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#1350 - Sinais de vida

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.11

 

Roço a minha testa pela luz poente

que posso sorver. Todas as metáforas

de alimentos me saciam. Tudo se fundamenta

na existência das coisas. Um pomo

do tamanho da abóbada celeste. O tempo abstracto

vai-se tomando impensável à medida que apreendo

os pormenores da realidade. O pavão que é o sol

no Ocaso caminha com a majestade dos sonhos.

Estampa na minha cara o seu leque

negro. O meu pensamento é invisível

debaixo dos arcos escuros. A que passa

lembra-se de mim, quando me extasiei

com a Natureza enriquecida pelas interpretações

estranhas. Crio este encadeamento de metáforas

que se harmonizam com as minhas obsessões.

Eu mesmo analiso a minha biografia sincera.

Admiro as horas naturais sobretudo

o poente ilustrado. Com vinhetas de malvas rubras

entre riscos de ouro e pinceladas.

Por olhos que mastigam. Pelos dedos

onde descansa a minha medula encosada.

Passo a tarde com o cérebro inclinado

na direcção da mão. Até que um passante

desfere o golpe e corta a seda dos raios.

 

Entro no túnel do reconhecimento. Vejo

cores e vultos que me entristecem. As molduras

dos animais estão colocadas demasiado alto.

São tão inacessíveis que só com amargura

lhes toco. Tenho mais prazer em esperar

a madrugada como um corpo inerte do que

em seguir tresloucada o rasto da destruição.

 

Vai chegar a manhã espessa cheia de lodo leve

para apagar os vestígios da posição das coisas.

 

 

Poema de Fiama Hasse Pais de Brandão, retirado do livro "Obra Breve"-Poesia Reunida, editado pela Assírio & Alvim, edição 0976, Maio de 2006

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publicado às 23:39


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