Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




#3094 - POEMA DIDÁCTICO ||| POEMA DE PAULO MENDES CAMPOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.20

PAULO MENDES CAMPOS (1922-1991) |||  BRASIL

 

POEMA DIDÁCTICO

 

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo

Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.

Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos

Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.

 

No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,

Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,

Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,

Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,

Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,

Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria

Que se deita sobre a cidade, olhabdo a ferrovia, a fábrica,

E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.

Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,

Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio

E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?

 

Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante

Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio

Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.

Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.

Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.

E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia -

E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica -

E não olhei mais a estrela - mas o rosto que reflectiu o seu fulgor.

Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto?

O mundo, companheiro, decerto não é um desenho

De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)

Mas um desencontro de frustrações em combate.

Nele, como causa primeira, existe o corpo do homem

- cabeça, tronco, membros, aspirações e bem-estar...

 

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.

Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética

Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa

Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.

O mundo nasceu das necessidades. O caos, ou o Senhor,

Não filtraria no escuro um homem inconsequente,

Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem

É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -

Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça.

 

Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo

Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram -

É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,

Quando ainda sofria sobre armações metálicas do mundo,

Acuado como um cão metafísico, eu gania para  a eternidade,

Sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,

A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.

Por isso, agora, organizei  meu sofrimento ao sofrimento

De todos: se multipliquei a minha dor,

Também multipliquei a minha esperança.

 

POEMA DO POETA BRASILEIRO PAULO MENDES CAMPOS

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:53


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

BERTRAND - SUGESTÃO DE LIVROS E LEITURAS

20% a 50% IMEDIATO em todos os livros - Instagram Post 25-26/03

#LERÉPODER 2020 - Large Billboard


O Mundo na Mão - Large Billboard



Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas