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#1761 - ELEGIA BUFA

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.10.12

 

... Acuso!

 

Ai vida sem alegria,

Sem desespero nem nada!...

A gente deita-se..., é noite;

Levanta-se a gente..., é dia;

E a mesma porta fechada

Do lado de cada estrada,

De cada lado de cada!,

Finge de guia.

 

Assim, que posso eu fazer

Da minha alegria?!

 

Tinha alegrias profundas,

Só comparáveis

Aos meus desânimos...

                           ... Tenho-as:

Mas esses dons inefáveis

Sobem-me à boca,

Volvem-se em azedume...;

Que eu renho dentes postiços,

Com cárie de verdadeiros.


Protesto...!, e com todo eu.

De que me vale?

Só como

O que me dão a comer

Os carcereiros.

Só bebo

O que me dão a beber.

Só tenho o que não é meu...!

                               ...De que me vale?


("Acima, acima, gajeiro,

Acima, ao tope real!")


Ai tope real quebrado,

E conservado, embrulhado,

No quarto dos quatro muros!...

Eis o meu quarto:

Fechado;

Cortininhas nas janelas;

O tope real a um canto,

Mumificado:

... Como um violino sem cordas.

No chão, passeiam baratas:

Luzidias, bufas, gordas...

Aos cantos, teias de aranha:

... Como frangalhos de rendas

De sonhos empeçonhados,

Com insectos enredados;

Um cemitério de moscas

Pendente

Do tecto recto,

Como um pingente;

E eu..., a passear de alpercatas

E a declamar às paredes

Qualquer velha lengalenga

Com luas e pauis...


(" Vá, ... queres que te conte o conto

Das calças azuis...?")


O cemitério das moscas

Bate-me, às vezes, na testa.

Tropeço em cadeiras toscas

De pé coxinho...

E ao lado, o Senhor Antunes,

Que é meu vizinho,

Escarra tão virilmente

Que faz tremer as paredes...

A bela Dona Praxedes,

Senhora decente

Do quarto da frente,

Rompe vingativamente

Num sarcástico falsete.

E o papagaio da escada

Comente e repete:
"Má-raios de gente!,

"Tudo uma cambada...!

"Má-raios de gente!,

"Tudo uma cambada...!"

São palavras da criada.


Eis o leito em que me deito,

No buraco do meu quarto,

E em que sofro a dor do parto,

Que não acaba,

De Mim Próprio!


(... Clarões, incêndios, sóis, cúmulos,

Asas de anjos sobre cúpulas,

Passagens do Mar Vermelho...)


Eis o meu quarto, que cheira

A cisco, a velho,

E a vida podre e vazia...


Ai vida sem alegria,

Sem desespero nem nada!...

A gente deita-se: É noite.

Levanta-se a gente: É dia...


Boi gasto, sofre o teu jugo!

(... A unha maior, mordi-a:

Sabe-me a boca a sabugo...)

Puxa o teu carro!,

Sofre o teu jugo!,

Arrasta a tua charrua...!

E, se estás gasto de todo,

Podes ficar, alastrado

Na lama da rua...


Num travesseiro de lodo...


E revirando a quem passa

Um olho morto, vidrado,

Redondo, espantado, enxuto,


mas enorme,

Porque atrás dessa vidraça

Deus não dorme!


Poeta

De lábios de infante,

Cabelos de seda,

Sorrisos de luto...,

- Que pairas

Ao canto

Da janela baça?

Que sonho te enreda,

Que tanto

Desvairas?

Retira-te!, enfia

As mangas de alpaca.

E senta-te à mesa, e começa...

Inclina a cabeça,

Co'a língua de fora,

E copia, copia, copia, copia,

Com letra legível e opaca.


Ora agora,

Consegue que goste, e sorria,

Sua Senhoria

O chefe da secretaria.


... Assim, que posso eu fazer

Da minha alegria?


Acuso!, protesto!, acuso!

De que me vale?


... Teus versos,

São sérios, ou mangação?


Não sei o que são!


Tens mesa, e compras toalhas...,

Mas falta-te pão.


São soluços de ironia...


Ninguém tos compreende... E vão

Encher-tos de gralhas

Na tipografia.


... Assim, que posso eu fazer

Da minha alegria?


Que a bola que rebola achei-a pouca,

O tecto baixo e recto me pesou,

Pela frincha da porta o fumo entrou,


Por isso a fonte cantou rouca!


Por isso a fonte cantou rouca,

A fonte que Deus benzeu.


Que o mundo que lá passou

Lá se mirou...


                 , e bebeu!


Por isso, eu...,


              "Por isso grito e gritarei,

              "Do fundo da minh'alma até à morte:

              "Aqui-d'el-rei! Aqui-d'el-rei!"


Poema de José Régio



 

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publicado às 14:36



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