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#2380 - TAEDIUM VITAE

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.05.17

MARCELO GAMA

MARCELO GAMA

(1878- 1915)

 

TAEDIUM VITAE

 

Dias de tédio, amargurados dias,

Estes que arrasto à espera de melhores

Estes de sol, então, são os piores:

Mais me abatem as lassas energias.

 

Porque este sol que me ilumina e aquece,

Embora luz, calor e vida seja

- lascivo sol que a natureza beija

lubricamente, e os seios lhe intumesce - 

 

é o mesmo sol que me amesquinha e oprime,

o alvissareiro da maledicência,

que põe, perfeitamente, em evidência,

esta pobreza vil, que é quase um crime.

 

Por isso à lua, mal o sol se esconde,

Horas fico a cismar, contemplativo...

Abominável terra, esta onde vivo!...

Vêm-me vontades de partir... Mas onde?...

 

Mas onde achar a paz que est'alma aspira?

Se em toda a parte os homens são iguais!

Se aqui na terra são convencionais

Honra e virtude, e o mais - tudo mentira.

 

Lá onde eu fosse chegaria o tédio.

Que à vida é necessário o sofrimento,

E bem sei, para meu maior tormento,

Que esta dor só na morte tem remédio!

 

Todo este mal, toda esta desventura,

Vem do sentir e amar em demasia,

E ver que é sempre simulada ou fria

Toda afeição que eu supusera pura.

 

Conto os meus anos pelas minhas dores,

E são mais minhas dores que os meus anos;

E não bastando os próprios desenganos,

Comovem-me os alheios dissabores.

 

Que uma só vez não há, que eu não vacile,

Quando a desgraça os outros arremete!

Já chego a duvidar como Stecchetti:

- Sono un poeta o sono um imbecile?

 

Tu, que os meus versos lês e que os condenas,

Quando não és de todo indiferente,

Como és feliz! Como é feliz a gente

Que insensível assiste a alheias penas!

 

Bendita aspiração, ditosa sorte:

- extinguir-me, ou vencer estes espaços!

Por que nos teus escanifrados braços

Não me estrangulas, redentora morte?

 

Ontem levaste, aqui da vizinhança

A pobre mãe de três loiros filhinhos,

E entregaste-os à dor! Beijos, carinhos,

Mudaram-se em cruel desesperança.

 

E deixaste-me entanto, atormentado,

Escravo destes miseráveis nervos!

Meus dias, que penoso é maldizer-vos,

Sendo até pela morte desprezado!

 

Morrer!... Antes morrer! Que só existe

No renunciar à vida a paz perfeita.

Tornar-se a gente em pó, na cova estreita,

É deixar, finalmente de ser triste.

 

E se algum dia for desenterrada

Minha carcaça, hão-de me ver sorrindo...

Porque as caveiras riem, assistindo

Deste mundo à infinita mascarada.

 

Poema do poeta brasileiro Marcelo Gama

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Marcelo Gama, pseudônimo de Possidônio Cezimbra Machado foi um poeta e jornalista brasileiro. Foi um dos maiores representantes da poesia simbolista no Rio Grande do Sul, movimento forte naquele Estado.

 

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publicado às 18:47



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