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#2203 - O MEU IRMÃO ABEL, O FERIDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.03.17

 PHILIP LEVINE

 

O MEU IRMÃO ABEL, O FERIDO

 

Ele desenhou o nosso futuro na poeira

com uma faca partida que guardava

escondida numa garrafa verde de vinho

sob o sicômoro. Um círculo significava

um ano absolutamente perfeito.

Uma linha recta significava, o quê?

- ele não dizia, rindo quando

eu perguntava e repetindo: «É melhor não

saber mais do que o necessário.»

Em breve eu teria dezasseis anos,

pequeno para a idade, mas sem medo,

talvez por ele desenhar um grande

X e que chamava a nossa virilidade.

«A partir de agora» disse ele «eu e tu

não daremos quartel e não o pediremos.»

Foi no Março em que plantei rosas

junto à cerca das traseiras, e nevou

quase até ao verão, o ano

em que encontrei margaridas africanas

e as roubei do quintal do vizinho

para plantar no meu. Mais tarde quando a guerra

escureceu os cabeçalhos, e eu

recolhi garrafas de cerveja no beco

para trocar  por sementes de nabo e plantar

ruibarbo e rezei para que o frio

não viesse, acordava no escuro

e via-o debruçado no relógio

a qualquer hora. De manhã

encontrava bandeiras negras pintadas

pela costa norte de África,

negro para eles, negro para nós,

até um dia o mapa desaparecer

e ele se dedicar a passeios noite fora,

mesmo durante as grandes chuvadas de outono,

enquanto nas janelas a minha cara

se esfumava, enquanto o telhado ressoava

no ritmo persistente do nosso sangue

até que eu cai num sono de inverno

sem sonhos de que ele nunca acordou.

 

POEMA DE PHILIP LEVINE

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publicado às 13:25


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