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#1157 - BOA NOITE, SENHOR

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.10

 

Ele me esperava à saída do baile. Parado na esquina, retocou as pontas da gravata borboleta. Ainda de longe, magrinho, idade incerta, sorria para mim.


- Boa noite.


-Boa noite, senhor.


Andando a meu lado, disse que me viu a dançar com a loira. Ele a achava linda, com sua boca pintada. Respondi que a odiava. Ele disse que sofreu muito com as mulheres - um puxão raivoso na gravatinha azul. Da própria mulher, casado e com filho, não queria saber.


Falava tanto e tão depressa, a voz pastosa de saliva. Acendi um cigarro - não é que os dedos tremiam? Perguntou se ele me provocara, mas não respondi. Compreendia muito bem, a mulher sem piedade enlouquece um pobre moço. Capaz de matar a loira de olho pérfido.


- Ainda bem não tenho olho verde!


Piscou um olho de cada vez. Eu não sabia nada do mundo, ele disse, a cada palavra a voz mais rouca. Intrigava gentilmente os plátanos, a loira, a maldita lua no céu. Uma baba de lesma no dente de ouro... Não falava da loira - e como se eu sobesse de quem. Perto da igreja o guincho aflito dos morcegos.


Ele perguntou a hora. Eu não tinha relógio. Parados na esquina, injuriou ainda mais a loira, que tinha boca pintada, promessa de delícias loucas, mas seu olhar era frio, seu loiro coração era amargo. Sabia de outras bocas, a sua, por exemplo, rainha do maior gozo. Molhou o lábio com a ponta da língua vermelha - no canto a espuma do agonizante. Se eu nunca o vira, havia muito que esperava. Tudo sabia de mim, quem eu era:


- A um menino bonito ofereço o trono do mundo.


Até dinheiro, ele disse, tesouros que eu não ganhava de nenhuma loira. Protestei que ela não merecoa ódio, moça de boa família.


Olhou o relógio no pulso: três horas da manhã.


- Boa noite, senhor.


Sem rsponder, subiu as mãos trémulas ao nó da minha gravata - dois ratos de focinhos quentes e húmidos.


- Tem cabelo no peito!


Na ponta dos dedos o cuidado reverente de quem consagra o cálice.


- Ora, quem não...


Seus olhos se abriam para a lua, eu podia jurar que verdes.


- Como é forte!


Meu Deus, aquele riso... Gritinhos de morcego velho e cego. Falando do vento que anunciava chuva, ensaiou um gesto - o gesto da loira!


A ponta da língua se mexia, um papel debaixo da porta.


- Não tem medo?


Um gato saltou do muro. Espiei do gato para o homem e a rua deserta: ajoelhado na adoração da lua.


Passos de criança perdida, gotas de chuva estalavam nas folhas.


- Boa noite, boa noite, boa noite.


Chorava o dente de ouro, as lágrimas riscavam as velhas rugas.


Escondeu-as na mão - o relógio faiscando no pulso.


- O meu presente?


Ele olhou o relógio.


- De estimação. Lembrança da minha mãe.


As folhas húmidas brilhavam na calçada. Todas as árvores pingavam a duas portas de casa.


- Melhor que...


Não ficava bem dar senhorio.


- ... volte daqui.


Quis pegar na mão e guardei-a no bolso.


- Mais um pouco - ele pediu.


Todas as árvores gotejavam. Ali na porta de casa - o relógio na palma da mão.


Ele me perguntou a hora.


Conto de Dalton Trevisan  traduzido do texto holandês por José Augusto Pinto de Sousa e retirado de um artigo de August Willemsen "Sobre a evolução estilística na obra de Dalton Trevisan e as consequências que daí advêm para o tradutor" publicado na revista  "Colóquio | Letras, n.º 132/133, Abril-Setembro de 1994

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publicado às 17:04



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