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Que surpresa nos vai trazer a religião de Khalid Masood? Sem qualquer pista, por enquanto, aguardemos

Na manhã de ontem, a primeira-ministra britânica Theresa May forneceu alguns dados sobre o autor do atentado da véspera, em Westminster, na vizinhança do Parlamento. May disse que ele era "britânico de nascimento" e tinha sido investigado há alguns anos por extremismo violento, pelo MI-5 (as secretas para a segurança interna). E ela acrescentou que o terrorista não estava atualmente sujeito ao radar das polícias. O jornal The Guardian confirmou esta informação: o homem não estava entre os 800 indivíduos do núcleo duro que a polícia seguia, nem tão-pouco do círculo mais largo de três mil suspeitos. Entre todas estas especificações talvez nenhuma fosse mais reveladora do que esse "britânico de nascimento", que a primeira-ministra se achou obrigada a dar.

Horas antes da declaração de May, tinha sido lançada uma campanha de Nigel Farage contra a política laxista nas fronteiras, permitindo que os terroristas as atravessem ao deus-dará - como o atentado, dizia ele, demonstrava. No ano passado, já Farage e o seu partido, o UKIP, levaram o primeiro-ministro David Cameron a convocar o referendo do brexit. Era uma manobra para mostrar que os nacionalistas extremistas, que andavam a mordiscar o eleitorado conservador, não tinham tanta força como se supunha... Mas o brexit venceu, Cameron mordeu o pó e demitiu-se. A sua sucessora, Theresa May, preferiu não menorizar o poder de Farage e apressou-se a combater a ideia que ele fazia passar. O homem do atentado era bem um britânico feito em casa, não um terrorista importado!

 

Sublinhemos este primeiro combate anacrónico. No atentado de Londres em julho de 2005, as bombas em três carruagens de metro e num autocarro foram acionadas por Mohammad Sidique Khan, 30 anos, nascido em Leeds, Hasib Hussain, 18, também de Leeds, Shehzad Tanweer, 22, nascido em Bradford, e Germaine Lindsay, de 20 anos, nascido na Jamaica mas a viver desde os 5 em Dalton, Inglaterra. Não há dúvidas serem todos britânicos, nascidos (com exceção de Lindsay), educados e a viver em Inglaterra. A única dúvida é sobre o número de mortos: há quem diga que são 56. Não é verdade, são 52. Pôr quatro dos mortos no rol de gente é insultuoso. Em todo o caso, que sentido faz adiantar a discussão entre May e Farage, pura politiquice? Já há uma dúzia de anos um facto mostrou que, neste terrorismo, as fronteiras não são a questão maior.

Poucas horas depois da declaração de Theresa May, a polícia veio precisar algumas informações sobre o homem do atentado (que fora abatido pela polícia). O terrorista foi identificado como Khalid Masood. Nasceu a 25 de dezembro de 1964, em Kent, condado próximo de Londres, e vivia no West Midlands, condado mais a norte, próximo de Birmingham. Em 1963, Masood teve o seu primeiro registo policial, e o mais recente em 2003, no qual foi condenado por posse de uma navalha. Era conhecido por usar vários nomes mas não estava fichado por suspeitas de atos terroristas.

Tanta informação, e tanto nada, porém. É o que se sabe, por enquanto, do autor do ato terrorista que custou a vida a cinco pessoas e uma quarentena de feridos. Perdão, sejamos exatos: se as autoridades não têm número certo de feridos, aceitemos o "cerca de quarenta", mas os mortos são quatro. O outro, Khalid Masood, foi com os cães. Quanto ao mais, sobre ele sabem-se só aquelas minudências todas. Nasceu a 25 de dezembro, mas suspeito que não se pode especular sobre uma hipotética lógica de calendário: cristão ortodoxo, católico, protestante, ou por aí? Nem, por ironia de calendário: xintoísta, judeu, ateu, rastafári, umbandista, druida, ou por aí? Então que surpresa nos vai trazer a religião de Khalid Masood? Sem qualquer pista, por enquanto, aguardemos.

Entretanto, já sabemos a idade, até porque temos a data exata. Mas o que nos diz ter ele 52 anos? Os terroristas já não são os adolescente de antigamente com as hormonas aos saltos, que os fazia explodir carruagens ansiando por virgens. Ainda no mês passado, Jamal al-Harith, também britânico, fez-se explodir num carro armadilhado em Mossul, Iraque. Ele havia recebido um milhão de libras de indemnização em 2004 por ter estado preso em Guantánamo durante dois anos, sem se saber porquê. O que há talvez a concluir com Jamal al-Harith é que ele tinha 51 anos. Parece-me estranho, mas na verdade uma das pistas que temos com o que aconteceu esta semana em Londres pode ser esta: agora, aos homens, o dobrar dos 50 dá-lhes para atentados.

Ah, e ser de Kent. Já sabemos ser um condado inglês, mas esqueci-me de vos dizer que Kent é conhecido como "o jardim de Inglaterra". Olha, outra pista: será do pólen? Como já repararam estou às aranhas com este caso. Talvez nos próximos dias saibamos de um qualquer pormenor - que até agora nenhuma autoridade referiu - sobre Khalid Masood, 52 anos, cidadão britânico, nascido em Kent. Que extraordinário dado nos está a ser sonegado, sobre este homem que esmagou 40 pessoas e apunhalou um polícia, à porta do Parlamento.

Vou contar-vos um receio meu: é que, já hoje ou amanhã, as autoridades enfim revelem uma condição de Khalid Masood que me leve a encolher os ombros e dizer: "Mas isso já eu sabia." Isso farei eu, que sei que essa condição dele não é uma condição suficiente para se ser terrorista. Para muita gente, porém, este esconder, torcer, hesitar em encarar um problema real, leva-a a não ver o problema. Não vê mas suspeita: porque me escondem o problema?

 

 

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publicado às 11:37


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