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#1299 - Manuel António Pina homenageado na Feira do Livro

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.10

Nas crónicas como na poesia, abarca a desmesura do Mundo, como se procurasse "desimaginá-lo e descriá-lo".

Manuel António Pina - cujas crónicas no JN, "Notícias Magazine" e "Visão" foram parcialmente reunidas no livro "Por outras palavras", que foi apresentado ontem, na Invicta - vai ser homenageado hoje, às 17.30 horas, na Feira do Livro do Porto, numa sessão em que intervêm Álvaro Magalhães, Sousa Dias e Luís Miguel Queirós.

É alvo de mais uma homenagem. Ainda reage com desconforto a estas manifestações de apreço?

Com desconforto e com gratidão. Também sou leitor, embora bissexto, da minha "obra" e, sem pretender representar a rábula da modéstia, sou lúcido q.b. em relação a ela para aceitar iniciativas do género sem cepticismo.

Mesmo já tendo afirmado que não pertence a lugar nenhum mas a muitos, reconhece que o Porto e a Beira Alta são lugares especiais da sua geografia de afectos?

É minha convicção de que somos sobretudo memória, memória de lugares, de gente e mais dispersas existências, de livros, filmes, sonhos, desejos, medos... O Porto e a Beira Alta são, na minha memória, um pouco de tudo isso.

Não publica poesia desde 2003. O cronista tem silenciado o poeta?

Não escrevo poesia como escrevo crónicas, profissionalmente. No caso da poesia, sou, antes, amador, isto é, aquele que ama. Só escrevo poesia quando não posso deixar de escrevê-la. Passar anos sem publicar poesia não significa que tenha deixado de escrever poesia. Tenho há muito um livro praticamente pronto, reunindo poemas dispersamente publicados aqui e ali, em jornais e revistas, e inéditos.

Continua a escrever regularmente, apesar da publicação irregular?

Escrevo como publico, irregularmente. Para regularidade, basto-me com as crónicas. O meu processo é esperar. Passo bem sem escrever poesia (sem ler poesia já é outro assunto). Quando começo a passar mal, o poema encarrega-se de se escrever a si mesmo em mim. O resto é trabalho, "transpiração", como António Ferreira dizia.

Acaba de ser lançada a antologia "Por outras palavras". Como foi esse confronto com as crónicas?

Na verdade, foi Sousa Dias quem as leu e escolheu umas 250. O autor dessas crónicas sou eu, mas o autor do livro é Sousa Dias. E também o editor José da Cruz Santos, que há anos insistia comigo. Foi a generosidade de ambos que venceu a minha inércia; e ambos sabem como a minha inércia é difícil de vencer. Sousa Dias diz-me constantemente que posso ter orgulho neste livro. Tenho orgulho é de o ter a ele e ao Cruz Santos como amigos.

Afirma que "as crónicas do jornal duram um dia e morrem". Não concorda que há escritos que resistem ao tempo?

Nada resiste ao tempo. Vista a coisa a suficiente distância, um dia depois, ou um século depois, tudo (crónicas, poemas, romances) acaba na mesma imensa campa rasa do esquecimento. Isto é, como diziam os velhos tipógrafos dos jornais, tudo serve, no dia seguinte, só para embrulhar peixe. Tenho consciência de que algumas crónicas (como alguns poemas) lutam desesperadamente, como nós próprios lutamos, contra o tempo. Sabendo que é uma luta perdida. Acho que há alguma grandeza nisso.

Numa crónica recente, escrevia que o jornalismo continua subserviente. O "respeitinho" é atávico?

Não é característica apenas lusitana, o "respeitinho". Há profissionais disso por todo o lado, no jornalismo como na vida. Também nisso não somos originais. A nossa única originalidade é apenas a convicção de que somos originais, que, como dizemos constantemente, "isto só em Portugal". Não, "isto", como o resto, não é só em Portugal, é em todo o lado.

No prefácio, o director do JN conta que, "se a sua crónica falha, chovem telefonemas e cartas de leitores". A "violência" que significa escrever sempre sobre a actualidade é compensada pelas manifestações de afecto?

Devo isso aos leitores do JN. E também esta antologia, que me foi sugerida por muitos deles. Sinto uma grande responsabilidade por isso, e faço todos os dias um esforço enorme para tentar não frustrar as expectativas desses leitores. Essa é também uma espécie de servidão, mas, às vezes, chego a achar que não há nada mais libertador do que uma boa servidão.

Lendo as suas crónicas, não se pode dizer que esteja surpreendido com o estado a que Portugal chegou. Viver num país destes é o sonho de um cronista e o pesadelo dum cidadão?

Diz-se que os povos felizes não têm história. Às vezes, a infelicidade de um povo é a felicidade dessa espécie de historiadores do presente que os cronistas (sobretudo aqueles que, como eu, praticam a crónica como género jornalístico e não literário) são.


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publicado às 21:09


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