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#1060 - Amós Oz - Música de Câmara Crítica

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.09



 

No autobiográfico De Amor e Trevas (2002), Amós Oz revelou que a leitura da obra do americano Sherwood Anderson (1876-1941) foi tão impactante que o levou às lágrimas ("soluçando de uma felicidade temerosa, em êxtase"), fazendo com que ele descobrisse sua vocação literária. Em seu novo livro, Cenas da Vida na Aldeia, o autor israelense mostra a extensão dessa influência, ao homenagear a estrutura de uma das maiores obras do americano, Winesburg, Ohio. Como este, é um livro que reúne relatos sobre moradores de um lugar imaginário — a vila de Tel Ilan —, em capítulos que podem ser lidos de forma independente. Entretanto, os textos ganham força justamente quando lidos em sequência, encadeados à maneira de um romance.

Amós Oz já declarou em várias entrevistas que sua produção é uma espécie de música de câmara, ou seja, concentra-se em episódios domésticos, nos conflitos familiares. Cenas da Vida na Aldeia segue o mesmo padrão. Não há aqui heroísmos ou grandes acontecimentos, somente a vida que teima em seguir escorrendo, lenta e viscosa. Só o que existe é solidão, frustração, arrependimento, preconceito, incapacidade de se abrir às outras pessoas — lição aprendida por Oz com outro de seus modelos, o russo Anton Tchekhov.

QUESTÃO PALESTINA

Uma médica que espera o sobrinho chegar de ônibus; um adolescente apaixonado pela bibliotecária que, em vez de amá-lo, sente pena; o corretor de imóveis que sonha em comprar um velho casarão do povoado e fraqueja quando a oportunidade enfim surge. São enredos escritos em tom menor, com gosto daquilo que poderia ter sido e não foi. O mais pungente dos capítulos é Os que Cavam, sobre um ex-deputado à beira da senilidade que entra em conflito com a filha quando ela hospeda um jovem árabe em sua casa. Afinal, seria impossível escrever sobre Israel sem falar dos conflitos com os palestinos. Desde os memoráveis romances Não Diga Noite (1997) e A Caixa Preta (2003), Oz toca apenas indiretamente nesse e em outros traumas coletivos, como o Holocausto. Em vez de explorar grandes temas, prefere estudar o modo como se manifestam em gestos de ódio e afeto. Como se fôssemos todos feitos do acúmulo de dores e alegrias.

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Jonas Lopes é repórter da revista Veja São Paulo e assina o blog http://gymnopedies.blogspot.com.

 

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publicado às 13:02


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