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#3140 - REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR ||| Poema de Daniel Filipe

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.20

REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR

 

Antoninho morreu. Seu corpo resignado

é como um rio incolor, regressando à nascente

num silêncio de espanto e mistério revelado.

Está ali - estando ausente.

 

Jaz de corpo inteiro e fato preto,

Ele, da cabeça aos pés,

trivial e completo,

estátua de proa e moço de convés.

 

Jaz como se dormisse (pelo menos

é o que dizem as velhas carpideiras).

Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.

Jaz morto de todas as maneiras.

 

Jaz morto de cansaço,  de pobreza,  de fome

(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.

É apenas, sobre um papel azul, um nome.

De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.

 

Jaz alheio a tudo à sua volta,

à grita dos parentes, companheiros,

como um cavalo à rédea solta

ou no mar largo, os rápidos veleiros.

 

Jaz inútil, feio, pesado,

a colcha de crochet aconchega-o na cama.

Nunca esteve tão quente e animado.

Nunca foi tão menino de mama.

 

Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:

padre, enterro, velório, certidão

de óbito... E discutem, com manhas de raposas,

os parcos bens e a possível divisão.

 

Entanto, sobre o leito que foi da vida de casado,

Antoninho jaz morto. Definitivamente.

Os parentes e amigos falam dele no passado.

A viúva serve copos de aguardente.

 

Poema de Daniel Filipe, in "Pátria, Lugar de Exílio, 1963"

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publicado às 18:51



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