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#1629 - O debate do coração e do corpo de Villon

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.02.12

François Villon 

 

O debate do coração e do corpo de Villon

 

 

Que ouço? - Eu! - Quem? - O teu coração

Preso já só por um pequeno fio:

Força não tenho, nem substância ou pavio,

Quando te vejo caído em solidão

Mui encolhido como um triste cão.

- E porque então? - É por teu louco agrado.

- E que te importa? - Produz-me desagrado.

- Deixa-me em paz. - Porquê? - Logo verei.

- Quando? - Quando de infância sairei.

- Não direi mais. -Pois não me causa enfado.

 

- Em que é que pensas? - Ser homem de valia.

- Tens trinta anos - É a idade de um burro.

- Será infância? - Por nada. - Então folia

Que te apanhou? - Por onde? Pela guia?

- Não faço ideia. - Então! O leite esturro:

Ora branco, ora preto, e não queria.

- Pois é só isso? - Terei eu mal contado?

Se for preciso, mais outra te direi.

- Estás perdido! - Mas lá resistirei.

- Não direi mais. - Pois não me causa enfado.

 

- Eu tenho pena; e tu, mal e tormento.

Se fosses tolo e também fosses lento,

Talvez tivesses desculpas encontrado:

Tudo te seria igual: o bom e o mau.

Ou tens a testa mais dura que um calhau,

Ou antes queres ser sofredor que honrado!

Que dizes tu de tal consequência?

- Que tudo acaba quando estarei finado.

- Deus, que conforto! Que sábia eloquência!

- Não direi mais. - Pois não me causa  enfado.

 

- E de onde vem o dano? - Da desventura.

Quando Saturno me fez cabeça dura,

Esses males lá pôs, creio. - É loucura:

Nela governas, está tudo em tua mão.

Vê bem o que escreve o rei Salomão:

«O homem sábio, diz ele, tem potência

Sobre os planetas e sua influência.»

- Não me acredito: Fui assim forjado.

- Que dizes? Tal e qual! É a minha crença.

- Não direi mais. - Pois não me causa enfado.

 

- Queres viver? - Deus me dê competência!

- Terás... - O quê? Pesar de consciência,

E ler sem fim. - Como? - Ler com ciência,

Deixar os tontos! - Porei isso de lado.

- Pois não te esqueças! - Prestei o maior tento.

- Se muito esperas será um descontento.

- Não direi mais. - Pois não me causa enfado.

 

Poema de François Villon, poeta francês, traduzido por Filipe Jarro

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publicado às 19:50



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