse que roça a maravilha pelo n.º 3 e números seguintes.

 

Pode acontecer que os americanos designem de "n.º 2" qualquer morto de túnica e turbante, o que explicaria que ele ora se chame Ayman al Zawahiri, ora Hamad Jama al-Saedi, ora Abu Ayyub al-Masri, ora Abu Azzam, ora Abu Qaswarah. Há também a hipótese de, morto o n.º 2, o n.º 3 passar a n.º 2, o n.º 4 a n.º 3 e por aí fora. Neste caso, até acabarem com a al-Qaeda, os americanos ainda hão-de anunciar a morte do n.º 2 aí umas 50 mil vezes.

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publicado às 12:52


Por outras palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.08
A grande evasão
 

A grande evasão

Se não ficasse na história da educação em Portugal como autora do lamentável "pastiche" de Woody Allen "Para acabar de vez com o ensino", a actual ministra teria lugar garantido aí e no Guinness por ter causado a maior debandada de que há memória de professores das escolas portuguesas. Segundo o JN de ontem, centenas de professores estão a pedir todos os meses a passagem à reforma, mesmo com enormes penalizações salariais, e esse número tem vindo a mais que duplicar de ano para ano.

Os professores falam de "desmotivação", de "frustração", de "saturação", de "desconsideração cada vez maior relativamente à profissão", de "se sentirem a mais" em escolas de cujo léxico desapareceram, como do próprio Estatuto da Carreira Docente, palavras como ensinar e aprender. Algo, convenhamos, um pouco diferente da "escola de sucesso", do "passa agora de ano e paga depois", dos milagres estatísticos e dos passarinhos a chilrear sobre que discorrem a ministra e os secretários de Estado sr. Feliz e sr. Contente. Que futuro é possível esperar de uma escola (e de um país) onde os professores se sentem a mais?

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publicado às 00:43


Por outras palavras - Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.08
 
 
"Inteiramente português"
 

"INTEIRAMENTE PORTUGUÊS"

O tempo (e não foi preciso muito) acabou por fazer justiça à proclamação do Governo, repetida por jornais e TV, de que o "Magalhães" é "inteiramente português". Que não, gritou-se por aí (especialmente na blogosfera, esse submundo, como diz António Costa, presidente, pelo que tem vindo a saber-se, de uma câmara do outro mundo), que, de português, a jóia da família do Plano Tecnológico só tinha a embalagem e algum software. Notícias de ontem dão finalmente sentido à expressão "inteiramente português".

Parece que a empresa que o produz vai ser julgada por ser uma das artistas de um número de circo fiscal internacional designado "carrossel do IVA", onde teria o papel de destinatário final de um animado circuito de vendas fictícias de material informático. Portanto, uma empresa portuguesa com certeza, e um computador "inteiramente português" por genéticas e inteiríssimas razões. Isto acrescendo ao facto, não menos português, de a ideia do Classmate/"Magalhães" ter sido posta pela Intel no ninho do XO de Negroponte. O nome "Magalhães" é que foi mal escolhido. Devia ser "Fernão Mendes Minto".

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E o "Diário de Notícias" noticia que:

JP Sá Couto não informou Governo
Processo. Presidente da empresa fabricante do 'Magalhães', arguida num processo de fraude fiscal, (…)

 

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publicado às 12:13


Por Outras Palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.09.08

'Auto-regulação', dizem eles
 

'Auto-regulação', dizem eles

Os fiéis do Deus-mercado parecem ter descoberto de repente as virtudes do Estado Social, devidamente adaptado aos valores da religião do lucro a qualquer preço, e que, em vez de apoiar os pobres, subsidia os ricos. Já tem um Papa. Chama-se Henry Paulson e cabe-lhe a duvidosa glória de ser um dos inventores do capitalismo de casino que agora bateu no fundo provocando a crise financeira que abala a Terra Prometida e arredores.

