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#2918 - O Interior - Cicatrizes na paisagem

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.18

No último declive da montanha, as casas desenhadas no granito equilibram-se  em estreitos sucalcos.

Quando se chega mais perto, o espírito funde-se nesta amálgama de cheiros, cores e sons. A cor da terra é triste - há muito tempo deixou de sentir o peso dos passos de homens, mulheres, crianças e do gado.

As casas ainda têm portas. As portas trancam memórias, abafam gemidos; e as janelas pintadas de cor vermelha gritam o vazio da respiração e do afago.

No interior apenas os sopros das sombras que animam - imitando  os gestos, as palavras, os silêncios, as mágoas, a ternura, a gargalhada dos ausentes moradores, e o crepitar  da lenha no lume da lareira -  esta espécie de teatro de marionetes manipulados por sombras, que se tornaram fantasmas por tamanha saudade de vida e de vivos. 

Nas vielas desta aldeia sem gente,  apenas se ouve o choro manso de um violino, cujas cordas são calcadas pelos dedos do vento.

Nesta paisagem dolorosamente bela,  as feridas do abandono, da renúncia e da ausênca jamais cicatrizarão. 

 

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publicado às 22:16



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