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#967 - Jean-Marie Le Clézio - Como se Fosse um Memoralista

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.10.09

Jean-Marie Le Clézio - Como se Fosse um Memoralista

O francês Jean-Marie Le Clézio, prêmio Nobel de Literatura de 2008, recupera detalhes do passado para refletir sobre o presente

Por Heitor Ferraz


 

Prêmio Nobel de Literatura de 2008, o francês Jean-Marie Le Clézio possui um estilo límpido que lembra o do memorialista, aquele que recupera em detalhes passagens significativas do passado para recolocá-las no presente em sua plena pulsão. Em seu novo romance, Refrão da Fome, o escritor parece tocar, com a delicadeza dessa escrita, não apenas na ferida aberta pela Segunda Guerra Mundial, mas também nas feridas do presente.

 

Publicada no ano passado na França, a narrativa conta a história da jovem Ethel, entre os 12 e 20 anos de idade. A infância e a adolescência da protagonista coincidem com o período que vai dos anos 30 até o fim da guerra, em 1945. Filha de uma família abastada que vive na parte nobre de Paris, ela passa sua infância ao lado do tio-avô, Samuel Soliman. A ligação lírica entre os dois, com passeios e cumplicidades, ajuda a construir o caráter da menina. Na trama poética armada por Le Clézio, o leitor acompanha a formação de Ethel: sua amizade e paixão por Xénia, uma imigrante russa, de família nobre mas empobrecida; seu amor pelo jovem inglês Laurent; as andanças com o tio; e, momento crucial, a derrocada econômica da família, o início da guerra e a invasão da França pelos alemães. Tudo ocorre, aparentemente, no ritmo tranquilo do relato de uma vida, suas atribulações e desejos curiosos — como o sonho do tio-avô que durante a Exposição Colonial de 1931 comprara todo um pavilhão indiano para reconstruí-lo um dia no seu quintal.

 

Mas Le Clézio parece montar mesmo um grande quebra-cabeça, pois todos os elementos — de certa maneira rememorados — formam um conjunto intrincado no qual a burguesia francesa alienada e infantilizada, a invasão alemã, a história das ex-colônias francesas e a atual imigração árabe, que aparece apenas no final, acabam levando a uma leitura política do presente. Como se por trás da história de uma menina que cresce e consegue salvar os pais falidos e inaptos existissem camadas que afloram hoje, com sua carga embutida de violência.

 

O título parece não deixar dúvidas ao referir-se a um "refrão" (ritournelle, em francês), que tem como referência o Bolero, do compositor Maurice Ravel, citado no final do livro. Como o narrador diz, referindo-se à orgia de timbres que, na partitura, desemboca num impressionante crescendo: "O Bolero não é uma peça musical como as outras. É uma profecia. Conta a história de uma cólera, uma fome. Quando acaba em violência, o silêncio que se segue é terrível para os sobreviventes aturdidos". Assim, Le Clézio faz o balanço de um mundo que afundou e aponta para um outro, o nosso, que nasceu de suas ruínas e que muitas vezes parece fadado ao naufrágio.

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Heitor Ferraz é jornalista, editor e poeta, autor de Um a Menos, entre outros.

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publicado às 01:27



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