Depois de 30 anos de especulador na Wall Street, Paulson chegou a secretário do Tesouro e é dele a feliz ideia de pagar com 700 mil milhões dos contribuintes as dívidas e "activos tóxicos" acumulados por empresas falidas, acrescidos de "compensações" milionárias aos gestores que as levaram à falência, assim salvando fortunas como a sua, calculada em 500 milhões de dólares, a maior parte em acções da também falida Goldman Sachs. No Estado Providência neoliberal, quem paga quer as crises quer as soluções das crises do mercado são sempre os contribuintes. Lá como cá, chamam eles a isso (meter os lucros ao bolso e cobrar ao Estado as perdas) "auto-regulação" do mercado. 

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publicado às 17:17


Por Outras Palavras de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.09.08
 
 
A realidade, sempre ela
 

A realidade, sempre ela

Milhares de militantes socialistas romperam em aplausos quando, no sábado, em Guimarães, Sócrates garantiu que não "permitirá que o valor das pensões dos portugueses seja jogado na bolsa e entregue aos caprichos dos mercados financeiros, como quer o PSD".

Até eu, que não sou militante socialista, aplaudi. Mas, porque sou um tipo céptico, lembrei-me de ir verificar onde é que, afinal, o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) aplica o dinheiro da minha reforma.

E o que descobri no sítio da Segurança Social (http://www1. seg-social.pt/inst.asp? 05.11.05) assustou-me. Saberá Sócrates que 20,67% das reservas do FEFSS (mais de 1 562 milhões de euros) se encontram aplicados em acções e "entregues aos caprichos dos mercados financeiros" e ao "jogo da bolsa"? E lembrar-se-á que o seu secretário de Estado da Segurança Social anunciou no ano passado que iria confiar outros 600 milhões à "gestão privada"?

Só espero que os não tenha confiado ao BCP e ao seu prudentíssimo fundo "Millennium Prudente", porque, se assim foi, parte deles acabou prudentemente na Lehman Brothers e já era…

 

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publicado às 23:02


Bem-vindos à Idade Média (Manuel António Pina)

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.08

Na Itália, a comediante Sabina Guzzanti arrisca-se a apanhar 5 anos de cadeia por ter dito uma piada sobre o Papa que, nos termos do Tratado de Latrão (assinado por Mussolini e Pio XI em 1929), é uma "pessoa sagrada e inviolável". Por sua vez, na Alemanha, o pastor protestante Clemens Bittlinlger foi posto sob protecção policial em virtude das ameaças de morte que tem recebido de católicos por ter escrito uma canção com perguntas ao Papa sobre a proibição do uso do preservativo.

Apesar de tudo, a comediante e o pastor têm mais sorte do que o Rato Mickey, que foi, no mês passado, condenado à morte pelo clérigo islâmico Muhammad Al-Munajid em directo na TV Al-Majd da Arábia Saudita e não terá direito a julgamento nem a protecção policial. O Tratado de Latrão é omisso quanto a ratos, mas parece que, de acordo com a"Sharia", Mickey é um "soldado de Satã, guiado por ele" e, sendo "impuro", "deve ser morto em qualquer circunstância". Como disse recentemente o Papa em França, as religiões são a "garantia da liberdade" e "da autonomia das coisas terrenas". Além de que criam "consensos éticos".

 

Crónica de Manuel António Pina - Por Outras Palavras - publicada no "JN"

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publicado às 13:01


Tribunal põe, GNR dispõe

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.09.08

A crónica de Manuel António Pina POR OUTRAS PALVRAS publicada no JN de hoje

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publicado às 16:04


Por outras palavras, de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.08.08

O mundo real estraga tudo

A  notícia veio em vários jornais de Los Angeles e foi reproduzida, com fotos, nos espanhóis "El país" e "El mundo" (não sei se terá saído em algum jornal português; pelo menos não a encontrei nas edições "online" que frequento): o Rato Mickey, o Pato Donald, a Branca de Neve, a Gata Borralheira, a Fada Sininho, Peter Pan e outros dos meus melancólicos heróis infantis foram detidos pela Polícia à porta da Disneylândia, em Anheim, e metidos na cadeia como se fossem (eles, os bons) irmãos Metralha.

