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Lembro como vieste: um retinir crescente,
a emoção nova no mundo que desponta.
A lua, coada dos ramos, varre o alpendre.
Cai vagarosamente a lira de uma sombra.
Jovem, via o iambo como um vestido
demasiado áspero nos teus ombros ternos.
Mas era cantante o meu verso imperfeito,
sorrindo na rima de lábios vermelhos.
Era feliz. Na mesa extinguia-se o fogo
oscilante da vela, o sonho ia em frente:
sob o vidro da mesa uma folha imortal
e rutilante nos seus raios de emendas.
Agora é diferente. Não trocava o sono
matinal pela estrela da madrugada.
Já escasseia o ânimo para tanto esforço,
sobretudo para os trabalhos da vaidade.
Sou experiente agora, avaro, intolerante.
Tem um brilho de cobre o meu verso polido.
Agora eu e tu raramente falamos,
através da cerca, como velhos vizinhos.
Sim a maturidade é rigorosamente
pitoresca: uma parra, uma pêra, meia melancia
e - o cúmulo da mestria - ar transparente.
Estou gelado. É outono, ó Musa fria.
Poema de Vladímir Nabókov (1899-1977) traduzido por Nina Guerra e Filipe Guerra