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#1492 - ANEL DO VENTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.11.11

1.

 

Aqui tudo é julgamento.

Todos os atos vividos

tamborilam neste eito

e sou de mim saltimbanco.

E do que vem. Os viventes

se apresemtem. São tão reais

quanto sois. Não me desmentem.

 

2.

 

Sabei que esta forma humana

nem se compra nem vende.

Tampouco a força que jaz

sob a alma, renitente.

 

Ou a renitência

de ver, se desvendo

nas águas do poema

ou no seu olhar latente.

 

É vosso o que nele vedes.

 

3.

 

Viventes, o que sabeis

- que mundo o poema!-?

Em sua terra

nada se queima.

 

Viventes, o que sabeis

da morte e o resto

se nem sabemos de nós

no anel do vento?

 

Se nem sabemos de nós

ou donde o ingresso

na condição de estar só

com a alma ao menos

 

na alma de quem vos ama

dentro do poema.

Viventes, o que sabeis

da morte? O excesso

 

vinga com sua lei.

Tempo vivente

com estes que somos nós

e os que descendem.

 

Viventes, o que sabeis

deste poema?

Aqui está vivo quem

vivendo teima.

 

E cria a sua própria vez.

 

4.

 

Vos ponho nomes

- nomes não tendes -,

sois meus parentes

intransponíveis.

 

Ou apenas tendes

aqueles nomes

que vos pressentem:

sinete ou risca.

 

Aqueles nomes

de manjedoura

ou julgamento.

Nomes avulsos

 

e indossolúveis

a quem procura

desnomeá-los.

São criaturas

 

os nomes, naves.

E se designam

ao navegarem.

 

5.

 

Nós, os viventes

e conviventes

de um mundo antigo.

 

A rima é cântaro

perto da fonte.

 

Cântaro à noite

cântaro, cântaro

o ritmo um jorro

que se levanta.

 

6.

 

Vos ponho nomes

ou nome pondes

em quem vos põe.

 

Como se o lanço

dalguma escada

fosse alcançado

antes dos pés

ou a digital

de um ser viesse

antes do mal.

 

Ou nome tendes

antes de mim.

 

7.

 

Povo submisso

junto ao meu peito,

contigo fico.

O mais esqueço.

Contigo fico

quando for pátria

o nosso corpo,

esta fuligem.

Povo submisso

junto ao meu peito,

contigo fico.

O mais esqueço.

Contigo fico

quando for pátria

o nosso corpo,

esta fuligem

de sofrimento.

 

O mais nos foge.

 

8.

 

Vientes, jazemos

dsavindos.

 

Em força obstinada

mundo sempre domingo.

 

O galo não cantou.

Acordou um juízo.

 

A aurora sabe dosar

as coisas.

 

Que outros frequentam

a criação?

 

Tempos de um só,

sopesados e vivos.

 

Pode a moléstia mortal

ser entretida?

 

Apodrece a aurora.

 

Não nos conformamos

com o que não é luz.

 

Nossa pobre glória

sujeita ao vento,

à intempérie

da solidão.

 

9.

 

Não há pátria

a quem ama.

 

Porque não posso

separar o amor

do amante

que se faz a pátria dele.

 

E ser da solidão

é se perder.

 

10.

 

Ainda voltarei  a estes campos,

a este chão, ao zumbido

das abelhas pelo tempo

querendo voejar e nelas preso.

 

Ainda voltarei aos meus viventes

para vê-los andar comigo

às faldas da montanha.

 

Ainda voltarei: os mortos sabem

soluções piedosas

e as mormuram de ouvido.

 

Poema de Carlos Nejar, do livro Os Viventes, edição Leya Brasil 2011

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publicado às 19:56



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