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#2378 - Espanto e fragmento

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.05.17

Gonçalo M. Tavares

a interrogação, o questionar

 

Começar aqui é interromper uma tarefa noutro lado, claro.

 

A propósito de Heidegger, Steiner escreve. "Precisamos de dar mais assistência ao pensamento." (1)  Esta assistência, esta atenção cuidadosa pode ser interpretada como a atenção que se tem em relação a um ferido e, sendo assim, é quase comovente: não tires os olhos do pensamento; ele precisa de ti. Eis o que cada um de nós poderia dizer. E neste pensamento há uma marca que permite o avanço; a "fonte do pensamento genuíno é o espanto, espanto por, e perante o ser. O seu desenvolvimento é essa cuidada tradução do espanto em acção que é o questionar"(2), escreve Steiner. Questionar "é a tradução do espanto em acção". Não basta, pois, o espanto imóvel,  o espanto contemplativo, precisamos de um espanto agressivo, que ameace, que questione. Um espanto que sabe para onde vai. Como diz uma das personagens de Musil: é "tão simples ter força para agir e tão difícil encontrar um sentido para a acção!"(3)

Para Heidegger, segundo a interpretação de Steiner, as "técnicas metafísicas de argumentação e sistematização impedem-nos [...] de exprimir os nossos pensamentos no registo vital da interrogação"(4). Mas a interrogação é essencial. Impor afirmações que põem questões.

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(1) - Steiner, George - Heidegger, 1990, p. 53, Dom Quixote.

(2) - Idem, p. 54.

(3) - Muitas das vezes, escreve ainda Musil, no mesmo excerto, o Homem encontra um sentido único e fecha-se nele: "o Homem não faz mais do que repetir, durante toda a sua vida, um só acto: ingressa numa profissão e progride nela".(Musil, Robert, O Homem sem Qualidades, 3.º Tomo, p. 90, Livros do Brasil)

(4) - Steiner, George - Heidegger, 1990, p.54, Dom Quixote

 

Excerto retirado do livro Atlas do Corpo e da Imaginação de Gonçalo M. Tavares, Capítulo I - O Corpo no Método, pags., 25 e 26 - Editorial Caminho, Setembro de 2013

 

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publicado às 18:45



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