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REGRESSO
- Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu animo a voz:
- Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel, no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-se assim, num jeito de criança,
e envolvam-me de espuma.
- Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
- Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
- Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, frio, sem ter boca.
Ele é quem diz: - Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
Às tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
- Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou...
- Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Poema de Natércia Freire [Horizonte Fechado - 1942]