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#1198 - Carlos Drummond de Andrade

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.02.10



ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO


JACKSON,

nem amigo nem inimigo,

nem mesmo (o que seria cómodo) espectador displicente na sua poltrona

espiando teus gestos, tuas palavras e obras,

mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida,

mais distante ainda dos mundos que exploraste, viajante inquieto, sem

tempo para esgotá-los,

e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer,

aqui estou, testemunha, depondo.


Jackson,

os que te conheceram e te amaram,

os que te conheceram e não te amaram,

os que não tiveram tempo de te amar,

os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististe,

estão todos um pouco mais pobres do que eram antes.

Uns perderam o amigo.

Outros, o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha.


Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada.

Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus, Jackson,

e eu sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso.


Voltou o tempo dos prodígios.

Ainda há pescas maravilhosas, eu sei,

e os peixes que arrebataste a um mar mais crespo que o de Tiberíades

estão cantando a glória do Senhor.


Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas

elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu

e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam,

que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar,

enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor.


Agora sentimos que estás msi perto de nós,

que por obscuros caminhos nos chegamos mais a ti,

(pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição).

Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca nõao soubera exprimir

e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano,

pesca terrível e prodigiosa de amor e de redenção.


Belo Horizonte, 1929

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publicado às 23:56


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