Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Leitura de outros blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.08

Éramos felizes e não sabíamos

 

De repente o mundo mergulhou numa absoluta incerteza. As ameaças que antes nos atormentavam parecem agora meros episódios de rotina perante a enormidade da confusão que se instalou e, antes de se instalar o pânico, ainda estamos perante o estupor da perplexidade, como se um dique considerado absolutamente firme e inexpugnável tivesse subitamente começado a desabar por todos os lados, como se a sua estrutura de aço estivesse afinal corroída, assente numa matéria viscosa que escapa por entre os dedos que lhe querem restituir a firmeza perdida.

À medida a que assistimos a mais e mais notícias sobre o que nos pode acontecer, apercebemo-nos, com igual estupefacção, de como afinal éramos felizes. Ao que agora nos dizem, vivemos até agora tempos de prosperidade em que dispúnhamos da matérias primas baratas, de petróleo ao preço da chuva, de liquidez financeira, de acesso fácil ao crédito, de casas ao alcance de (quase) todos, de automóveis em permanente renovação, de viagens ao virar da esquina, enfim, podíamos confiar no futuro que só nos desafiava a ter mais e mais. A banca era o exemplo do sucesso das reestruturações, as políticas de recursos humanos eliminavam os menos produtivos em cada momento, quase não havia oportunidade para falhar, tudo girava perto da eficácia absoluta. A tecnologia garantia transparência, rapidez, informação a tudo e a todos.

As crises do passado que ainda era há uns meses, afinal eram só uma questão de velocidade, a maior ou menos capacidade de andar mais depressa, de progredir ainda mais, de ter o que ainda não tínhamos.

Ao que hoje sabemos, vivíamos tempos gloriosos de prosperidade e não nos deixaram descansar nisso, o mundo viveu numa velocidade vertiginosa e parece que se despistou.
Aturdidos pelo impulso da ganância e pelo deslumbramento do progresso meteórico e da riqueza fácil, nem reparámos no muito que já possuíamos.

Se recuperarmos os jornais da última década, a palavra crise repete-se a todo o tempo, as ameaças do terrorismo, da pirataria informática, do desemprego, da competitividade impiedosa, eram sistemáticas, não havia quase espaço para a esperança e para a confiança no futuro. De repente, sentimo-nos a perder tudo o que nem sequer chegámos a valorizar, o mundo avançou e a sua alma ficou para trás.
Éramos felizes e não sabíamos.

posted by Suzana Toscano

 

Post retirado do blog 4R-Quarta República

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:32


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas