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#1702 - Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.06.12

no país no país no país onde os homens

são só até ao joelho

e o joelho que bom é só até à ilharga

conto os meus dias tangerinas brancas

e vejo a noite Cadillac obsceno

a rondar os meus dias tangerinas brancas

para um passeio na estrada Cadillac obsceno

 

e no país no país e no país

onde as lindas raparigas são só até ao pescoço

e o pescoço que bom é só até ao artelho

ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,

chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,

recordo os meus amores liames indestrutíveis

e vejo uma panóplia cidadã do mundo

a dormir nos meus braços liames indestrutíveis

para que eu escreva com ela, só atá à ilharga,

a grande história do amor só até ao pescoço

 

e no país no país que engraçado no país

onde o poeta o poeta é só até à plume

e a plume que bom é só até ao fantasma

ao passo que o fantasma - ora aí está -

não é outro senão a divina criança (prometida)

uso os meus olhos grandes bons e abertos

e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque.

Calafetagem por motivo de obras.

É relativamente queda de água

e já agora há muito não é doutra maneira

no país onde os homens são só até ao joelho

e o joelho que bom está tão barato

 

Poema de Mário Cesariny (1923-2006)

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publicado às 21:09


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