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#2930 - A FALA DO ÍNDIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.12.18

 

"Nascido no Verão de 1848 perto de onde hoje é Billings, no Montana, Plenty-Coups, ou Aleek-chea-aboosh (Many Achievements), recebeu o nome do avô, que disse: «Sonhei que ele há-de viver para contar muitos golpes e chegar a velho; disse-me o meu sonho também que ele há-de ser um chefe - o maior chefe que o nosso povo jamais terá tido»,

profecia esta que que veio a ser realizada. Plenty-Coups morreu em 1932, pouco tempo depois de ter legado ao povo norte-americano as suas terras de duzentos acres (situadas num vale do sudeste de Montana), para ali ser feito um parque que seria «um memorial da nação crow» e «um testemunho da minha amizade para com todos os povos, vermelhos ou brancos». A seu pedido, foi enterrado atrás da sua casa, no pequeno bosque de álamos que tinha plantado quando rapaz. A passagem transcrita é um excerto da sua autobiografia.

 

Por altura dos meus 40 anos, pude ver que o nosso país estava a mudar, e a mudar depressa, e que tais mudanças nos levavam a viver muito diferentemente. Todos viam então que em breve deixaria de haver bisontes nas planícies e cada qual se interrogava acerca de como poderíamos nós viver depois do  seu desaparecimento. Houve poucas expedições de guerra, e quase nenhuns ataques... Os homens brancos, com os seus búfalos pintalgados [gado vacum], cercavam-nos. As casas deles ficavam perto dos sítios de água e as aldeias junto dos rios. Tinhamos decidido mostrar-nos amigáveis para com eles, apesar de todas as transformações que provocavam. Mas isso revelou-se difícil, porque os homens brancos prometiam as mais das vezes fazer uma coisa e acabavam sempre por fazer outra.

 

Diziam bem alto que as leis deles eram para todos; mas depressa compreendemos que, embora esperassem que nóas as adoptássemos, não hesitavam eles próprios em desrespeitá-las. Disseram-nos eles que não bebêssemos uísque, embora o fabricassem eles próprios e o usassem para negociar connosco, em troca de peles e de mantas, ao ponto de estas terem praticamente desaparecido. Diziam-nos os seus doutores que adoptássemos nós a religião deles, mas quando procurámos compreendê-la vimos que entre os homens brancos havia demasiadas espécies de religião; não as podíamos compreender, e raramente dosi homens brancos se mostravam de acordo quanto a saber qual seria a religião que se deveria aprender. Coisa que bastante nos enfadou, até que vimos que o homem branco não encarava a religião com mais seriedade do que fazia com as leis, e que as guardava a ambas bem por detrás dele, como ajudantes, para as utilizar segundo as suas conveniências nas suas relações com os estrangeiros. Tais não eram as nossas maneiras. Nós conservávamos as leis que tínhamos feito, e vivíamos a nossa religião. Nunca pudemos pois compreender o homem branco, que só a ele se engana."

 

EXTRAÍDO DO LIVRO «A FALA DO ÍNDIO»  DE TERI C. McLUHAN, EDIÇÃO FENDA EDIÇÕES, ANO DE 1988

 

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publicado às 21:24



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