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Legado Pessoano

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.11.08

Ricardo Marques escreve sobre o legado pessoano na revista STORM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DEAMBULAÇÕES PELO LEGADO PESSOANO, NUM ANO DE COMEMORAÇÕES

“Anglomaniac, myopic, courteous, evasive, dressed darkly, reticent and agreeable, a cosmopolitan who preaches nationalism, “solemn investigator of futile things”, humorist who never smiles but chills our blood, inventor of other poets and destroyer of himself, author of paradoxes as clear as water and, as water, dizzying: “to pretend is to know yourself”, mysterious man who does not cultivate mystery, mysterious as the mid-day moon, taciturn phantom of the portuguese mid-day – who is Pessoa?”
Octavio Paz


Enganemos o leitor, e esquivemo-nos tal como o faria Pessoa, deixando esta longa citação para o fim. A ela voltaremos depois de terminado o arrazoado. Escritas há vinte e cinco anos, as seguintes palavras de Fernando J. B. Martinho parecem proféticas nos dias de hoje:

“Fácil será imaginar que a “vaga pessoana” irá continuar a submergir o “horizonte cultural em Portugal” nos tempos mais próximos, sobretudo se atendermos à circunstância de se avizinharem as datas das comemorações do cinquentenário da sua morte (1985) e do centenário do seu nascimento (1988)”
(Fernando J. B. Martinho, Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa (Do Orpheu a 1960), Lisboa, ICLP, Colecção Biblioteca Breve, vol. 82, 1991 (1983), pp.12-13)

Num ano de comemorações como é este, 120 anos volvidos do seu nascimento tão bem assinalados com a colocação de uma nova escultura do escritor, pelo belga Jean-Michel Folon (1934-2005), mesmo em frente à casa onde nasceu, pensamos ser pertinente “deambular” pelo legado de Pessoa, e pensar se faz sentido ainda pensar em Pessoa neste início de século. A premissa de trabalho que me proponho é falsa, de uma certa falsidade retórica e deveras pessoana, uma vez que desde logo o leitor minimamente informado saberá a resposta. Os exemplos desta herança que a sociedade teima em retomar são tão quotidianos quanto frequentes e não é sequer preciso este ensaio para provar que Pessoa está aqui para durar.
Posto isto, a deambulação que aqui faremos será, se quisermos, uma deambulação textual, no sentido semiótico do termo – veremos três diferentes tipos de texto e de que forma todos eles actualizam a figura, o homem e o mito na nossa cultura de hoje, bem como três momentos cronológicos deste ano, também ele, pessoano.
Em primeiro lugar, um texto escrito, poesia, evocando não Fernando Pessoa per se mas sim Esteves, o homem-personagem do longo e famoso poema de Álvaro de Campos intitulado Tabacaria (1928). Falamos de Esteves!, último livro de poesia, editado entre nós em Fevereiro, do poeta holandês René Huigen (1962-)
É muito interessante verificar esta nova vida que uma personagem tão simbólica como é o “Esteves sem metafísica” ganha neste longo poema narrativo, sobretudo por, na verdade, Esteves ter um papel tão indefinido quanto passivo no texto de Campos. Ao invés disso, Huigen pega em Esteves e dá-lhe um papel preponderante na acção narrada no poema, uma nova vida (literária) que expande a vida literária que ele tem no poema de Campos. Assim, e no que toca à forma de o concretizar, pensamos ser a definição do poeta neerlandês que apresenta este livro, Gerrit Komrij (1944-), a mais sucinta e clara: “ uma demanda, com acentos bíblicos, dantescos e homéricos, arcaica e moderna, sobre o que leva a acção a alguém que se sabe não ser levado a nada”. ( René Huigen, Esteves!, Lisboa, Assírio e Alvim, 2008
Efectivamente, é de uma viagem, de um poema épico que estamos perante, bem à maneira desses três intertextos fundamentais para a cultura ocidental que Komrij sugere e bem – a Bíblia, a Divina Comédia, e a Odisseia. Se quisermos, esta é a “demanda” do “Esteves sem metafísica” à procura da própria metafísica, num percurso que é simultaneamente pessoal e iniciático, e depois uma aventura de escrita poética bem ao gosto dos nossos dias, onde o escritor, o narrador e as personagens invocadas se misturam numa promiscuidade de níveis narrativos. Usando de um estilo torrencial e com laivos surrealistas, há uma constante citação, que se torna muito explicita em certas passagens, desses grandes poemas em prosa supracitados.
Assim, o poema começa por exortar longamente a musa Calíope para que ajude o poeta a falar “de um homem que ficou em casa/ Julgando ser-lhe o mundo um assento/ de onde um herói digno de seus feitos/ não precisava de erguer-se para,/dormindo, ir enfrentá-lo” . E assim se resume o que se passarão nas páginas do livro, todo ele uma metafórica reflexão sobre a metafísica e a vida dentro do livro, a vida das personagens como se fossem reais, e de que Esteves é clara símbolo na obra pessoana.
Na esteira desta ideia, convocaremos a novela de Mário Cláudio, Boa-Noite, Senhor Soares, saída a meio do ano, que vem retratar mais uma vez este aspecto da vida apenas pelo livro, com a nova vida que ganha Bernardo Soares, o semi-heterónimo de Pessoa, e autor da sua “autobiografia possível”, O Livro do Desassossego. Efectivamente, isto torna-se ainda mais credível se virmos que a intenção do autor com a escrita desta história foi “ver o Pessoa através de Bernardo Soares”. Assim, somos transportados para a Lisboa de entre as guerras, numa altura igualmente de afirmação do Estado Novo em Portugal, espelhado nos inúmeros episódios do quotidiano em que o livro se desdobra. Desta forma, mais do que a personagem central que é António, natural do interior profundo e que, como tantos, se desenraizou à força num contexto urbano duro a troca de uma melhor vida, poderíamos dizer que o que ganha mais importância, talvez por se sempre falar nele, mas quase nunca intervir, é “o senhor Soares”. Alvo de reverência por parte deste seu jovem de colega de trabalho, não só por “constar que é poeta”, mas precisamente devido ao seu desapego em relação à vida quotidiana que António não tem outra escolha senão viver, para sobreviver.
Por outro lado, é Lisboa a outra personagem central desta novela. Bernardo Soares, António, e as restantes personagens ( algumas retiradas igualmente d' O Livro do Desassossego, como o Patrão Vasques) são todas engolidas num contexto citadino que é, de um modo geral, muito bem ficcionado e pormenorizado por Mário Cláudio, naquilo que pensamos ser a homenagem a esse outro lado do mito pessoano que é a Lisboa por onde deambulou e sobre a qual amplamente escreveu, e que tantas vezes é indissociável de uma leitura do próprio poeta. Retenhamos esta ideia de “lugar” para o exemplo final deste ensaio.
Falemos de uma exposição, inaugurada na Gulbenkian, denominada - “Weltliteratur - Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o Mundo!”, acontecimento artístico deste final de ano. O pressuposto inicial deste evento foi o de mostrar como era possível expôr museograficamente textos literários, conjugando-os com outro tipo de textos como quadros e esculturas, presentes no museu.
Nos textos de apresentação desta referida exposição, o seu comissário, António M. Feijó, defende que a Literatura é passível de ser mostrada num espaço desses, lembrando claramente a etimologia grega da palavra museu, “o assento das musas”, e da qual a Biblioteca de Alexandria, espaço simultâneo de repositório de obras de artes e fonte de saber livresco, é um claro exemplo. A única limitação que se impõe na escolha de textos foi a de marcar um período e determinar quem e a como expôr, bem como os nexos que depois se estabeleceriam. A escolha, neste ano tão simbólico, foi a de mostrar Pessoa e alguns contemporâneos. Como o próprio diz -

