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#1638 - O quarto

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.12

 

O QUARTO

 

 

Quem te pôs a mão no ombro,

a faca que te atravessou o coração,

são feridas alheias, talvez algo que leste;

entretanto partiste

 

para lugares menos iluminados

e corações menos vulneráveis,

pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui

se já cá não estás.

 

A hora havia de chegar em que

nos perderíamos um do outro.

E acabaríamos necessariamente assim,

mortos inventariando mortos.

 

Morrer, porém, não é fácil,

ficam sombras nem sequer as nossas,

e a nossa voz fala-nos

numa língua estrangeira.

 

Apaga a luz e vira-te para o outro lado

e acorda amanhã como novo,

barba impecavelmente feita,

o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.

 

Poema de Manuel António Pina in «Como se desenha uma casa»

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publicado às 21:57


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