Parece que se manifestavam exigindo melhores condições de trabalho e terão desobedecido às ordens do Coronel Cintra (ou, visto que a coisa se passou na Califórnia, do Chief O'Hara) para destroçarem. Pelos vistos, as coisas correm mal até no reino da fantasia. Os sindicatos acusam a Disneylândia de querer impor salários que impedirão a maior parte dos seus 21 mil trabalhadores de pagar os seguros de saúde. Procurei o Pateta entre os manifestantes e não dei com ele. Aposto que não está sindicalizado; ou então que foi na habitual conversa do Tio Patinhas de que "não pode pagar mais" e furou a greve.

 

Crónica de Manuel António Pina publicada no  Jornal "JN"

 

 

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publicado às 23:17


Por outras palavras - Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.07.08

Boas notícias

Os últimos dias foram férteis em boas notícias. Enquanto Sócrates prometia uma redução de 30% num imposto que não existe (o IA sobre automóveis eléctricos), a ministra da Educação anunciava que os alunos portugueses se tornaram, de um ano para o outro, génios matemáticos graças ao ovo de Colombo saído da mente imaginosa do seu Ministério: só lhes perguntar o que sabem, ou ainda menos, assegurando-lhes assim, mesmo aos mais ignorantes, aquilo que a directora de Educação do Norte classifica como o seu "direito ao sucesso".

Por sua vez, Vieira da Silva louvava no fim-de-semana efusivamente no "Expresso" as esquisitas virtudes do "seu" Código do Trabalho. Parece que o BE vai fazer suas, na AR, as propostas de alteração que o mesmo Vieira da Silva em tempos fez ao Código Bagão Félix.

O país está suspenso do modo como votará o PS as medidas que preconizava quando era Oposição, e que voltará a preconizar quando for Oposição outra vez, assim como a ministra da Educação passará então a ser a mais acrisolada crítica do facilitismo. Pensando bem, deveria ser sempre a Oposição a formar Governo.

 

Crónica de Manuel António Pina no "JN"

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publicado às 17:01


O fiasco das câmaras de vigilância em Inglaterra

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.05.08

"Sorria, está a ser filmado"


Por outras palavras, de  Manuel, António, Pina

Por feliz ou infeliz coincidência, justamente quando a Associação de Bares da Zona Histórica do Porto (às vezes referida na imprensa pelo colorido "petit nom" de ABZHP) anuncia para o início do próximo mês a instalação de 14 câmaras de vigilância na Ribeira ("só falta a ligação do ramal ao local onde está instalado o sistema, na Câmara do Porto"), o inspector-chefe da unidade responsável pelas câmaras de vigilância (CCTV) na Polícia Metropolitana de Londres, Mick Neville, afirma ao "Guardian" que o resultado da videovigilância no Reino Unido - onde foram investidos muitos milhões de libras no sistema e onde existem hoje, não 14, mas milhares de câmaras por todo o lado, até em mini-helicópeteros telecomandados - "é um completo fiasco". Não só, revela o mesmo responsável, apenas 3% de crimes foram resolvidos com ajuda do sistema como "ninguém tem medo das câmaras". Ou seja, afinal o "big brother" electrónico, se é um assinalável sucesso ("sorria, está a ser filmado") no que toca a bisbilhotar a vida privada do cidadão comum, falha redondamente tanto no que respeita à repressão como à prevenção da criminalidade. Conhecida, no entanto, a vocação da Câmara do Porto para filmar cidadãos e denunciar no seu "site" o que fazem nas horas vagas, as câmaras da Ribeira, como as também já anunciadas para a Baixa, se não servirem para apanhar criminosos, não serão totalmente inúteis.

