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Poema de Itabira

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.10.08

No deserto de Itabira

a sombra de meu pai

tomou-me pela mão

Tanto tempo perdido.

Porém nada dizia.

Não era dia nem noite.

Suspiro?

Vôo de pássaro?

Porém nada dizia.


Longamente caminhamos.

Aqui havia uma casa.

A montanha era maior.

Tantos mortos amontoados,

o tempo roendo od mortos.

E nas casas em ruína,

desprezo frio, umidade.

Porém nada dizia [...]

No deserto de Itabira

as coisas voltam a existir,

irrespiráveis e súbitas.

O mercado de desejos

expõe seus tristes tesouros:

meu anseio de fugir;

mulheres nuas; remoros.

Porém nada dizia [...]

Que cruel, obscuro instinto

movia sua mão pálida

sutilmente nos empurrando

pelo tempo e pelos lugares

defendidos? [...]

A pequena área da vida

me aperta contra seu vulto,

e nesse abraço diáfano

é como se eu me queimasse

todo, de pungente amor.

Só hoje nos conhecemos!

Óculos, memórias, retratos

fluem no rio do sangue [...] Senti que me perdoava

porém nada dizia.

As águas cobrem o bigode,

a família, Itabira, tudo.


Poema de Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética, Dom Quixote, 2001

 

 

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publicado às 21:58


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