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#2941 - ODE DO HOMEM DE PÉ (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

ODE DO HOMEM DE PÉ

 

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo

pelos passos lentos como o rolar dos anos

pelos dias vulgares cheios de maçãs

pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco

pelas crianças mal vestidas para a vida

nos bicos dos pés te saúdo

pela paixão que transferiu campaspe

do amor de alexandre então dono do mundo

para o coração de apeles pintor pobre

que tinha como dom o simples dom de olhar

por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos

pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

 

Oh como o sofrimento purifica minha rua

Ele passa-nos as mãos por todo o corpo

desce por nós como um olhar de mãe

e a mais agasalhada vida vê-se nua

 

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos

chove a meu lado atrás de mim na minha frente

Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva

peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto

aquela que a seu lado é demolida

onde eu pecador me confesso e agradeço

este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira

passadas já segunda terça e quarta

e poder erguer as duas mãos acima da terra

rua onde passaram meus pais

onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos

onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã

e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi

rua onde tudo ganhei tudo logo perdi

onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores

e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações

que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças

onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de                                                                                                                                                     todos os dias

e muitas outras coisas que depois esqueci

rua que me levaste a tanto sonho vão

que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer

bem pouco basta minha rua para faze feliz o homem:

acender por exemplo repentinamente a luz

na sala onde pairava um certo mal-estar

o que dissipa como que para sempre a sua triste condição

Ou então na morte do escritor amigo recitar

o elogio fúnebre de há muito preparado

que se haverá de matar ainda mais o morto

e ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida

A inquiteção que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz

quando de pernas excessivamente livres

cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos

quando se me exigia o sacrifício dos olhares

e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida

Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua

ao fim de ti nem mesmo há já esse equeno almoço

aonde pelo menos qualquer coisa começava

Não disponho de alento para muitos anos

Sinto-me velho nasci em 33 estamos em 60

vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar

incapaz de lutar mandar obedecer

como que fiquei sempre à espera da maioridade

 

É tempo de assistir aos funerais dos amigos

começo a estar bom para jazer

«bom é acabar» - dizia o vice-rei

Já sou de deus deixei de ter idade rua

ele passou a ser a minha própria idade

não me levouu em conta o céu antecipado

e se algum dia porventura alguma criatura me moveu

o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua

Se título algum tive já me vai caindo

só deus é minha veste e minha história

Que ele me abra ó rua a porta da palavra

 

Agora que por fim alguém em sua voz me chama

pelos rostos presentes pelo grande ausente

que me livrou num tempo de injustiça por tudo

ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo

 

POEMA DE RUY BELO IN "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 16:36



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