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#2789 - À Deriva com Mar ao Fundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.03.18

 Tatiana Pequeno

 

À DERIVA COM MAR AO FUNDO

 

há uma imagem muito preciosa de nós.

por meses ela acompanhava o abrir in

voluntário da caixa de mensagens e o

dia tão outonal da tua presença chegava

mais veloz para a reserva dos voos de

ir ao encontro da tua larga omoplata de

receber. a fotografia arquiva aquele dia

já tão passado de julho (outro inverno) e

na tua blusa xadrez há alguma coisa ne

gra de mim enquanto no meu vestido pre

to há um detalhe de ti, além daquilo que

são os teus brincos muito arredondados.

e estou ancorada no teu corpo a dizer al

go do tipo «queria que aparecesse o mar».

nas ruas da Barra e do Rio Vermelho

procuramos mais uma vez a linguagem

modesta do aluguel - esta coisa menor -

que estivesse ao nosso alcance chegas

te a ligar para um pequeno imóvel com

varanda, do qual abstraímos rapidamente

(os preços sempre nos foram valores difíceis)

temendo a oxidação dos ferros e o gasto

com eletrodomésticos novos e alumínio

ao ficarmos tão próximas dos efeitos do

salitre presente no movimento equatorial

da maresia, fomos também ao banco onde

sob tua fala aceitei que fosse a hora de

mudar agência. mas sobretudo os investi

mentos que não tinha. indago-me hoje se

era já altura de perguntar sobre os segredos

cada vez mais graves que tu mantinhas.

talvez fosse o caso falar da brisa futura

a corroer a casa ou da umidade palusível

a destruir os livros. se enfim já pensavas

na troca ligeira das operadoras a longas

distâncias de nossos telefones. de qualquer

forma, ali, os planos pareciam todos feitos.

(havíamos escolhido um nome africano para

aquela criança adotada que seria nossa filha)

era quase tarde naquele imenso dia e no en

tanto paramos novamente ali naquele porto

na orla e, para sempre, o Sublime registrou

algo que te parecia sorrir e a mim também

sem que soubéssemos, afinal, que atrás de

nós a larga água de todos os santos nos des

protegia e nada depois de alguns meses faria

você desistir de preferir o sul àquela luz em

que insisti no ajuste da câmera para na memória

fazer caber, à esquerda o amor e à direita o mar.

 

POEMA DE TATIANA PEQUENO

 

 

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publicado às 10:50



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