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#982 - Vladímir Nabókov

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.10.09

VLADÍMIR NABOKÓV


Lembro como vieste: um retinir crescente,

a emoção nova no mundo que desponta.

A lua, coada dos ramos, varre o alpendre.

Cai vagarosamente a lira de uma sombra.


Jovem, via o iambo como um vestido

demasiado áspero nos teus ombros ternos.

Mas era cantante o meu verso imperfeito,

sorrindo na rima de lábios vermelhos.


Era feliz. Na mesa extinguia-se o fogo

oscilante da vela, o sonho ia em frente:

sob o vidro da mesa uma folha imortal

e rutilante nos seus raios de emendas.


Agora é diferente. Não trocava o sono

matinal pela estrela da madrugada.

Já escasseia o ânimo para tanto esforço,

sobretudo para os trabalhos da vaidade.


Sou experiente agora, avaro, intolerante.

Tem um brilho de cobre o meu verso polido.

Agora eu e tu raramente falamos,

através da cerca, como velhos vizinhos.


Sim a maturidade é rigorosamente

pitoresca: uma parra, uma pêra, meia melancia

e - o cúmulo da mestria - ar transparente.

Estou gelado. É outono, ó Musa fria.


Poema de Vladímir Nabókov  (1899-1977) traduzido por Nina Guerra e Filipe Guerra

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publicado às 13:04



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