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#1354 - A Lírica de Borges

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.05.11

 

 

Autor argentino deixou uma vasta herança poética para humanidade

Por André Nigri

 

 

Os três poemas aqui selecionados são de Jorge Luis Borges. Mais conhecido por sua prosa, Borges nutria pela poesia uma paixão avassaladora. Antes da prosa de ficção, era em versos que procurou se afirmar. Em 1981, quando seu nome estava cotado para o prêmio Nobel de literatura - conquistado pelo búlgaro Elias Canetti -, vários estudiosos chegaram a dizer que o melhor de Borges está em sua poesia. Depois de cego, Borges não abandonou a poesia, mas passou a freqüentá-la menos, sempre utilizando o formato de um soneto. Basta lembrar que o livro predileto do autor argentino era A Divina Comédia, de Dante, toda ela escrita em versos.

 

    

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

 

O Apaixonado

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dúrer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

 

Não és os Outros

Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.

Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

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publicado às 16:13



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