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#2585 - Poema sobre Lourenço Marques revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

 Eugénio Lisboa

 

Regresso, mas não regresso

ao paraíso perdido,

ao centro de mim, possesso

de quanto, aqui, retido,

de novo vejo, sem ver,

sendo eu quem já não sou:

mundo outro eu quero haver,

nesta fome em que me dou.

Este mar (a cor, a vida)

durou só o que durou:

a corrida é já perdida

e o barco naufragou.

 

No entanto, a casa é minha,

mesmo podre e desdourada:

o calor é o que antes tinha,

nela está minha morada!

 

(O frio é apenas meu

e não da velha cidade:

só em mim esmoreceu

o calor da mocidade.)

 

30 de Setembro de 1989

 

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Eugénio Lisboa  
[Lourenço Marques (hoje Maputo)/Moçambique, 1930]  

Eugénio Lisboa
Ensaísta e crítico literário. 

Nascido em Lourenço Marques, onde viveu até 1976, formou-se (1953) em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, de Lisboa. É doutor honoris causa em Letras, pelas Universidade de Nottingham, Reino Unido (1988) e Aveiro. 

Já depois da independência de Moçambique, foi colocado em Paris, na Compagnie Française des Pétroles, como adjunto do director mundial de exploração (1976). O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres. Durante esse lapso de tempo promoveu a divulgação da cultura portuguesa e a tradução e edição, no Reino Unido, de alguns clássicos da nossa literatura. 

Por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar, viveu em Lisboa entre 1947-55. Data desses anos a sua lendária amizade com José Régio, que o convidou a organizar um volume antológico da sua poesia, José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Esse volume, e em particular o Estudo nele inserido, será o primeiro sinal público de uma exigente e continuada atenção à obra regiana. 

Depois do regresso a Moçambique, foi uma figura destacada e interveniente da vida cultural laurentina, tendo co-dirigido, com Rui Knopfli, suplementos literários de jornais desafectos ao regime, casos de A Tribuna e A Voz de Moçambique. Participou na recolha do espólio de Reinaldo Ferreira, sendo autor do estudo introdutório à 1ª. edição dos Poemas (i.e. o posfácio das edições portuguesas). Para o Rádio Clube de Moçambique elaborou programas de teatro radiofónico, a partir de textos de Racine, Ibsen, Régio e Montherlant. 

Espírito atento e sulfuroso, autor de um ensaísmo informado que não abdica da clareza e dofair play, Eugénio Lisboa tem sido, ao arrepio de modas e conveniências de vária ordem, um leitor empenhado e provocante de autores pouco amáveis (Henry de Montherlant, Régio, Reinaldo Ferreira, Sena, Rui Knopfli, para citar apenas os casos de dedicação «militante»). Foi também, nos anos 60 e 70, um desassombrado crítico da visão oficiosa das «literaturas africanas de expressão portuguesa». No que se refere às obras e à personalidade de José Régio e Jorge de Sena, pode dizer-se hoje que não é possível estudar um nem outro destes autores sem atentar nos ensaios de Eugénio Lisboa.

A generalidade dos ensaios que escreveu e publicou em Moçambique foram coligidos nos dois volumes de Crónica dos Anos da Peste (1973 e 1975; tomo único desde 1996). Mais recentemente, glosando e certamente homenageando o título homónimo de Mário de Sá-Carneiro, publicou nova colectânea de ensaios com o significativo título de Indícios de Oiro(2009). 

A par da sua actividade ensaística, Eugénio Lisboa é autor de dois livros de poesia, A Matéria Intensa (1985) e O Ilimitável Oceano (2001). A pretexto de A Matéria Intensa, David Mourão-Ferreira fez notar os «inesperados acentos lúdicos» de uma voz «a um tempo áspera e calorosa, austera e fremente».

Colaboração de vária índole encontra-se dispersa, desde os anos 50, por jornais e revistas de Moçambique – além dos já citados, NotíciasDiárioNotícias da BeiraDiário de MoçambiqueObjectivaParalelo 20 – e de Portugal, tais como o Diário PopularA Capital,JLO Tempo e o ModoColóquio-LetrasPreloNova RenascençaOceanosLer, etc. 

Dirigiu, para o Círculo de Leitores, a colecção das Obras Escolhidas de José Régio. 

Escritor e diplomata, membro da Associação Internacional dos Críticos Literários, oficial da Ordem do Infante D. Henrique, tenente da Royal Victorian Order (Grã-Bretanha), presidiu à Comissão Nacional da UNESCO entre 1996 e 1998. Exerce actividade docente na Universidade de Aveiro. Foi o coordenador dos três primeiros volumes do presenteDicionário (1985-94). Usou os pseudónimos Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca.

Doou à Biblioteca Nacional o seu espólio literário, contendo cartas manuscritas de José Régio, Torga, Jorge de Sena, Virgílio Ferreira, Fernando Namora, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Alberto de Lacerda, António Osório, Eduardo Lourenço, Teolinda Gersão, William Boyd, George Steiner, entre outros.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998

[actualizado em Maio de 2010]
 
 

 

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publicado às 17:46



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