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#1277 - De outros blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.05.10

Uma vontade de beleza

Londres
Autor: Nuno Dempster
Editora: &Etc
N.º de páginas: 47
ISBN: 978-989-815-020-2
Ano de publicação: 2010

Escritor tardio, Nuno Dempster (n. 1944) saiu da obscuridade há cerca de dois anos, com um impressionante livro de estreia que reunia, em quase 300 páginas, uma década inteira de produção poética (Dispersão, Edições Sempre-em-Pé). Para além do gesto de rebeldia contra a lógica editorial reinante e as instâncias de legitimação literária, Dempster revelava uma escrita depurada, reflexiva, de assinalável solidez e consistência, atributos que reencontramos em Londres, um poema longo publicado pela & Etc.
Do aeroporto ao centro da capital inglesa, o sujeito poético entrega-se a um «processo de fascínio» durante o qual «não pensa / senão em deslumbramento». A grande cidade suscita-lhe «pensamentos febris» e a consciência de uma verdadeira comunhão cosmopolita: «na distância que vai de Covent Garden a Piccadilly Circus / cabe o mundo todo, / e a sede que tenho dele». Uma sede que é «vontade de beleza» mas também uma sede literal, afogada com canecas de cerveja nos pubs, ao fim da tarde. Ele circula por Oxford Street, visita museus (National Gallery, British Museum), passa pela Roundhouse, encanta-se com a bruma e os «cabelos loiros» das «raparigas celtas», canta «o fluir exaltante da multidão diversa», os «corpos cheios de brilho», mas também a tristeza do hotel (esse «titanic que se afunda») e «o lado violento do desespero», porque à exultação segue-se a melancolia e de novo a exultação.
Se o poeta confirma a centralidade global («as estradas que sustentam / o planeta na sua teia passam todas por aqui»), também é capaz de reflectir sobre o carácter transitório das coisas. Olhando para o passado, evoca a antiga «certeza cega de que tudo duraria» (uma ilusão) e lamenta a actual «era sombria», não deixando de acreditar que há limites para a «subversão do humano» e que ainda vamos a tempo de «reaprender a simplicidade de Tebas». O optimismo nasce do entusiasmo com o poder da literatura («tudo é possível no que escrevo»), ensaiado num imaginário encontro de Homero com Shakespeare.
Dempster leva um certo tempo a encontrar o tom justo (as primeiras páginas são algo trôpegas), mas, assim que encontra o ritmo certo, o poema flui, reflectindo tanto a vibração da vida londrina como o seu reverso: «A descoberta da humanidade / é um acto cansativo e doloroso, // e a lucidez não serve de nada, / excepto para morrermos / todos os dias pelos outros».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

 

Retirado do blog "Bibliotecário de Babel"

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publicado às 21:42



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