 

Crónica de Manuel António Pina publicada no "JN" de hoje

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publicado às 15:57


Esquecer é possível? - Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.05.08

POR OUTRAS PALAVRAS, DE MANUEL ANTÓNIO PINA

Noticia o EcoDiário que o Ministério do Fomento espanhol vai mudar o nome da ponte José León de Carranza, em Cádis, por ela evocar o nome de um presidente da Câmara franquista que esteve à frente da autarquia entre 1948 e 1969. Igualmente o Estádio Ramon Carranza terá que mudar de nome, pois Ramon Carranza, pai de José León, exerceu o mesmo cargo durante a ditadura de Primo de Rivera e, depois, na sequência da rebelião de Franco. A imposição resulta da Lei da Memória Histórica, que visa erradicar de ruas e monumentos espanhóis todos os símbolos do franquismo. Apagar o passado e a História (vem imediatamente à memória, por se ter tornado também um símbolo, Trotsky apagado da fotografia por Estaline) é uma arte antiga e perigosa. O problema é se o passado, o dos povos como o dos indivíduos, pode apagar-se, se é possível esquecer, recomeçar esquizofrenicamente de novo como se atrás fosse o vazio. Porque, reprimido, o passado torna-se às vezes um animal acossado. No curso de uma revolução, arrancar uma placa toponímica, destruir um monumento, podem ser actos simbólicos. Mas uma democracia forte e saudável não deve temer enfrentar os fantasmas inscritos no corpo colectivo. E recordar é decerto, como ensina a vulgata freudiana, a melhor forma de o fazer.

 

Crónica de Manuel António Pina no "JN" de hoje

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publicado às 18:43


Um partido com duas caras

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.05.08

Por outras palavras,  de Manuel António Pina

Termina hoje a visita de uma delegação do PCP, chefiada por Albano Nunes, membro da Comissão Política, à China. E são chocantes os elogios dos comunistas portugueses aos "êxitos chineses na construção socialista", obtidos, como o PCP não ignora, à custa do mais selvagem capitalismo ultraliberal e, levados a níveis extremos, de todos os pecados que o PCP aponta em Portugal às políticas económicas do Governo fome, desemprego, precariedade, salários (de miséria) em atraso, segurança social inexistente, fosso abissal entre ricos e pobres, gritantes e escandalosas injustiças sociais. E que dizer do apoio do PCP à repressão no Tibete e às políticas chinesas de direitos humanos, apoio que o secretário do Comité Central do PC Chinês, Liu Yunshan, já enalteceu e agradeceu? Arauto das "amplas liberdades" e denunciante de qualquer pontual deriva autoritária em Portugal, o PCP aceita com normalidade as prisões arbitrárias, a tortura, a ausência de liberdade de expressão ou de liberdade de associação política na China (como as aceitara antes na URSS). Talvez, depois de apresentar uma moção de censura ao Governo a pretexto do novo Código do Trabalho, o PCP queira explicar aos portugueses os direitos de que gozam os trabalhadores no paraíso "socialista" chinês.

 

Crónica de Manuel António Pina, publicada no "JN", de hoje

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publicado às 12:42


As perplexidades de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.05.08
As perplexidades de Manuel António Pina... e as minhas;

UNIVERSOS PARALELOS

Oiço na SIC a notícia de que Margarida Vila Nova está grávida e pergunto a mim mesmo "Quem é Margarida Vila Nova?". Depois, aparece no ecrã a capa da revista "Caras" com uma foto de página inteira da tal Margarida e a informação que ela e mais não sei quem pensam casar-se em Setembro e a minha inquietação redobra: nunca vi aquela cabeça naquele ou noutro corpo. Por sua vez, no "Correio da Manhã" leio que Sílvia Rizzo (quem será Sílvia Rizzo?) entrou na Redacção de "uma publicação" acompanhada de Rita Salema (e Rita Salema, quem será?), atirou com o telemóvel a um jornalista e empurrou uma mesa da sala de reuniões por causa de uma notícia qualquer sobre a custódia dos filhos, e começo a suspeitar que não tenho andado por aqui e que existe algures, no meu tempo e no meu espaço, um universo paralelo não comunicante, do tipo dos teorizados por Everett e por DeWitt, que me escapa absolutamente. A hipótese de um mundo ou de um estado quântico alienígena à minha volta, povoado de fantasmas caóticos e de existências em holomovimento, é assustadora. O problema não é esse mundo outro ser ou não real, porque, pelos vistos, é (basta ler alguns jornais e ver televisão), o problema é que pode muito bem acontecer (já admito tudo) que eu é que não seja real.

"Por Outras Palavras", crónica de Manuel António Pina publicada no "JN", de hoje

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publicado às 12:35


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