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#998 - Herberto Helder, A Faca não corta o fogo

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.11.09

 

alexandra de pinho

O que está escrito no mundo está escrito de lado

 

 

a lado do corpo - e tu, pura alucinação da memória,

entra no meu coração como um braço vivo:

o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande

buraco selvagem -

e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações

dos membros abertos: e irrompe o sangue

das imagens ferozes:

as rótulas unidas aos dentes e,

como um sexo trilhado:

a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura

de uma paisagem - uma

paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas

de luz

que se despenharam: porque não há lembrança

dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas

fotostáticos

levitando - a loucura está tão próxima que o meu braço

se entranha na água, e este atelier onde escrevo

sobe

dos precipícios curvos, forte desde o fundo:

aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela

à purpura das madeiras, aos lençóis

ofuscantes cheios de sangue, de água

magnetizada - e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,

e em baixo a queimadura

dos instetinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto

plantado

em sua estaca de sangue como uma grande veia animal -

eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se

no remoinho da garganta - e levanto  a mão e explode

cinematograficamente

a imagem da própria mão

afogada

- porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra

do corpo cerra-se

sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre

como uma chama

por toda a casa - ceifem-me os cabelos à luz

panorâmica: e nas raízes sangrentas

a cabeça queima-se como a lua queima as roupas

levantadas - o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce

dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra

aumenta

exposta às mãos como outra mão

de carne larga - esse

osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam

como se corta a noite

com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,

na terra, num incêndio completo, enquanto

ceifam: porque há uma cabeça no centro

do choque

do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias

sem fracturas: a cabeça

que vê e cheira e que se abre e fecha

e ouve e refulge e morde

e come depressa e respira para dentro e para fora -

e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas

- a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade

entre as unhas,

labaredas, um puro génio mundial - tudo como uma forma límpida,

sutura

do coração, uma leveza tremenda

no poder: quando op dia é muito perto, uma estrela comprida

- as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam

na queimadura da paisagem: uma visão

cerrada pela força: e um comeya desentranha-se

da branca carnagem das memórias, fervendo

entre axilas e falangetas como

um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras -

o que se lembra e pulsa: fibras

vivas

de uma vara embrenhada no meio da água,

e à volta os planetas oscilam como folhas cantando

desde o abismo -

os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem

profundamente

o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose

o coração

aos pedaços de carne, entre orifícios

negros, ressacas

fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.


Poema de Herberto Helder, do livro "A Faca não corta o fogo", edição Assírio & Alvim

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publicado às 21:27



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