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#2920 - O LAMENTO DA MULHER

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.18

O LAMENTO DA MULHER

 

Canto a canção de uma mágoa incessante,

A história do meu infortúnio, do peso da minha dor,

Dor do presente e dor do passado,

Dor sem fim de exílio e desgosto,

Mas nunca, desde o tempo de menina, maior do que agora.

Primeiro a agonia, quando o meu senhor partiu,

Para longe dos seus, para além do mar;

Dolorosa a tristeza ao romper da aurora,

Ansiando pelo rumor que diria em que longínqua terra,

Passando horas tão difíceis, o meu amado tardava.

Até longe vagueei então, sem amigos e sem casa,

Procurando ajuda para a minha necessidade pesada.

Com intrigas secretas  os parentes dele intentaram

Separar-nos, criando entre nós vários mundos

E ódio amargo. O meu coração ficou doente.

Com azedume, o  meu senhor ofereceu-me abrigo aqui.

Em toda esta terra poucos eram os que me amavam,

Poucos os que eram leais, poucos os que eram amigos.

Assim o meu espírito está pesado de mágoa

Por saber que o meu amado, o meu homem e companheiro querido,

Vergado pela má fortuna e pela amargua do coração

Mascara o seu propósito e planeia o mal.

Com os corações felizes de outrora tantas vezes nos gabámos

De que nada nos separaria, a não ser a morte;

Tudo isso falhou e o nosso antigo amor

É agora como se nunca tivesse sido!

Longe ou perto, para onde quer que fuja, para lá me segue

O ódio daquele que outrora tão querido.

Nesta floresta, ele fixaram a minha morada

Por baixo de um carvalho numa gruta de terra,

Uma velha caverna habitada em tempos antigos,

Onde o meu coração é esmagado pelo peso da minha dor.

Tristes são as suas profundezas e os penhascos que a cobrem,

Severos os seus confins com os espinhos que lá crescedram -

Uma morada sem alegria onde dia a dia a saudade

De um amado ausente traz angústia ao coração.

Amantes há que podem viver o seu amor,

Conservando alegremente o leito da felicidade,

Enquanto eu percorro a minha gruta de terra debaixo do carvalho

De um lado para o outro na aurora solitária.

Aqui tenho de sentar-me durante o longo dia de Verão,

Aqui tenho de chorar em aflição e dor;

E nunca, na verdade, o meu coração conhecerá descanso

De toda a sua agonia e de todo o seu padecimento,

Por meio dos quais o fardo da vida me prostrou.

Qualquer idade do homem está sempre sujeita à mágoa,

E os pensamentos do seu coração à amargura, ainda que os carregue com alegria;

Perturbado é o seu espírito, perseguido pelo sofrimento - 

Quer possua toda a riqueza do mundo,

Quer seja acossado pelo Destino num país longínquo.

O meu amado está sentado de alma cansada e triste,

Fustigado pela tempestade e hirto com a geada,

Numa cela desventurada sob penhascos rochosos,

Circundada por águas que o apartam - 

A mais pungente das mágoas deve sofrer o meu amado

Recordando-se sempre de um lar mais feliz.

Triste o destino daquele que está condenado a esperar

Com um coração saudoso por um amor ausente.

 

POEMA ANÓNIMO, DO LIVRO DE EXETER, SÉCULO X, REINO UNIDO

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The Wife's Lament
Verse Indeterminate Saxon


Ic þis giedd wrece bi me ful geomorre,
minre sylfre sið. Ic þæt secgan mæg,
hwæt ic yrmþa gebad, siþþan ic up weox,
niwes oþþe ealdes, no ma þonne nu.
5
A ic wite wonn minra wræcsiþa.
ærest min hlaford gewat heonan of leodum
ofer yþa gelac; hæfde ic uhtceare
hwær min leodfruma londes wære.
ða ic me feran gewat folgað secan,
10
wineleas wræcca, for minre weaþearfe.
Ongunnon þæt þæs monnes magas hycgan
þurh dyrne geþoht, þæt hy todælden unc,
þæt wit gewidost in woruldrice
lifdon laðlicost, ond mec longade.
15
Het mec hlaford min herheard niman,
ahte ic leofra lyt on þissum londstede,
holdra freonda. Forþon is min hyge geomor,
ða ic me ful gemæcne monnan funde,
heardsæligne, hygegeomorne,
20
mod miþendne, morþor hycgendne.
Bliþe gebæro ful oft wit beotedan
þæt unc ne gedælde nemne deað ana
owiht elles; eft is þæt onhworfen,
is nu swa hit no wære
25
freondscipe uncer. Sceal ic feor ge neah
mines felaleofan fæhðu dreogan.
Heht mec mon wunian on wuda bearwe,
under actreo in þam eorðscræfe.
Eald is þes eorðsele, eal ic eom oflongad,
30
sindon dena dimme, duna uphea,
bitre burgtunas, brerum beweaxne,
wic wynna leas. Ful oft mec her wraþe begeat
fromsiþ frean. Frynd sind on eorþan,
leofe lifgende, leger weardiað,
35
210
þonne ic on uhtan ana gonge
under actreo geond þas eorðscrafu.
þær ic sittan mot sumorlangne dæg,
þær ic wepan mæg mine wræcsiþas,
earfoþa fela; forþon ic æfre ne mæg
40
þære modceare minre gerestan,
ne ealles þæs longaþes þe mec on þissum life begeat.
A scyle geong mon wesan geomormod,
heard heortan geþoht, swylce habban sceal
bliþe gebæro, eac þon breostceare,
45
sinsorgna gedreag, sy æt him sylfum gelong
eal his worulde wyn, sy ful wide fah
feorres folclondes, þæt min freond siteð
under stanhliþe storme behrimed,
wine werigmod, wætre beflowen
50
on dreorsele. Dreogeð se min wine
micle modceare; he gemon to oft
wynlicran wic. Wa bið þam þe sceal
of langoþe leofes abidan.

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publicado às 20:53


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