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# 966 - João Ubaldo - O Albatroz Azul

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.10.09

João Ubaldo - O Albatroz Azul

Depois de vencer a depressão e o alcoolismo, o escritor baiano ressurge renovado com o solar - e ótimo - O Albatroz Azul

Por Cristiane Costa

 

 

Sete anos separam o soturno Diário do Farol do solar O Albatroz Azul. Entre o último romance, publicado em 2002, e o mais novo, que chega às livrarias neste mês, João Ubaldo Ribeiro viu a vida lhe sorrir. Nesse período, o escritor de 68 anos ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, teve seu passe disputado por várias editoras num vultoso leilão, saiu de uma profunda depressão e venceu o alcoolismo. Hoje, esbanja vitalidade e já fala até em parar de fumar. O humor que perpassa as páginas de O Albatroz Azul, uma volta ao universo e aos tipos inesquecíveis de sua lendária Itaparica, reflete esse momento. O escritor está de bem com a vida.

 

O Albatroz Azul é João Ubaldo em estado puro. Tem aquele barroquismo sem gorduras que é característico de sua prosa. Tanto a escrita quanto a falada (porque, como bom baiano, o homem conta até piada desse jeito mesmo, com ponto e vírgula e letra maiúscula). Traz aqueles personagens tão de carne e osso que parecem velhos conhecidos do leitor, como Tertuliano Jaburu e Ia Cencinha. Inventa diálogos divertidíssimos, recriando a fala do povo e salpicando aqui e ali ditados como "De burra que faz him e mulher que sabe latim, livra-te tu e a mim" ou "Marido velho com mulher nova, corno ou cova".

 

É um livro deliciosamente despretensioso em sua celebração da sabedoria popular. "A única pretensão deste livro é mostrar um universo, com seus valores, sua visão de mundo, que muita gente não conhece. Ou, se conhece, não participa dele", diz o autor. Como, por exemplo, a importância que as pessoas mais simples dão à escolha do nome, que vai acompanhar a criança a vida inteira. Numerosas questões filosóficas, filológicas e até hagiográficas vão levar Tertuliano a nomear seu neto, antes mesmo de nascer, de Raymundo Penaforte, com direito a ipsilone e tudo, como faz questão de frisar. É como se, invocando a proteção do santo certo, seu destino estivesse marcado em cada letra.

 

A sonoridade dos nomes e apelidos é uma das características da ilha de Itaparica transpostas para a ficção de João Ubaldo. O escritor retorna todos os anos, em janeiro, à casa onde nasceu. Afinal, a data de seu aniversário, dia 23, já faz parte do calendário turístico local. "Se pudesse, ficava lá pra sempre", suspira. Mas tem os compromissos, os filhos, o trabalho.

 

"O que eu faço lá? Nada!"

 

É em Itaparica onde estão os amigos de infância que, mesmo depois de o escritor ter aparecido no programa de TV Fantástico como ganhador do prêmio Camões, em 2008, ainda têm dúvidas sobre sua verdadeira importância para a literatura nacional. "Eu acho que não deixam de ter sua razão, sob certa perspectiva. Um amigo meu lá até me disse: 'Hoje eu posso dizer para você sem medo de errar: entre os escritores vivos da ilha, você é dos maiores'. Avaliei os outros e pensei: por que não? Eles são muito importantes na perspectiva da ilha. Então, para que me meter a besta?"

 

A verdade é que ter aparecido em cadeia nacional contribuiu grandemente para calar os céticos e solidificar a reputação de João Ubaldo em Itaparica. "O chato é que agora todo mundo acha que eu estou milionário. As pessoas confundem US$ 100 mil com US$ 100 milhões. Se eu aparecer a apenas alguns quarteirões daqui, na Delfim Moreira [rua mais valorizada do Leblon, no Rio de Janeiro], com US$ 100 mil, o porteiro vai dizer: 'Boa tarde, a entrada de serviço é por ali'. Isso não compra a dependência de empregada de um apartamento daqueles de frente para o mar", brinca.

 

Se o prêmio de US$ 100 mil não chegou a fazer cócegas e foi devidamente guardado na poupança que um dia garantirá a aposentadoria do escritor, o mesmo não se pode dizer dos valores pagos pela editora Objetiva para ficar com o passe de João Ubaldo depois que ele deixou a Nova Fronteira, que publicou seus livros por quase três décadas — O Albatroz Azul, aliás, é o último deles, uma vez que o romance já estava contratado quando a transferência aconteceu. Ninguém sabe ao certo o valor real acertado, mas o agente americano Thomas Colchie, que até então só representava João Ubaldo no exterior, começou o leilão pedindo US$ 1 milhão.