O interesse em usar Pessoa é que, por um lado, em Portugal, há um lugar-comum, corrente em pessoas ligadas à literatura, que afirmam estarem cansadas de Pessoa, fadiga essa que parece, no mínimo, bizarra. (Newsletter da FCG, nº96, Lisboa, Setembro de 2008, pp.17-18)

Por outro lado, e no seguimento daquilo que diz, há a ideia, muito corrente no nosso país, que se está farto de um poeta de que se fala abundantemente, sem na verdade haver um verdadeiro acto de leitura individual e solitário dos seus textos, que esta exposição procura igualmente salvaguardar e promover. Por outro lado, o título da exposição pretende evocar uma dialéctica, sempre constante nas nossas letras, entre “os outros e nós”, o que nós produzimos num determinado lugar e o que os outros fazem, daí a ironia do conceito goethiano de “literatura universal” aqui presente – estamos, no fundo, perante uma geração cosmopolita, encabeçada por Pessoa, mas que extravassa as fronteiras de uma nação. “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!” é verso de Cesário Verde mostrando que só há uma literatura verdadeiramente universal se for, em primeiro lugar, nacional, ecoando depois ligações que podem aproximar escritores e criadores de diversas nações e gerações. Mais uma vez, como o comissário refere a propósito desta exposição - “É a literatura do mundo partindo deste lugar, uma percepção em que a nossa capacidade foi capaz de a colocar no mundo porque ela é eminentemente deste lugar”

Assim, e como prometido, acabamos com a citação de início. Para Octavio Paz (1914-1998), amplo conhecedor de várias tradições poéticas europeias e tradutor de Fernando Pessoa para espanhol, a figura literária que é Fernando Pessoa constituia o mesmo polifacetado enigma que para nós, leitores com quase um século de distância, ainda nos faz escrever, ler e criar.
Agora, mais do que nunca, a pergunta em que urge pensar quando se evoca esta figura, pelos exemplos que deixámos atrás, talvez não seja tanto - “who is Pessoa?” (não há vida que dure tal investigação) mas sim why ou porquê Pessoa. A própria forma de ser Pessoa, como vimos neste citação e como podemos ler na sua produção literária diversa, é ser várias coisas ao mesmo tempo. Na verdade, esta pergunta final de Paz apenas está lá por cuidados retóricos do seu autor, também ele escritor, uma vez que a resposta já é dada pela enumeração que a antecede. Assim, a nossa actualização constante do homem, escritor e mito literário marca-se, em mais um ano em que não o esquecemos, pela não-aproximação a ele – e parece agora ser a época em que viveu, bem como as personagens e personas literárias que criou, o foco crescente de interesse pelos diversos agentes do meio cultural que não se cansam em retomá-lo.

 

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publicado às 14:49



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