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#2374 - GENÉRICO

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.05.17

 fernando assis pacheco (1937-1995)

 

GENÉRICO

 

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos

das lágrimas quebrando

um a um na boca triste mas

por dentro, para que digamos

mais tarde, sem invenção escusada:

o pai não chorou.

 

Eu soube das tuas fúrias

mordendo-se em silêncio,

ou de como te pões

às vezes tão de cinza.

O barco, o barco. Ficaremos

ainda estes minutos quantos.

Do que quiseres. E como quiseres.

Fala. Mas nada de telegramas

para depois da barra

- posso não os abrir,

juro que posso.

Se eu fosse um amigo, se estivesses

em frente dum copo.

Custava menos. Assim

deslizas a unha

pelo tecido da farda, inútil

dedo terno com os olhos longe.

O pai, que não chorou, tremia

de modo imperceptível.

 

Lembro-me da bebedeira

em Alpedrinha, na estalagem,

com o Luís Melo

subitamente velho.

«Tramados, pá, tramados.»

O carro falha, são as velas

os platinados sujos

«a puta que os pariu» (Luís).

 

Um último aceno só vinho

para estas adolescentes

ao balcão do bar e depois e depois?

 

Mas o pai não chora.

Segura-me pelo braço, não chora.

Eis o filho

dos anos meus incorruptíveis.

Nasceria de uma pedra.

Longe do mundo é que ele nasceu.

E não mo tireis nunca

ó cegos capitães!

 

Meia hora antes o pai

filmou o Tejo, as tropas.

Era um barco, um barco onde ele ia.

Era um barco cheio.

 

Poema de Fernando Assis Pacheco (CÃU KIÊN: UM RESUMO, 1972)

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publicado às 18:19


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