 

Milionário ou não, o escritor continua com sua vida de sempre, na mesma pequenina cobertura no Leblon que foi de Caetano Veloso no início da carreira. Ele é dono de um Ford Fiesta 1.0 que não dirige, acorda às 5h da madrugada para escrever, trabalha até o meio-dia e lê e pesquisa na internet o resto do tempo. Apenas a tela do computador, do tamanho de uma enorme televisão de plasma, revela que o autor deve estar muito bem de vida. É seu mais novo brinquedo.

 

ALCÓOLICOS ANÔNIMOS E DEUS

João ainda pode ser visto nos botecos do Leblon, jogando conversa fora com os amigos no meio da tarde. Mas que seus fãs não se enganem com o conteúdo amarelo do copo cheio de gelo. É guaraná. Ele parou completamente de beber há sete anos. "Cheguei a ir aos Alcoólicos Anônimos, mas parei de beber por conta própria. Foi uma experiência muito pessoal, que eu atribuo a minha fé. Não parece, mas sou um homem de fé. Não sou católico, mas sou cristão e leitor dos evangelhos."

 

Nos AA, João Ubaldo aprendeu que, quando alguém deixa a bebida, deve evitar a companhia do pessoal "da ativa". Fez exatamente o contrário. E deu certo. "Na semana em que parei de beber — e eu bebia direitinho —, fui para um boteco, pensando em exercer minha força de vontade. Mas absolutamente não fiz força nenhuma. Continuo comparecendo quase religiosamente ao Tio Sam, o boteco onde tenho mesa cativa e encontro minha turma. E não toco em álcool", garante. Só falta parar de fumar. "Estou pensando mesmo. Começo a me sentir sem fôlego."

O inferno ficou para trás, com o ex-padre de Diário do Farol. É curioso reparar que aquele personagem destrutivo, verdadeira personificação do mal, vivia isolado numa ilha inóspita, que em nada se assemelha à alegre e populosa Itaparica, onde João Ubaldo ambientou outros livros e agora O Albatroz Azul. Embora o animal do título só apareça no final, passa uma ideia de transcendência. "Dizem que é lenda, mas tem gente do mar que garante que o albatroz dorme lá em cima, no céu. Vive no ar, se aproveitando das correntes. É uma ave majestosa que se confunde com o próprio céu", diz o autor.

 

O que ela significa? A epígrafe do livro, a frase "Ninguém sabe", dá uma pista. João diz que é bem possível que seu romance tenha parentesco com o Livro de Jó, do Velho Testamento. "Isso deve soar como uma pretensão inaudita, o que de certa forma seria, se não fosse o fato de eu estar dizendo isso com humildade. Quando Deus fala a Jó, não pede desculpas por ter maltratado tanto aquele filho fiel. Ele apenas aparece e diz: 'O que é que você sabe?'. E devolve tudo que lhe foi tirado, sem mais conversa. Parece-me uma pretensão enorme querer entender algo que está fora do tempo. Como dizia Padre Vieira, para Deus todos os tempos são presente."

 

A metafísica é uma questão que inflama o escritor, especialmente a pretensão da ciência em refutar o divino. "Do mesmo modo que ninguém pode provar a existência de Deus, ninguém pode desprovar. O método científico não é a única maneira de se abordar a realidade. Ele recusa a chancela de verdade a tudo o que não pode ser submetido à verificação científica. Ou seja, converte a própria incapacidade numa vantagem. Já que não nos é dado conhecer, essa coisa não existe."

 

Nos sete anos em que ficou sem publicar um romance, João Ubaldo chegou a esboçar outros dois projetos. O primeiro seria um livro intitulado simplesmente Si, sobre a consciência de si. "Comecei a fazer, mas tive problemas de computador terríveis, parecia maldição. Aí perdi a embocadura. Então comecei a escrever outro livro, que parecia ser este. Mas estava me saindo descomunal, uma Montanha Mágica qualquer. Eu ia fazer um livrão, mas ele se recusava a sair. Aí pensei cá comigo: 'Ninguém lê livrão'. Deixa sair pequenininho mesmo."

O jogo entre pretensão, representada pela arrogância intelectual do padre de Diário do Farol, e a despretensão da sabedoria popular dos personagens de O Albatroz Azul é a lente com que João Ubaldo vê a própria vida. "Toda vez em que eu estou me achando, aparece um jeito de eu parar de me achar. Se eu estou me achando extrafamoso, não preciso nem ir para Itaparica. Basta entrar numa livraria. Frequentemente eu peço um livro que não tem na hora e o camarada pergunta meu nome e pega meu telefone. 'Seu João Paulo, quando chegar aviso.' Aí vejo que não sou tão famoso assim."

 

Planos para um novo romance, agora pela nova editora, a Objetiva, João Ubaldo ainda não tem. "E eu sei? Já vivi muito para saber que não adianta planejar. A vida dá voltas por ela mesma." Ainda bem que a dele escolheu dar a volta por cima.

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Cristiane Costa é jornalista e doutora em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

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publicado às 01:23


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