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#3091 - DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO ||| POEMA DE JULIO CORTÁZAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.03.20

JULIO CORTÁZAR (1914 -1984)

 

DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO

 

Cada vez são mais os que crêem menos

Nas coisas que preencheram as nossas vidas,

Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,

O verbo, a pomba sobre a arca da História,

A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

 

Nem por isso caem do céu do neófito

Na ciência que expõe máquinas na lua;

Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard

Faça transplantes do coração

Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um

Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida

Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

 

 Cada vez são mais os que crêem menos

Na utilização do humanismo

Para o nirvana estereofónico

De mandarins e estetas.

 

Sem que isto queira significar

Que quando houver um instante de inspiração

Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,

Ou se escute os nítidos clarins,

Ou se vislumbre os trémulos anjos

De Angélico.

 

POEMA DE JULIO CORTÁZAR TRADUZIDO POR  JORGE HENRIQUE  BASTOS

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BIOGRAFIA

Escritor argentino, Julio Cortazár nasceu a 26 de agosto de 1914, em Bruxelas, na Bélgica, durante uma viagem de negócios empreendida pelos seus pais. Em 1918 a família regressou a Buenos Aires, onde Cortázar veio a estudar, obtendo, em 1935, habilitações como professor do ensino secundário pela Escuela Normal de Professores Mariano Acosta. Ingressou depois na Universidade de Buenos Aires e deu aulas nas escolas secundárias de Bolívar, de Chivilcoy e de Mendonza.
Em 1944 conseguiu uma posição como professor de Literatura Francesa na Universidade de Cuyo, em Mendonza, onde se envolveu numa manifestação contra a política populista e sindicalista de Juan Domingo Peron, pelo que foi encarcerado. Posto em liberdade pouco tempo depois, viu, no entanto, vedada a sua carreira académica. Assumiu então, e em 1946, a direção de uma editora em Buenos Aires, funções que desempenhou até 1948, altura em que completou a sua licenciatura em Direito e Línguas. Cortázar passou então a trabalhar como tradutor.
Em 1949 publicou a sua primeira obra digna de interesse, Los Reyes, um longo poema narrativo em que utilizava arquétipos como o Minotauro e o Labirinto de Creta. Em 1951, época em que o regime de Peron se estabelecia como ditadura, publicou numa revista mantida por Jorge Luis Borges, a Los Anales de Buenos Aires, a sua primeira coletânea de contos, com o título Bestiário (1951).
Nesse mesmo ano, e em resultado das perseguições que lhe foram movidas, o autor optou pelo exílio, mudando para Paris, cidade que não mais abandonaria. A partir de 1952 passou a trabalhar para a UNESCO como tradutor independente.
Continuou a publicar coletâneas de contos, como Final de Juego (1956), Las Armas Secretas (1959), obra que viria a ser adaptada para cinema pelo realizador italiano Michelangelo Antonioni, com o título Blow Up, em 1966. Em 1960 consagrou-se também como romancista, com o aparecimento de Los Premios, obra em que contava o rumo de um grupo de pessoas que ganham como prémio de lotaria um cruzeiro-surpresa. O seu romance mais conhecido, Rayuela, seria publicado em 1963. A obra, original e imaginativa, influenciou significativamente a literatura da América Latina.
Em 1973 empreendeu uma longa viagem pela América do Sul, visitando países como o Peru, o Equador, o Chile e a Argentina, como investigador das violações dos direitos humanos no continente, apoiando, com os ganhos resultantes da venda das suas obras, os Sandinistas e as famílias de prisioneiros políticos.
Em 1975 lecionou, como professor convidado, nas Universidades de Oklahoma e do Barnard College de Nova Iorque. Em 1981 tomou a nacionalidade francesa e, dois anos depois, foi-lhe autorizado visitar de novo a Argentina.
Faleceu a 12 de fevereiro de 1984, em Paris. Embora seja geralmente aceite como causa da sua morte uma leucemia, existe também a opinião de que o autor tenha sido vítima de SIDA, nesse tempo ainda não diagnosticável.
 
Fonte da Biografia: BERTRAND

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publicado às 19:13



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